Crônica Brasileira

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No posfácio do livro de autoria de Francine Prose, “Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los” (Rio de Janeiro; Zahar; 2006), escrito por Ítalo Morriconi, ele afirma que “podemos assinalar um traço de personalidade muito presente na formação literária brasileira. Trata-se da crônica como gênero de prosa artística em pé de igualdade com o conto, na grande família das narrativas curtas.

Como leitores brasileiros, todos nós começamos lendo as crônicas de Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Rubem Braga, entre muitos outros. Mais recentemente, um Luis Fernando Verissimo, um Caio Fernando Abreu, um Ignácio de Loyola Brandão – entre tantos e tantas, do Oiapoque ao Chuí. A crônica é o ar que a arte da prosa respira no Brasil. Fomos alimentados por crônicas na escola e buscamos cronistas em nossas primeiras incursões autônomas pelo mundo da leitura.

Em princípio, no princípio, sendo texto jornalístico assinado, a crônica se define por trazer um comentário, uma opinião ou a expressão confessional ou figurada de um sentimento pessoal do cronista sobre os fatos do dia a dia reportados pela imprensa. Sem distinção de assuntos, mas com particular preferência pelo pitoresco cotidiano, em busca do poético, do insólito, do engraçado. Tudo comprimido num espaço de pouquíssimas laudas, ocupando uma coluna no jornal.

Essa crônica sem adjetivos é parenta da crônica política, da crônica policial, da crônica social, da crônica esportiva, da crônica teatral, etcétera. Ela se distingue das primas pela total liberdade temática concedida a seu autor. Inclusive a liberdade de ocupar seu espaço com uma dramatização ou uma ficcionalização a partir de fatos da hora.

Ora, dramatização implica criação de personagens-em-diálogo, reais ou fictícios. Já é técnica literária. Ficcionalizar é inventar história. Pronto, estamos inteiros no campo da pura literatura.

Daí para o passo seguinte é um piscar de olhos: nasce o livro de crônicas, essa instituição editorial tão brasileira. Na imprensa, crônica é gênero jornalístico. Reunida em livro, em compilações e seleções que usualmente realçam a ultrapassagem de fronteiras entre ela e o conto curto ou curtíssimo, a crônica torna-se literatura.

Numa palavra, a crônica é sketch narrativo. Como gênero literário, digna de sair das folhas descartáveis do jornal para as páginas mais duradouras do livro, pouco importa se a origem remota ou imediata do fato contado tenha acontecido na realidade ou não. O que importa é a verossimilhança, sua capacidade de transmitir ao leitor de qualquer época o sabor de uma cena rápida, como fotografia ou cápsula de sentido extraída do cotidiano vivido.

Na qualidade de sketch narrativo, a crônica tem sido praticada e estudada com proveito por quem busca aperfeiçoar-se na escrita literária. Dentre as várias possibilidades apresentadas pelo gênero, destaquem-se as crônicas constituídas unicamente por diálogo ou que se sustentam num texto que é quase só diálogo.

As crônicas têm constituído rico manancial de ideias ao escritor aprendiz sobre como fazer do diálogo veículo de uma narrativa ágil, tanto na forma do diálogo direto quanto do indireto, e também através do uso do discurso indireto livre – aquele em que o autor entra na cabeça do personagem, narrando seus pensamentos através da terceira pessoa.”

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