Do Clássico ao Cult

para-ler-como-escritor-livro-francine-proseNo posfácio do livro de Francine Prose, “Para ler como um escritor”, escrito por Ítalo Morriconi, este diz que, originadas em qualquer tempo, clássicas são as obras imperdíveis, aquelas que sabemos que vale a pena ler, mesmo não as tendo ainda lido. E vale a pena lê-las a qualquer momento, antes ou depois de outras mais antigas, muito anteriores, pouco anteriores ou posteriores.

Vale até mesmo lê-las em resumos e adaptações, como aperitivo para mergulhos futuros na obra original e completa, a “coisa em si”. Adaptações infantis ou juvenis de grandes clássicos podem ser boas colaboradoras na formação de leitores, embora de jovens bem escolarizados se espere que possam ler a obra original.

Clássicos são eternos, mas alguns envelhecem. Com o tempo, alguns são esquecidos, perdem o apelo, deixam de ser clássicos. Saem das prateleiras e vão para o fundo do baú.

A queda de um ou outro clássico no esquecimento mostra que o desgaste natural, assim como peças pregadas por ironias da história, faz com que o cânone literário de uma língua, nação ou cultura seja algo dinâmico, que sofre alterações. Ocorre não só a eliminação de obras que de repente passam a ser encaradas como caducas demais ou irrelevantes, mas também a agregação de outras, “redescobertas” e “resgatadas” da poeira de velhos arquivos e bibliotecas.

Alguns autores perdem modernidade, outros a recuperam, tal como aconteceu com Oswald de Andrade nos anos 1960. Ele, que andava esquecido desde sua morte dez anos antes, foi reposto em circulação pela onda tropicalista. Algo semelhante aconteceu com João do Rio nos anos 1980, retirado pela república dos professores do limbo em que seu nome jazia havia décadas. Houve também uma redescoberta e revalorização das histórias de Nelson Rodrigues (para além de seu teatro) entre os anos 1980 e 90, capitaneadas pelas adaptações televisivas.

Cabe lembrar os bons autores que não alcançaram influência ou repercussão semelhantes às dos que a história ungiu com a auréola de grandes mestres, mas nem por isso deixaram de marcar a formação de alguns escritores em particular. Se o escritor em gestação é leitor voraz, não será um consumidor meramente passivo das opiniões estabelecidas sobre livros.

À medida que se apura no corpo-a-corpo da leitura, o leitor voraz acaba por construir sua lista muito pessoal de autores preferidos. Os seus dez mais. Os seus cem mais. Nesse caso, pode-se dizer que o discípulo escolhe seus mestres, e não o oposto.

E assim nasce, nas prateleiras, o cantinho dos autores cult. O meu favorito, só meu. Preferência personalizada do leitor talvez idiossincrático, certamente exigente. Autores contemporâneos em processo de consagração situam-se geralmente no cantinho cult.

Prazer intelectual intenso. Emoção poderosa porém contida, contida porque poderosa. Fascínio pelo bem-feito da coisa lida, contemplada. Seja clássico, seja cult, é nesses três elementos subjetivos – prazer, emoção e fascínio – que se ancora o excelente em literatura.

a verossimilhança e o suspense são atributos que precisam estar presentes em qualquer obra, seja ela excelente, muito boa ou apenas regular.

  • Por verossimilhança, entenda-se a capacidade de convencer o leitor de que sua história faz sentido, mesmo quando fantástica ou alucinatória. O verossímil é o convincente.
  • Por suspense, deve-se entender, de maneira bem geral, a capacidade de manter a motivação do leitor, de nele despertar a vontade de continuar o livro, de virar as próximas páginas, de deixá-lo um tanto ansioso para saber como as coisas vão se desenrolar e terminar.

Se não há verossimilhança e se não há suspense (ou ao menos surpresas ao longo do enredo), a obra fracassa, será rejeitada por editores e leitores.

O que o livro de Francine Prose nos lembra de maneira muito eloquente é que a verossimilhança depende mais do trabalho com a linguagem que de aspectos construtivos. Em outras palavras: a construção de uma história é uma construção de linguagem. Não basta ter uma boa história para contar. O xis da questão é como ela será contada. É o como que convence.

A construção pela linguagem afasta-se necessariamente das fórmulas e clichês da linguagem de relatório ou da mera reportagem. Nas artes da palavra, o que seduz é o poder da verbalização. Por definição, a literatura vai além da mera reportagem.

O “literário” é o que extrapola ou transcende o mero registro factual. Além desse e de outros atributos ligados a técnicas de narrar, o literário em um texto está relacionado aos elementos de linguagem que conferem ao enunciado a qualidade de uma impressão muito própria, muito pessoal ou mesmo íntima, dita de maneira nova, original, sedutora, forte, interessante, intrigante, curiosa, surpreendente etc. Impressão criada pelo autor e compartilhada por narrador e leitor.

Uma boa história escrita promove o encontro entre a visão íntima elaborada no texto e a visão íntima do leitor, que imagina, vê e sente à medida que lê. Há, portanto, uma cumplicidade, uma solidariedade criada entre o olhar e o pensar do narrador e do leitor, do leitor e do autor.

A impressão literária transparece no ponto de vista da narrativa. É a partir da elaboração do ponto de vista que a linguagem vai deixando de ser linguagem de relatório e adquire as características e as potencialidades poéticas, sugestivas e analíticas do literário. Uma história é contada por alguém (o narrador criado pelo autor) para outro alguém (o leitor).

O narrador é, pois, a voz que conta a história. Pode ser a voz de um personagem (narrador em primeira pessoa), pode ser a voz de alguém indefinido que conta a história em terceira pessoa. São esses os dois tipos básicos. Há outros. E há sobretudo combinações diversas entre diferentes olhares de narrador dentro de uma mesma narrativa.

Francine Prose faz questão de mostrar como as possibilidades são várias, indo muito além do que dizem os manuais de estrutura literária. A voz do narrador, em uma obra de ficção, é criação do autor, tanto quanto os personagens. A impressão literária cria um elo verbal-sensorial-imaginativo entre essa voz e o efeito sentido pelo leitor.”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s