Ficção Realista: Aparente Contradição em Termos

italo-moriconiNo posfácio do livro “Para ler como um escritor”, Ítalo Morriconi diz que há dois elementos, trabalhados por Francine Prose em dois de seus capítulos mais sugestivos, que são tão importantes quanto o ponto de vista na tarefa de dar ao narrador e à narrativa o poder de impressionar o leitor. São eles o detalhe (Capítulo 8) e o gesto (Capítulo 9).

No terreno da literatura francesa, Roland Barthes analisou o detalhe como técnica fundamental na criação do “efeito de real” pela descrição realista. Entenda-se bem: chamo aqui de realista, em literatura, basicamente uma ficção que fala de coisas reais, portanto como o que se opõe às narrativas oníricas ou fantásticas. Uma ficção realista quer parecer real, apesar de totalmente inventada.

Ora, o que tanto Barthes quanto Francine Prose enfatizam é que uma boa descrição realista não depende da exaustividade de inventário e sim da precisão no detalhe. Morriconi crê que o dado novo trazido por Prose nessa questão está no fato de chamar atenção não apenas para o efeito “de real”, e sim para o sentido de efeito exercido por qualquer narrativa (ficcional ou real) sobre o espírito e o corpo do leitor.

Seja o texto realista ou não, seja a narrativa real ou ficcional, aquilo que fica mais rapidamente guardado na memória de quem lê ou ouve é o detalhe altamente significativo. Somente através do detalhe preciso se poderá criar uma cena perfeitamente visualizável pelo leitor.

O detalhe é a alma do bom conto, da boa crônica, e pode ser a alma do bom capítulo de romance. Nas narrativas muito simbólicas, o detalhe significativo usualmente será também a porta de entrada para os múltiplos sentidos do texto.

O mesmo tipo de lógica pode ser observado com relação ao gesto. O gesto altamente significativo, da parte de um personagem, pode ser tão ou mais importante para a criação de um efeito de significação que suas ações, descrições ou diálogos.

Ao aventurar-se pelo terreno social, em seu conto “Céu Negro”, Rubens Figueiredo distingue-se entre os escritores de sua geração, por fazer uma aposta pesada na ficção de cunho realista. Ele, que não é negro, nem trabalhador, nem morador de favela, conta essa história confiando exclusivamente na capacidade de explorar e desenvolver um ponto de vista o mais próximo possível do que seriam a vivência e a intimidade do pensamento do pedreiro por ele inventado.

Tal opção singulariza-se no cenário literário contemporâneo, uma vez que a postura predominante hoje é o lastro autobiográfico. Nossos novos escritores escrevem sobre seus próprios mundos. Ferréz escreve sobre Capão Redondo porque ali nasceu e cresceu. Paulo Lins escreve sobre a Cidade de Deus porque ali nasceu e cresceu. Mulheres escrevem sobre mulheres, negros escrevem sobre negros, homossexuais escrevem sobre homossexuais.

Longe vão os tempos em que Flaubert se orgulhava de dizer que sua personagem madame Bovary era na verdade ele próprio. Pois Rubens Figueiredo retoma a aposta ficcional radical da proposta clássica da literatura realista, baseada no fato de que podemos escrever sobre gentes e tempos muito diferentes de nós se a pesquisa for bem-feita, a imaginação utilizada com inteligência, a técnica narrativa adequada. Na aposta ficcional clássica, o que interessa é a verossimilhança do texto, e não a suposta autenticidade da experiência de vida do autor.

Morriconi não pretende aqui entrar no mérito da discussão sobre a hipotética necessidade ou mesmo superioridade da presença de um lastro autobiográfico na arte literária contemporânea. Eis aí uma questão estética ligada ao problema maior das relações entre ficção e realidade no mundo atual, assunto que vem sendo discutido nas pós-graduações em Letras e Comunicação, e que provavelmente envolve uma reconsideração do papel e do lugar que ainda podem ser ocupados pela ficção literária na cultura das realidades virtuais e dos reality shows.

Porém, a literatura, historicamente, tem resistido e sobrevivido a todas as investidas tecnológicas, na verdade alimentando as artes tecnológicas com a matéria-prima de seus enredos inventados. O conto de Rubens Figueiredo prova que uma boa história, realista mas puramente ficcional, ainda é possível.

O uso da linguagem nesse conto evidencia mestria técnica e pode servir como referencial para quem deseja escrever ficção realista, a mais difícil de todas. Mais difícil se torna a ficção realista quando busca acompanhar a reflexão interna dos personagens criados.

Morriconi destaca a clareza no uso da linguagem e a cuidadosa construção do ponto de vista, que permite a representação do processo interno de pensamento do personagem. A presença do detalhe altamente significativo é um andaime fundamental dessas qualidades, pois funciona como suporte de legibilidade, isto é, como apoio para a visualização da cena, trazendo para o leitor uma compreensão sensível do sentido da narrativa.

2 thoughts on “Ficção Realista: Aparente Contradição em Termos

  1. Prezado Fernando,

    gosto de uma boa ficção quando os personagens narrados agem como se fossem camaleões que espelham a realidade na medida que interpretam seus papeis. Um exemplo: o personagem Mathieu do livro “a idade da razão” de Sartre; representava a própria personificação do escritor, cujos valores e filosofia foram inseridos no personagem.

    Ao ler o livro: O Código da Vinci – Dan Brown (consegui ler esse livro em apenas 5 horas), percebi logo de cara que o autor é um detalhista impressionante, ao demonstrar a proeza e precisão dos personagens (muito inteligentes) que simulam a trama como se realmente estivessem vivenciando aquela realidade ficcional. Abs.

    Segue os ebooks:

    A Idade da Razão – Jean Paul Sartre Pdf: http://www.dopropriobolso.com.br/images/stories/pdf/Jean-Paul_Sartre-A_Idade_da_Razao.pdf
    O Código Da Vinci – Dan Brown Epub: https://drive.google.com/open?id=0B-IzSwsM47nedEQ3Q19GSVpjNjg

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