Tramas da Narrativa

livrosNo livro de Francine Prose, “Para ler como um escritor”, chama a atenção de Ítalo Morriconi a presença do romance no Capítulo 5 (Narração) e no 6 (Personagem). Fazendo uma apreciação sintética das lições que esses capítulos nos passam, constatamos que o elemento central observado é o ponto de vista. Para contar uma história rica de nuances e análises subjacentes, é preciso elaborar o ponto de vista.

Que tipo de olhar vamos lançar sobre o personagem? Que tipo de câmera guiará o olhar do leitor, aproximando-o e afastando-o da interioridade dos personagens, assim como de suas manifestações exteriores?

Prose enfatiza a diversidade possível de olhares, para além dos básicos focos em primeira e em terceira pessoa. Ela também destaca o dinamismo possível do ponto de vista, comentando trechos que ilustram o deslizamento entre pontos de vista diferenciados, às vezes dentro de um único parágrafo.

E aponta para a variedade possível do foco narrativo em primeira pessoa, que tendemos a ver como simplesmente um “eu” narrando, quando na verdade pode fazer parte de jogos mais sofisticados.

Em princípio, a terceira pessoa neutra, onisciente, reminiscente da memória épica ou portadora de uma vontade épica parece mais adequada para narrar histórias de envergadura, com conteúdo histórico, vocacionadas para o painel social ou, no caso de dramas de tipo mais psicológico ou sentimental, adequadas para narrativas envolvendo um número grande de personagens.

Por trás do narrador onisciente em terceira pessoa está o “era uma vez” que é a base cultural profunda do impulso narrativo. Mas o narrador em primeira pessoa ganha importância à medida que a intimidade do ponto de vista afirma-se como componente decisivo no desejo de literatura na modernidade.

O narrador protagonista em primeira pessoa é frequente entre os maiores clássicos do romance brasileiro. Tomemos Grande Sertão: Veredas. Apesar de dirigido a um interlocutor, o discurso de Riobaldo é um monólogo, uma narrativa autobiográfica, em que o protagonista, à medida que conta as lutas e combates de que participou, sustenta uma reflexão sobre o sentido de suas ações passadas e da coragem como valor máximo da virilidade, portanto de sua própria identidade como pessoa.

Tal valor é ostentado em grau maior, paradoxalmente, por aquele guerreiro, Reinaldo, que no final será revelado mulher – o segredo desuas ações passadas e da coragem como valor máximo da virilidade, portanto de sua própria identidade como pessoa. Tal valor é ostentado em grau maior, paradoxalmente, por aquele guerreiro, Reinaldo, que no final será revelado mulher – o segredo de Diadorim.

Duas das mais famosas personagens femininas da literatura brasileira são projeções de um narrador masculino em primeira pessoa: a Capitu de Dom Casmurro (Machado de Assis) e a Madalena de São Bernardo (Graciliano Ramos). Quem poderá jamais dizer que conheceu essas mulheres? Todo o acesso que o leitor tem a elas vem do olhar de quem conta a história: Bento Santiago e Paulo Honório. Aquelas personagens, antes de serem “personagens femininas”, são personagens dos discursos de seus narradores. E é na dinâmica da relação com as figuras femininas criadas por seus discursos que os próprios personagens masculinos emergem como protagonistas.

Este posfácio encerra-se dando uma volta de parafuso em relação ao tema com que se iniciou, várias páginas atrás. O imperativo da leitura de nossos clássicos e cults. Para nós, falantes da língua brasileira (portuguesa-brasileira), essa leitura não é apenas inestimável. Ela é, de certa forma, ainda mais estimável que a leitura dos estrangeiros.

Podemos supor um brasileiro, leitor, amante da literatura, que se satisfaça apenas com a ficção universal, que terá lido em traduções ou no original. Mas quem pretende ler como um escritor, na acepção de Francine Prose, não pode prescindir da prata da casa, os lavores da casa.

Nossos ritmos são só nossos, nossas palavras idem. Existe uma lógica do pensar que é nossa. Ela infunde o sopro do possível ao que enunciamos por escrito. Alma da linguagem.

Até onde vamos? Ponto sempre em aberto no espaço da criação. Estruturas profundas dos sentimentos, misturadas a palavras e pré-palavras.

Se lemos autores estrangeiros, os lemos em traduções, já filtrados pela torção cultural. Uma tradução literária influente é parte da literatura na língua de chegada.

Cada língua tem sua poética. O autor deste posfácio, Ítalo Morriconi, alimenta a esperança de que os exemplos de crônica, conto e romance trabalhados por ele tenham dado ao leitor algum ínfimo lampejo do fundo poético de toda e qualquer prosa ficcional bem-sucedida. Somente a leitura continuada e atenta dos grandes autores brasileiros mergulhará o escritor brasileiro na poética de sua/nossa língua. Língua-mãe, frátria.

Por outro lado, como aponta Prose em uma passagem de seu livro, é bom saber outras línguas e fazer o esforço de ler obras ficcionais estrangeiras no idioma original. Isso mostra-se especialmente útil para desenvolver acuidade de leitura. Ao avançar no texto lenta e dificultosamente, com várias idas ao dicionário, a consciência dos detalhes de linguagem e expressão de nossa própria língua, em contraste com a estrangeira, será imensamente produtiva para todos aqueles desejosos de ler como escritores.

Ao trabalho, proclama Morrioni, “que na esfera das artes trabalhar é sempre, também, fonte de grandes e sutis prazeres.”

Sugestões de livros brasileiros para ler imediatamente:

Abreu, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga

Alencar, José de. Iracema

Almeida, Manuel Antonio de. Memórias de um sargento de milícias

Amado, Jorge. Tenda dos milagres

Andrade, Mário de. Macunaíma

Azevedo, Aluísio. O cortiço

Buarque de Holanda, Sérgio. Raízes do Brasil

Callado, Antonio. Reflexos do baile

Cardoso, Lucio. Crônica da casa assassinada

Carvalho, Bernardo. O sol se põe em São Paulo

Cony, Carlos Heitor. Quase memória

Cunha, Euclides da. Os Sertões

Denser, Márcia. Animal dos motéis/ Diana caçadora

Dourado, Autran. Ópera dos mortos

Drummond de Andrade, Carlos. Prosa completa

Fagundes Telles, Lygia. As meninas

Figueiredo, Rubens. Barco a seco

Fonseca, Rubem. A coleira do cão

Fonseca, Rubem. A grande arte

Freyre, Gilberto. Casa-grande & senzala

Guimarães Rosa, João. A hora e a vez de Augusto Matraga (in Sagarana)

Guimarães Rosa, João. Grande sertão: veredas

Guimarães Rosa, João. O recado do morro (in No Urubuquaquá, no Pinhém)

Hatoum, Milton. Dois irmãos

Hilst, Hilda. Ficções

João Antônio. Malagueta, Perus e Bacanaço

Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma

Lins do Rego, José. Fogo morto

Lins, Osman. A rainha dos cárceres da Grécia

Lisboa, Adriana. Um beijo de Colombina

Lispector, Clarice. A paixão segundo G.H.

Lispector, Clarice. Laços de família

Machado de Assis. 50 contos (org. John Gledson)

Machado de Assis. Dom Casmurro

Machado de Assis. Memorial de Aires

Machado, Aníbal. A morte da porta-estandarte e outras histórias

Marques Rebelo. A estrela sobe

Nabuco, Joaquim. Minha formação

Nassar, Raduan. Lavoura arcaica

Nava, Pedro. Baú de ossos

Noll, João Gilberto. A fúria do corpo

Pena, Cornélio. A menina morta

Piñon, Nélida. Fundador

Pompeia, Raul. O Ateneu

Queiroz, Rachel de. Memorial de Maria Moura

Ramos, Graciliano. Memórias do cárcere

Ramos, Graciliano. São Bernardo

Ribeiro, Darcy. Maíra

Ribeiro, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro

Rodrigues, Nelson. Teatro completo

Sabino, Fernando. O encontro marcado

Sant’Anna, Sérgio. Um crime delicado

Santiago, Silviano. Histórias mal contadas

Santos, Joaquim Ferreira dos (org.). As cem melhores crônicas brasileirasa

Scliar, Moacyr. A mulher que escreveu a Bíblia

Tavares, Zulmira Ribeiro. O nome do bispo

Torres, Antonio. Essa terra

Trevisan, Dalton. O vampiro de Curitiba

Veiga, José J. Os cavalinhos de Platiplanto

Verissimo, Érico. O tempo e o vento (trilogia)

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