Sermões do Padre Antônio Vieira

padre-antonio-vieira-indios-sermoesO jesuíta Antônio Vieira foi um dos maiores intérpretes do Brasil do século XVII. Ele fez isso como um membro notável da casta dos sábios-pregadores ou sacerdotes. Seu objetivo principal foi promover a integração harmoniosa dos indivíduos, estamentos e ordens do Império português, desde as castas dos aristocratas até os párias – escravos negros e índios –, visando sua “redenção coletiva como um ‘corpo místico’ unificado”. Assim João Adolfo Hansen, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999) resume os Sermões do Padre Antônio Vieira.

Vieira sacraliza a dinastia dos Braganças, adotando a concepção católica da predestinação divina da Monarquia Absolutista, em um período (1624-1697) em que na Inglaterra uma guerra civil questionava-a e transformava-a em Monarquia Constitucionalista ou Parlamentarista. O papel servil ao Poder dos sábios pregadores no Brasil vem de longe…

Em seu tempo, “Brasil” nomeava o Estado do Brasil, isto é, um território correspondente à Bahia e às capitanias sob a jurisdição do governador-geral sediado em Salvador. Somava ao Estado do Maranhão e Grão-Pará para formar então o domínio colonial português na América. Este último, criado por um decreto real em 13 de junho de 1621, correspondia aproximadamente ao território dos atuais estados do Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e partes do Tocantins e Amazonas.

Na leitura dos Sermões, não se pode esquecer que havia toda uma dramatização deles pela voz e pelo corpo do padre no púlpito. Essa primitiva natureza oral especifica historicamente a prática de Vieira como “solução” católica para a questão do contato do fiel com Deus.

Em 1517, Martinho Lutero defendeu que bastava ao fiel ter uma bíblia e lê-la individualmente, em silêncio, para pôr-se em contato com Deus. Essa tese luterana de “apenas a Escritura” pressupunha:

  1. a posse da bíblia e
  2. a alfabetização dos fiéis.

Ela tornava desnecessária a mediação do clero e dos ritos visíveis da Igreja. Imagine se a casta dos sacerdotes dispensaria os ganhos de intermediação entre a santa fé e a plebe rude! Melhor deixa-la ignara para sempre, ou seja, “agora e na hora da nossa morte, amém”!

No Concílio de Trento em 1536, reunido para combater a Reforma protestante, teólogos jesuítas e dominicanos declararam a tese da sola scriptura herética, delimitando a tradição de só se ler os textos canônicos autorizados pela Igreja. Nos países católicos, a posse particular da Bíblia e sua leitura individual foram proibidas!

Então, a Igreja achou imprescindíveis, para dominar corações e mentes, os ritos visíveis e a espetacularização dos sacramentos, impondo a audição coletiva da pregação. Contra Lutero, o interior dos templos tornou-se um espaço de luxo e pompa, envolvendo os sentidos dos fiéis com a profusão de imagens, músicas, perfumes e pregações. O púlpito passou a ocupar uma posição elevada, significando a autoridade do pregador sobre a audiência inculta. Renovou-se o calendário litúrgico e novas festas religiosas (e mercantis) com novos santos sendo celebrados. O show tinha de continuar…

Em Portugal e Brasil, a Companhia de Jesus, recém-fundada em 1540, responsabilizou-se pelo ensino da eloquência sacra em seus colégios, adotando como exemplo as obras retóricas de grandes oradores da Antiguidade grega e do Império Romano. A pregação foi definida como intervenção efetiva na vida prática dos fiéis. Hoje, mantendo essa longa tradição de subserviência ao sagrado, os pregadores neoliberais cumprem sua missão divina de catequese cotidiana, na imprensa brasileira, em favor do livre-mercado

Como o termo latino sermo indica, o sermão é uma fala, no caso, dramatizada pelo pregador para a audição e a visão de um público que deve ser persuadido da verdade e validade universal da doutrina católica.

Os Sermões de Vieira repartem-se pelos três grandes gêneros oratórios da retórica aristotélica:

  1. Deliberativos: propõem a decisão sobre algo futuro;
  2. Judiciais: julgam personagens ou eventos passados;
  3. Epidíticos: celebram (ou atacam) personagens e ações no presente.

Em todos os gêneros, Vieira sempre transmite um conteúdo doutrinário dogmático, letrado, culto e erudito, para ouvintes iletrados e incultos, como colonos, índios, negros, mamelucos e mulatos do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará. Ele torna o conteúdo dogmático não só compreensível, adaptando-o ao auditório, mas também eficaz na tradução dos dogmas em uma argumentação capaz de ensinar, agradar e comover os ouvintes. Seu sermão é, simultaneamente, didático, teológico e político.

Embora na oratória sagrada do século XVII o tema fosse totalmente imposto pelo calendário litúrgico e pela obrigação de tratar textos bíblicos prévios, com conteúdos específicos, Vieira conduzia os temas para as questões políticas e econômicas que mais lhe interessavam,

A adaptação, chamada de concordância, consistia em demonstrar semelhanças proféticas entre o sentido da vida dos homens e acontecimentos da bíblia, tais como os eventos do presente. A semelhança era interpretada como presença providencial de Deus orientando uns e outros tanto no passado quanto no presente.

O sermão aparece então para o pregador e para o público como um discurso divino, repetido a “palavra de Deus”. Os jesuítas do século XVII concebiam o sermão como um “teatro sacro”, utilizando a arte de pregar como dramatização das verdades sagradas. Vieira possuía um estilo agudo, engenhoso, florido, esquisito, concitativo, ou seja, aquele que anima, encorajador, estimulante.

Ele acirrava a subordinação ao poder espiritual e ao poder temporal, pois era instigativo ao ser fundamentado na mais ortodoxa teologia e na mais estrita lógica. Como ministro da pregação e propagação da fé católica, ele se via como instrumento da conservação e aumento da Monarquia portuguesa.

A oratória sacra dos jesuítas portugueses defendeu essa íntima fusão dos poderes, visando a “conservação” e o “aumento” da Monarquia como aperfeiçoamento da “política católica” do Estado absolutista aliado ao Papa. Desde que Santo Tomás de Aquino tratou da unidade de integração do corpo humano como a pluralidade dos membros e a diversidade das funções em uma integração harmônica definida como “ordem” subordinada ao princípio superior que o rege, “a alma”, daí para a ordem social foi um pequeno passo.

Por analogia, o corpo social era comparável ao corpo natural do homem. A sociedade era composta por membros, partes ou ordens em que sua cabeça ou razão suprema era o rei. Logo, este a regia, racionalmente, tal como a cabeça dirigia o corpo, tendo por finalidade o bem comum, a harmonia e a ordem do todo. Os indivíduos do reino, dos escravos aos nobres da casa real, eram todos membros subordinados à cabeça, o rei.

[FNC: O sistema de castas (Varna) indiano é também dividido de acordo com a estrutura do corpo de Brahma. As quatro principais castas são:

  1. A cabeça (Brâmanes) representa os sacerdotes, filósofos e professores;
  2. Os braços (Xátrias) são os militares e os governantes;
  3. As pernas (Vaixás) são os comerciantes e os agricultores;
  4. Os pés (Sudras) são os artesãos, os operários e os camponeses.
  5. A “poeira sob os pés” não foram originados do corpo de Brahma, por isso não pertencem às castas, mas tem um nome: são os Dalit ou párias, chamados de intocáveis (a quem Mahatma Gandhi deu o nome de Harijan, “filhos de Deus“).

Os Dalit são constituídos por aqueles (e seus descendentes) que violaram os códigos das castas a que inicialmente pertenciam. São considerados impuros e, por isso, ninguém ousa tocar-lhes. Fazem os trabalhos considerados mais desprezíveis: recolha de resíduos, coveiros, talhantes, etc.]

Em toda sua obra, Vieira visava a subordinação de todos os estamentos sociais ao “bem comum” do reino. No pacto da sujeição, o rei tinha o monopólio da violência militar, jurídica e fiscal, conferindo os privilégios que hierarquizavam os indivíduos e as ordens sociais. O rei não tinha superior, pois era absoluto, ou seja, “absolvido” ou “livre” do poder coercitivo das leis mundanas.

Como rei católico deveria, necessariamente, seguir a lei natural de Deus – estabelecida pela sua representação terrena, a Santa Fé Católica Romana – para que seu governo fosse legítimo. Se fosse tirânico, em sua desobediência, poderia então ser destronado e morto pelos súditos.

Diferentemente da crença protestante, em que o rei era sagrado porque reinava por “direito divino” como enviado direto de Deus, para impor a ordem aos homens naturalmente inclinados à anarquia, na crença católica, adotada em Portugal, a figura do rei era sagrada porque representava a soberania popular alienada nela. Isto implicava em reconhecimento de que a desigualdade era natural, devendo cada indivíduo necessariamente contentar-se com a sorte que lhe cabia na hierarquia social.

Logo, a louvação do rei virtuoso, que conduzia seu povo ao bem comum, e a submissão harmoniosa dos súditos como “corpo místico” de vontades unificadas no pacto de sujeição eram lugares-comuns na oratória de Vieira. Fazia inclusive sermões bélicos, seja contra a Espanha, seja contra os invasores holandeses.

Toda obra de Vieira está relacionada com as questões éticas, políticas, econômicas, religiosas e jurídicas que agitaram interna e externamente a sociedade portuguesa, no século XVII, envolvendo os reis da Casa de Bragança e os dos demais reinos. No entanto, em agosto de 1681, o papa restabeleceu a Inquisição em Portugal. Muitos comerciantes cristãos-novos foram presos. Em Coimbra, estudantes queimaram um boneco vestido de jesuíta, declarando que era Vieira, “judeu vendido para judeus”.

Na Bahia, durante seu desterro entre 1681 e 1694, enviou muitas cartas para Portugal pelas frotas anuais. Eram cartas deliberativas e judiciais, familiares e negociais, tratando dos assuntos particulares e públicos do Império português: a crise da economia açucareira, a seca, a fome, o cometa, a “bicha”, a febre amarela vinda nos navios negreiros.

Porém, nas fazendas dos jesuítas não havia nenhuma distinção na divisão de tarefas entre os índios e os escravos africanos. A renda vinha do trabalho escravo de todos esses subordinados aos europeus sem maiores questionamentos por parte do sábio pregador

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One thought on “Sermões do Padre Antônio Vieira

  1. Prezado Fernando,

    a religião é o maior atraso humano em nosso planeta e Deus é o maior de todos os equívocos. Não há pior livro para se ter na estante do que uma Bíblia, é um símbolo do analfabetismo contemporâneo. Quem ainda acredita em Deus no século XXI não foi capaz de superar o dogma, trazido ao nosso povo pelos portugueses e isso causa um enorme atraso em todas as áreas. Tenho criticado o Leonardo Boff no blog dele, ele mesmo, já deve saber que Deus é uma invenção, mas continua mantendo fieis ligados à crença, se ele é uma autoridade em sua área, bem que poderia dizer a todos que Deus foi uma invenção cultural, embora possa chocar até mesmo seus leitores, seria um ato corajoso e honroso, diria que seria uma plena limpeza da consciência antes de morrer.

    Um povo sem Deus possui valores centrados no compartilhamento cultural cujas responsabilidades estão focadas no puramente humano, sem dogmas, desculpas ou subterfúgios (apelos) metafísicos.

    O que mais me surpreende: como nosso povo foi cair no conto desse vigário!? rsrsrsr D:

    Tenho esperança de que nossos jovens (os mais velhos já caíram no conto do vigário desde o descobrimento) possam se livrar do vírus religioso e consigam limpar suas redes neurais, segue o antídoto: Deus = Null. Abs.

    Francesca Michielin – Nessun Grado di Separazione (Nenhum grau de separação – tradução): https://rcristo.com.br/2016/07/30/francesca-michielin-nessun-grado-di-separazione-nenhum-grau-de-separacao-traducao/

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