José Bonifácio, o Estadista

fachada-em-santosNa América Latina, na mesma época da Independência do Brasil, ocorreram as formações de novas nações independentes da Espanha, correspondendo à formação de Estados nacionais em conjunto o processo de descolonização. No entanto, Carlos Guilherme Mota, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), salienta que o nascimento do Brasil ocorreria sob a preeminência inglesa, com a permanência da dinastia dos Braganças, que, fugindo das tropas de Napoleão, atravessaram o Atlântico escoltados pela armada britânica.

Enquanto a maior parte das principais lideranças portuguesas emigrou para a ex-colônia, trazendo consigo boa parte de recursos e quadros administrativos e tornando-a a primeira colônia a sediar uma Corte monárquica, lá ficou o santista José Bonifácio de Andrada e Silva, intelectual e cientista dos mais destacados da Europa.

Personagem proeminente na vida pública europeia, professor em Coimbra amadurecido na cultura do Iluminismo, era um cosmopolita e viajado pesquisador, tradutor, crítico, homem de ação. Mas mesmo com todo esse cabedal, o “Brasileiro” foi afastado no processo de implantação da corte e na reorganização do governo bragantino na ex-colônia tropical.

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Bonifácio só regressaria em 1819 já com 56 anos, após 36 anos longe do Brasil. Participou do processo de tentativa de consolidação do Império Luso-Brasileiro, questionado pela revolução liberal de 1820 em Portugal, recolonizadora, e pela proclamação da Independência no Brasil.

Nos embates entre a rebeldia descolonizadora, a contrarrevolução e a conciliação, teve papel decisivo na liderança da construção do Estado brasileiro. Em 1833, alijado do jogo de poder, o Brasil dependente e escravocrata assumia um lugar distinto do que ele projetava junto às demais nações.

Para se construir no Atlântico sul um novo país e formar uma Nação, Bonifácio tinha noção clara do requisito de ter um povo e uma identidade nacional com certa homogeneidade étnica e cultural. Influenciado pelos fouding-fathers norte-americanos, desde o início do século XIX ele busca a definição de uma identidade cultural brasileira que seria “mulata”, isto é, avant la lettre, Manifesto da Tropicalização Antropofágica Miscigenada.

A cultura que se quer brasileira e o Estado precisam não só de um Território, mas também de um Povo para se tornar uma Nação. Esta necessita de uma auto explicação, ou seja, uma identidade de coesão ideológica de seus habitantes.

No caso do Brasil pós-independência, não se tratava de buscar as raízes na história de Portugal antigo ou medieval, nem tampouco na África, ou nos nativos das matas tropicais. Antecipando Rondon e também Gilberto Freyre, o “patriarca da Independência” entendia que “o mulato deve ser a raça mais ativa e empreendedora, pois reúne a vivacidade impetuosa e a robustez do negro com a mobilidade e sensibilidade do europeu, pois o índio é naturalmente melancólico e apático”.

Em vez de defender a emancipação livre de um povo, raciocinava dentro dos limites do racismo de outrora. Acreditava-se, então, que existiam “raças humanas” e não apenas uma única.

Carlos Guilherme Mota considera seus textos os mais coerentes em termos de um Programa e de uma Teoria do Brasil, em todo o século XIX, quando versavam sobre os índios e os negros na ex-colônia. Para esse líder iluminista, que conhecera Paris durante a Revolução Francesa, impunha-se eliminar o cancro da escravidão e redefinir o papel do elemento nativo, o mais autenticamente “nacional”. Em sua teoria, o equacionamento dos dois temas não surge dissociado da questão da terra, isto é, da propriedade rural.

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Leia mais: José Bonifácio – Obra Completa

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