Autobiografia do Barão de Mauá

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Jorge Caldeira, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha um livro que, “na avaliação de Celso Furtado, é um dos quinze livros básicos para se entender o Brasil”: Autobiografia (ou Exposição aos Credores) do Barão de Mauá. Escreveu-o em apenas quinze dias de 1878, para assumir o papel público de empresário derrotado, pois o debate de ideias desempenhava um papel muito secundário face às suas prioridades de empresário.

Depois de resumirmos a essência das obras clássicas de membros da casta de sábios-pregadores (Padre Vieira e André João Antonil), sábios-tecnocratas (José Bonifácio de Andrada e Silva), servis à casta dos aristocratas e suas dinastias, vale analisar o choque de interesses entre um membro da casta de comerciantes-industriais (Irineu Evangelista de Souza, ou Barão/Visconde de Mauá) e membros da casta de aristocratas proprietários de terra e governantes.

Irineu Evangelista de Souza nasceu na província do Rio Grande do Sul em 1813. Após a morte do pai, viajou com o tio materno para o estado do Rio de Janeiro, onde desembarcou em 1823. Ele se instalou na Rua Direita, 155, mesma rua da sede dos negócios de João Rodrigues Pereira de Almeida.

Durante o período em que trabalhou para este, Irineu exerceu a função de caixeiro e se especializou em Contabilidade, área em que aprendeu como se funciona uma empresa. Chegou ao comando dos negócios de seu patrão. Com a proibição do tráfico de negros, a empresa de Pereira de Almeida foi à falência, pois era este a fonte de sua maior renda.

Irineu passou a cobrar mais rigidamente os devedores da empresa para que Pereira de Almeida pudesse pagar todas as suas dívidas e ainda ficar com sua casa e terras. Conseguiu pagar a todos os credores da empresa. O principal deles era o escocês Richard Carruthers, em cuja empresa, a Carruthers & Co, conseguiu emprego.

Irineu aproveitou a oportunidade para aprender inglês, língua oficial de seu novo patrão, essencial para a realização dos negócios da empresa. Aprendeu também a explorar as diferenças entre cotações de libras em réis para fazer arbitragem internacional. Fez um curso completo sobre Economia Política e entrou na maçonaria. Acabou tornando-se sócio-diretor da Carruthers & Co.

Depois de uma viagem à Inglaterra, decide replicar no Brasil o que viu na Revolução Industrial, inovando aqui também. Seu primeiro empreendimento foi a construção de um estaleiro, o Estabelecimento de Fundição e Estaleiros Ponta da Areia, responsável pela produção de navios, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, armas e tubos para encanamentos de água, tornando-se a primeira indústria naval do Brasil.

Promoveu o encanamento de água do Rio Maracanã, no Rio de Janeiro, e forneceu os tubos para tal realização, ao mesmo tempo que fundou a Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas. Inovou ao fundar uma companhia de gás para a iluminação pública do Rio de Janeiro em 1851, a Companhia de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro, substituindo a iluminação de lampiões com azeite de peixe.

Inaugurou o trecho inicial da União e Indústria, a primeira rodovia pavimentada do país, entre Petrópolis e Juiz de Fora. Participou da construção da Recife and São Francisco Railway Company em parceria com capitalistas ingleses e cafeicultores paulistas. Participou também da construção ferrovia Dom Pedro II, hoje conhecida como Central do Brasil e da São Paulo Railway, atualmente chamada Santos-Jundiaí.

Ganhou seu segundo título de nobreza, o de Visconde de Mauá, pela instalação dos primeiros cabos telegráficos submarinos, ligando o Brasil à Europa. Além de reorganizar o segundo Banco do Brasil, logo estatizado por seu adversário político, Visconde de Itaboraí, Irineu fundou anos depois o Banco Mauá, MacGregor & Cia, com filiais em algumas capitais nacionais e também internacionais como Londres, Nova Iorque, Buenos Aires e Montevidéu.

Com 30 anos, ele já se colocava entre os homens mais ricos do país na época. A partir daí, passou a ser alvo de disputas e inveja.

A produção e exportação de café fez surgir uma nova elite na sociedade brasileira, os Barões do Café, cujos ideais eram opostos aos de Irineu. Eles não apoiavam o desenvolvimento via industrialização, iniciada por este último, porque tal modelo capitalista e industrial era incompatível com o escravismo.

Somente após a Lei Áurea, em 1888, quando a extinção da escravidão levou à adoção da mão-de-obra assalariada, possibilitando o surgimento de um mercado consumidor mais amplo a ser atendido por investimentos nas atividades industriais, tal conflito de interesses foi sendo superado, embora alguns defensores da “vocação agrícola” do país persistam até hoje.

Antes, no país, a riqueza era dada por posse de terras e escravos. Irineu ficou rico sem investir em terras e detestando a escravidão. Era liberal e se chocava com o conservadorismo, criticando a política econômica ditada pela postura conservadora.

Para os outros ricos, fazendeiros e seus parasitas, “os comissários do café” no II Reinado, a fortuna de Irineu era “injusta”, porque era fruto de cálculos que eles não conheciam por parte de uma “pessoa pouco qualificada socialmente”, isto é, não herdeiro de uma dinastia tradicional. Abominavam a impessoalidade pressuposta do capitalismo que colocava em questão a “ordem natural” da escravidão e da vocação agrária do país ao condenar quem vivia do trabalho alheio escravizado.

A modernidade seria explorar o tempo de trabalho empregado além do necessário para a própria reprodução da força do trabalho. Para isso seriam necessários empreendimentos industriais para os quais a casta de aristocratas, particularmente, não tinha iniciativas.

Irineu foi classificado como argentário, interesseiro, inimigo da Pátria, destruidor da solidez da Nação. Respondia às críticas com novos empreendimentos e o manejo de símbolos da casta antagônica: o título de Barão de Mauá — “algum mau há” ironizavam os adversários. Este título ele recebeu em 1854, no dia da inauguração da primeira estrada de ferro brasileira (terceira da América do Sul), que ligava o porto de Estrela à raiz da serra de Petrópolis, em um trecho de 14 km.

Usou também sua fortuna para se eleger deputado pelo Rio Grande do Sul, sua província natal. Subiu à tribuna apenas para representar os próprios interesses:

  1. se defender de ataques pessoais e
  2. justificar seus negócios.

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