Pedro Dutra Fonseca: Existe Populismo de Direita?

curto-e-grosso-contra-o-populismo-de-direitaExemplo de cartaz divulgado pelo movimento neofascista brasileiro:

populistas-fim-festa-america-sul1Na oportuna entrevista do estimado colega social-desenvolvimentista da UFRGS, Pedro Dutra Fonseca, ao jornal gaúcho Zero Hora — leia completa em: PEC do Teto tira a esperança das pessoas — tem uma pergunta cuja resposta achei polêmica. Há um grande debate a respeito do que se trata como “populismo“.

Na boca da elite paulistana/tucana, tudo que beneficia ao povo e demonstra “coração-mole” em seu tratamento, por exemplo, ao não se tomar “medidas impopulares”, reivindicadas por todos os associados da FIESP (e cúmplices do golpe contra a democracia eleitoral) ao presidente golpista, é mero “populismo“.

Pior, economistas novos-desenvolvimentistas costumavam classificar de “populismo cambial“, quando o governo de base trabalhista (2003-2014) se recusava a dar um choque cambial, que detonaria um choque inflacionário e a corrosão dos salários reais de sua base eleitoral.

Enfim, o conceito necessita ser discutido pelos intelectuais progressistas como Pedro Dutra Fonseca, que possui imenso conhecimento sobre o “populismo trabalhista“, que supostamente Getúlio Vargas teria adotado. A elite intelectual formada na Ciência Política da USP, na época do FHC, considerava essa herança um “entulho” a ser varrido para “a lata-de-lixo da história brasileira”…

Agora, o mundo assiste, perplexo e passivamente, movimentos neofascistas ascendendo por meio de eleições e/ou plebiscitos democráticos ao Poder, tanto na atual (EUA), como na ex-potência hegemônica (Reino Unido). E estes movimentos étnicos-racistas, de modo similar à eleição de Hitler e seu partido nazista, no contexto da crise depressiva após 1929, ascendem com apoio popular! A História está se repetindo como mais uma tragédia política e social…

Discutamos abaixo o que deve ser classificado como “populismo” e se cabe denominar os movimentos neofascistas contemporâneos, inclusive no Brasil, como “populismo de direita“.

O senhor classifica o discurso de Trump como populista?

Pedro Dutra Fonseca: Não há populismo nenhum. O eleitor não votou em Trump por ser burro ou desinformado. Essa é uma pretensão elitista. O eleitor se identificou com a proposta de geração de emprego e renda. É algo sério porque a maior parte dos movimentos fascistas e nazistas, na década de 1930, encabeçaram a proposta de pleno emprego associada a autoritarismo e preconceitos, e acharam o bode expiatório de plantão, imigrantes, judeus, negros, gays e ciganos. Hoje se chama impropriamente todos esses movimentos de extrema-direita na Europa de populismo. Populismo é um termo amplo e sem rigor científico, vem sendo usado para qualificar qualquer governo sem nenhum critério. Costumo dizer que populista é o popular que a gente não gosta. É mera acusação do opositor. Há pouco tempo diziam que Obama era populista por causa do Obamacare. Agora, Trump é chamado de populista. O Brexit (saída da Grã-Bretanha da União Europeia) é populista. A Marine Le Pen (da extrema-direita na França). Hugo Chaves, Vargas, Perón, Jânio Quadros… Se todos são populistas, o termo não quer dizer nada, pois são governos muito diferentes. Um termo que vale para tudo não vale para nada.

Leia mais: Debate sobre Populismo

O populismo tende a negar qualquer identificação ou classificação com a dicotomia direita/esquerda. Trata-se de um movimento multiclassista, embora nem todo movimento multiclassista possa ser considerado populista. O populismo, provavelmente, desafia qualquer definição abrangente.

O populismo inclui, usualmente, componentes contrastantes, tais como:

  • a reivindicação da igualdade de direitos políticos e da participação universal das pessoas comuns,
  • mas funde-se com algum tipo de autoritarismo, frequentemente, sob uma liderança carismática.

Ele inclui também:

  1. demandas socialistas ou pelo menos demanda da justiça social,
  2. uma vigorosa defesa da pequena propriedade,
  3. componentes fortemente nacionalistas, e
  4. a negação da importância da classe.

O populismo é acompanhado pela afirmação dos direitos das pessoas comuns de enfrentarem os interesses de grupos privilegiados, habitualmente considerados “inimigos do povo e da nação”.

Qualquer um desses elementos pode ser enfatizado de acordo com condições sociais ou culturais, mas todos se encontram presentes na maioria dos movimentos populares.

Ocorrências históricas ilustram as condições de emergência das identidades populares. Há uma pluralidade de definições de populismo encontradas na literatura, entre outras:

  1. a crença segundo a qual a opinião majoritária das pessoas é controlada por uma minoria elitista;
  2. qualquer credo ou movimento baseado na seguinte premissa principal: a virtude se encontra nas pessoas simples, que constituem a esmagadora maioria, e em suas tradições coletivas;
  3. o populismo proclama que a vontade do povo enquanto tal tem supremacia sobre qualquer outro critério;
  4. um movimento político que goza do apoio da classe trabalhadora urbana e/ou do campesinato, mas que não resulta do poder organizativo autônomo de nenhum desses dois segmentos classistas.

uma série de identificações que empobrecem o conceito do populismo, reduzindo-o, por exemplo:

  • aos movimentos da direita radical fundamentalista religiosa (“crentes tementes de deus”) ou
  • àquelas tendências liberais elitistas que veem nele uma oposição à lógica constitucionalista operante nas democracias modernas.

O populismo é um fenômeno que se relaciona de maneira mais ambivalente à ordem institucional. Este caráter está inscrito na insígnia Par Le Peuple, Pour Le Peuple [ Para o Povo, Pelo Povo].

O núcleo duro do populismo, compreendido como um esquema ideológico, é um conjunto de fontes discursivas nos regimes democráticos:

  1. O “povo” é o soberano do regime político e o único referente legítimo para interpretar a dinâmica social, econômica e cultural.
  2. As elites no poder, especialmente as elites políticas profissionais, têm traído o povo ao não exercerem mais as funções para as quais foram designadas.
  3. É necessário restaurar o primado do “povo”, o que pode levar a uma valorização de uma era anterior, caracterizada por um reconhecimento do “povo”.

Essa série de recursos discursivos pode ser utilizada de modo muito diversificado. Isto se aproxima do conceito proposto por Ernesto Laclau, autor do livro – A Razão Populista (São Paulo: Editora Três Estrelas; 2013),  de “significantes cambiantes”.

One thought on “Pedro Dutra Fonseca: Existe Populismo de Direita?

  1. Prezado Fernando,

    o populismo mais parece um “senso comum”, um construto da pseudo política, uma colcha de retalhos, saco de gatos. Nada mais é do que uma tentativa falha de fazer política para a maioria, sem critérios claros e objetivos, pontuais e autossustentáveis.

    Nossos políticos são como os Walking-Dead (mortos vivos), já morreram politicamente (possuem milhares de processos e estão infectados pelo vírus da corrupção), agonizam e jamais poderão andar livremente por aí, são piores que os mendigos que se arrastam pelas ruas, ninguém se importa com eles; caso um político queira fazer o mesmo, não andará uma quadra sem ser visto e massacrado pelo próprio povo que os elegeu.

    O legado do populismo é quase sempre: povo pobre, desempregado, infraestrutura e educação precárias, crises e mais crises sem fim. Abs.

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