A Ilusão Americana

a-ilusa%cc%83o-americanaLúcia Lippi Oliveira, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro de Eduardo Prado, A Ilusão Americana, publicado em 1893. Ele estava na linha de frente da casta dos aristocratas monarquistas que combateram a República instalada pela força das armas da casta dos guerreiros militares em 1889.

Nascido em 1860, de um clã favorecido pela expansão da lavoura do café no interior paulista, no final do século XIX, ele cresceu e viveu em um mundo de riqueza, elegância e cultura. Como boa parte da elite brasileira da época, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, onde teve como colegas de turma herdeiros das dinastias paulistanas. Após o bacharelado, divida o tempo entre a fazenda no interior da Província e os centros cosmopolitas da Europa.

Radicado em Paris, a partir de 1886, nunca abandonou uma perspectiva eurocêntrica. Com a proclamação da República no Brasil, deu início à carreira de polemista contra a primeira ditadura militar no Brasil. Seu livro A Ilusão Americana foi o primeiro apreendido pela polícia republicana em São Paulo. De seu autoexílio na Europa continuou fazendo propaganda antirrepublicana na terra natal.

Voltou definitivamente ao país em 1900, a fim de retomar os afazeres de político, pesquisador, historiador e escritor. Na viagem que fez ao Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1901, para tomar posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi contagiado pela febre amarela. Morreu no dia 30 do mesmo mês, em São Paulo, aos 41 anos de idade.eduardo-prado

A instabilidade política do período conhecido como “a década do caos” (1888-1897) afetou a própria vida do herdeiro de cafezais, membro da elite nobre e requintada do século XIX, que sabia fazer bom uso da riqueza familiar. Da dinastia Prado, cultivou relações intelectuais com uma geração que soube adquirir uma cultura esnobe.

O confronto entre Monarquia e República era, então, além de tema recorrente, um divisor no campo das elites políticas e culturais. Para Eduardo Prado, a “quartelada” do Campo de Santana substituiu o país ético, tradicional, monárquico e católico por um arremedo de Estado, sem tradições na história portuguesa e brasileira, anticatólico, cópia malfeita do modelo norte-americano. A virada institucional no país sepultou o pensador aristocrático e fez nascer o agitador político em defesa de sua casta.

O autor valorizava, principalmente, a figura do imperador D. Pedro II, “o rei civil e constitucional, o sábio que frequentava bibliotecas, museus e universidades, em vez de quarteis”. Esse divórcio das lides militares foi, para Prado, “por um lado, a salvação da civilização brasileira e, por outro, a razão da perda do trono”.

Entendia que, durante o Império, foi possível manter sob controle o caudilhismo que sufocava os outros países da América do Sul. D. Pedro II errara ao permitir que o ensino castrense permanecesse pouco profissional, levando-o a ser contaminado pela política e a assumir as mesmas bandeiras republicanas de bacharéis. Foram os militares, bacharéis fardados, que derrubaram a Monarquia em 15 de novembro de 1889.

Surgiu aí uma República que se identificava com o militarismo e este com o caudilhismocaudilho era o chefe militar, geralmente de forças irregulares que lhe eram fiéis, ou seja, um chefe político que possuía uma força militar própria. Por extensão, tornou-se sinônimo de ditador espanhol ou latino-americano.

Desde seu lançamento, há mais de um século, A Ilusão Americana tem sido analisada por dois ângulos. Um deles acentua o lado antirrepublicano de um defensor da Monarquia, sendo seu alvo não os Estados Unidos, mas sim os fundadores da República brasileira. Outro ângulo de análise acentua a crítica à política externa norte-americana, associando-a ao modelo político que o Brasil pretendia, então, macaquear. O panfleto de Eduardo Prado foi uma das primeiras obras a prevenir os brasileiros contra o imperialismo norte-americano.

A Ilusão Americana levanta a tese de que entre o Brasil e os Estados Unidos, e seus respectivos povos, existe um verdadeiro abismo cultural, com separação de raça, de religião, de índole, de língua, de história e de tradições. Portanto, nada deveria leva-los a possuir as mesmas instituições e a mesma forma de governo.

Na verdade, defendia a tese da existência de “uma ilha chamada Brasil” mais voltada para a cultura europeia. Não só demarcava as diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos, mas também as do Brasil com as demais nações hispano-americanas do hemisfério, cujo traço característico é “a contínua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedições, que é a ruína das finanças”.

A América espanhola, ao adotar o modelo norte-americano por ocasião dos movimentos de independência durante o século XIX, teria renegado suas tradições. Em 1889, o Brasil cometeu o mesmo erro dos vizinhos. A fraternidade americana seria outra mentira divulgada pelos republicanos, pois o despertar de ódios nacionais era mais verdadeiro como a expressão da política externa dos norte-americanos dirigidas aos “irmãos do Sul”.

Denunciava que alguns brasileiros iam estudar nos Estados Unidos, mas os que se formavam lá retornavam com pouco preparo e presunçosos – aliás, como os PhDeuses de hoje. Supostamente com ensino prático, faltava-lhes a cultura humanista e erudita europeia.

Os Estados Unidos eram o país mais rico do mundo em recursos naturais, em extensão territorial (sic), em fertilidade do solo, em grandes rios navegáveis, em riquezas minerais. Porém, a raça (sic) saxônica, “a mais enérgica da espécie humana”, tem “a civilização burguesa destruindo a pureza de alma original”.

Os países sul-americanos, querendo ser ricos e prósperos como os Estados Unidos, pensam ingenuamente que conseguirão isso copiando artigos da Constituição desse país. Prado é contra a cópia ou o transplante de instituições e regimes políticos que podem ser bons para um povo, mas que se mostraram contraproducentes em outro contexto.

O autor sai em defesa da Monarquia considerando-a a forma de governo capaz de oferecer estabilidade às sociedades. Por exemplo, na abolição da escravidão, os Estados Unidos adotaram a solução republicana e norte-americana, ou seja, pela violência, pela força, pela guerra entre irmãos, ao passo que no Brasil foi a adotada a solução pacífica e monárquica. Ele não diz que, com esse “jeitinho brasileiro”, foi longamente protelada a custa de maior sacrifício humano. Acha que foi a abolição da escravidão, feita pela princesa Isabel, que retirou apoio ao trono.

Para ele, todas as grandes reformas sociais se realizaram sob governos monárquicos. Somente as Monarquias eram capazes de adiar e evitar a grande crise do proletariado, porque as dinastias sabem que com ela seus tronos desapareceriam. Em uma etapa da história brasileira em que a representação da casta dos trabalhadores ainda não tinha surgido na cena política, o argumento era anacrônico e populista, pois não se referia aos párias…

Prado resume seu pensamento em metáforas. “Na gestão dos negócios e do dinheiro públicos, a Monarquia arrisca a sua própria existência, é como uma firma solidária que responde com a sua pessoa e com a totalidade de seus bens. A República é uma companhia anônima de responsabilidade limitada”.

Para ele, era o caminho tradicional do Brasil que estaria sendo ameaçado pela aventura republicana. Eduardo Prado defendeu a Monarquia por acreditar que fosse mais capaz de garantir os valores cristãos da fraternidade e a primazia do bem público acima dos interesses imediatos – valores das sociedades tradicionais e agrárias.

Em poucas palavras, era um autor conservador e/ou reacionário na medida em que reagia contra a evolução histórica. Ele se opunha às ideias voltadas para a transformação da sociedade brasileira.

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