Diferenciação entre o Preço à Vista e o Preço a Prazo

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Fiquei boquiaberto com a extrema velocidade da apropriação de uma ideia que publiquei há quase exatamente um ano no jornal econômico mais lido desta plaga: Fernando Nogueira da Costa – Diferenciação entre os preços à vista e a prazo-21-12-2015! Que agilidade mental da tecnoburocracia!

Os sábios-tecnocratas souberam captar de imediato o “espírito-da-coisa”, representativo de imenso anseio popular, e com enorme rapidez e capacidade de convencimento a sopraram nos ouvidos do todo poderoso Ministro da Fazenda que, por sua vez, em um momento-chave, justamente quando o governo temeroso se vê pressionado de todos os lados por delações inconvincentes para todos que conhecem sua magnífica índole democrática legalista, de maneira oportuna (e oportunista), soube galvanizar a atenção do Excelentíssimo Senhor Presidente da República e caso a hesitante Vossa Excelência não recue do seu já conhecido recuo do recuo em seus nobres propósitos de dar (sobre)vida ou energia a um mandato em que até sua fidelíssima base de apoio já dava como Mortinho da Silva Xavier, ele conseguirá animar, arrebatar, eletrizar, como só uma liderança carismática como a do Digníssimo é capaz de galvanizar as massas, atropelar o processo, de maneira tal que até a comunidade de informações temerá ficar em maus lençóis no novo quadro político que resultará da talvez precoce utilização da minha destemida ideia…

Do conjunto de medidas anunciadas às pressas pelo governo golpista, a de maior impacto sobre o setor financeiro é a possibilidade de profunda mudança na indústria de cartões de crédito, com redução no prazo em que os lojistas recebem os recursos das compras com cartão ou quedas nas taxas de juros do crédito rotativo.

O ministro da Fazenda, em uma velocidade incrível e impressionante, prometeu que o Papai Noel detalhará melhor essa mudança daqui a dez dias! Hoje, as compras feitas no cartão de crédito à vista são pagas ao lojista, em média, apenas 30 dias depois de feitas.

Só o anúncio prévio, porém, já foi suficiente para provocar uma forte queda nas ações da Cielo, que captura pagamentos com cartão no comércio. Os papéis da companhia fecharam em queda de 5,91%, para R$ 24,49, maior queda do Ibovespa.  [snif, snif…] Caso a redução no prazo para pagamento de lojistas ocorra, um dos principais negócios da Cielo, a antecipação de recebíveis a lojistas, poderá ser comprometido. Como O Mercado é sábio, perspicaz, ágil — e infiel!

Todos os brasileiros “empoderados (sic) de cartões” sabem desde a inesquecível Primeira Grande Era Neoliberal que, no momento em que você compra um bem, pagando com cartão, há um tempo demasiado para o lojista receber. Isso gera um custo adicional, cobrado, em ultima análise, no preço do produto. Por isso, de posse de minha simples ideia, depois de muito pensar, refletir, cismar, cogitar, meditar, parafusar, passou o monotônico Ministro da Fazenda a elaborar planos, propor projetos, desencadear programas de ação, ele está a arquitetar, conceber e engendrar a salvação-da-lavoura antes que a vaca-vá-pró-brejo!

Então, ouviram do Planalto, às margens plácidas do Lago Sul, de um povo heroico o brado retumbante, e eis que o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria nesse instante: ou se reduz o prazo de repasse para o lojista, ou se reduz a taxa de juros do rotativo!

O crédito rotativo é a linha acessada por quem não paga integralmente a fatura, com um jurinho de 475% ao ano…

Depois do grito estrondoso, em resposta direta ao clamor do meu protesto publicado há um ano, a Sua Excelência o Senhor Digníssimo Ministro disse que há um trabalho profundíssimo sendo coordenado pelo BCB, junto aos demais membros da cadeia de meios de pagamento, para definir o desenho final dessas mudanças, via medida provisória.

Então, caso não ocorra o recuo daquele que só anda para trás, retrocede, dá marcha a ré, perde terreno, retira-se, desiste de um propósito, foge a um compromisso, muda de ideia, acovarda-se, nada irá fazer retroceder, impelir para trás, minha nobre contribuição de um ano atrás!

Segundo um elevadíssimo executivo do setor de cartões, o prazo de 30 dias existente do pagamento ao lojista gera importantíssimas contrapartidas. Uma delas é a possibilidade de efetuar compras parceladas no cartão do crédito, que substituíram em larga escala o cheque pré-datado, e acabaram transferindo o risco do lojista para o emissor do cartão. Sendo assim, esse ponto teria de entrar na negociação da nova regra e fazer ver ao intrépido temeroso que ele necessitará recuar mais uma vez, dado o açodamento do MinFaz.

Já sobre o crédito rotativo, a sensível indústria dos cartões, sempre atenta aos anseios populares, discute há anos de maneira a um aprofundamento na complexa questão de limitação do prazo do rotativo, de modo a desestimulá-lo. Por que não oferecer a possibilidade de ofertar um crédito alternativo a partir de determinado prazo no rotativo? Em vez de um chocante 475% ao ano por que não oferecer dois amenos 240% ao semestre?

Já o tabelamento de preço não seria bem visto. Seria considerado um atentado contra a livre iniciativa, um acinte contra a liberdade de O Mercado! O que o pobrezinho fez para merecer isso?!

Para um honrado analista de bancos, essa é a medida mais controversa do pacote dos golpistas. “Esse é um tema complexo, e experiências recentes de redução forçada de spreads não foram bem sucedidas e bem recebidas por O Mercado”, afirma. Viu só? O Mercado já golpeou a Dona Dilma e aí de quem não temer um contragolpe contra o golpe!

A indústria de cartões foi um dos grandes alvos das “medidas populares” — um recuo das medidas impopulares reivindicadas e prometidas aos democratas da FIESP. Outras propostas incluem a autorização, via medida provisória, para que estabelecimentos diferenciem preços de um produto dependendo do meio de pagamento usado. Hoje, isso é proibido por lei. Aliás, não é de hoje, pois ser recuarmos no tempo, há um ano atrás já era…

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