As identidades do Brasil 2: de Calmon a Bomfim: a favor do Brasil: direita ou esquerda?

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O autor do livro As identidades do Brasil 2: de Calmon a Bomfim: a favor do Brasil: direita ou esquerda? (Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 240p.), José Carlos Reis, é bastante prolixo. Tem dificuldade de resumir suas ideias em poucas palavras. Para o leitor apressado, que deseja brevidade e síntese, o desafio da leitura se torna maior.

Ele lança, de início, uma questão-chave: pode-se falar de uma identidade nacional brasileira? Ela se desdobra em outras sub-questões:

O que o Brasil foi, está sendo e o que se tornará?

Quem somos nós, os brasileiros?

E ser brasileiro será bom ou ruim, motivo de orgulho ou de vergonha, deve-se ostentar ou camuflar?

Você gosta sinceramente de se sentir brasileiro ou se sente desconfortável nessa pele?

Você moraria para sempre fora do Brasil?

Há muitos brasileiros que não apreciam sua identidade, que se envergonham dela e a escondem, principalmente, depois de mais um golpe na democracia. Deixam-se aculturar por línguas e histórias de outras identidades que consideram mais enobrecedoras.

Depois de alguns dias no exterior, voltam, afetadamente, com dificuldades de readaptação:

  • esquecem parcialmente a língua portuguesa,
  • evitam a dieta brasileira,
  • não leem jornais e autores brasileiros,
  • recusam a música e a arte brasileiras e
  • rejeitam os temas brasileiros.

Retornam alourados, branqueados, com olhos azulados ou esverdeados, com sotaque, e com gestos e hábitos “superiores”. Olham com essa “carranca de vencedor” os seus compatriotas.

E obtêm o que desejam: as posições, as oportunidades, os empregos, as mulheres… As portas se abrem para aquele que ostenta os símbolos e sinais dos vencedores, que é visto como um representante da modernidade.

E, pensando bem, é legítimo não se sentir bem em uma identidade, não apenas a nacional, e procurar outras referências, atribuir-se a posteriori um outro passado e criar para si uma segunda natureza.

Isso não acontece somente com esses brasileiros. Há americanos antiamericanistas, europeus anti-imperialistas, negros racistas, mulheres que discriminam mulheres, gays homófobos, judeus antissemitas e proletários aburguesados. Adolescentes envergonham-se da própria mãe diante dos amigos (!), para “elevarem” a autoestima.

E o efeito crítico dessa postura aparentemente pueril pode até ser muito fecundo. Ou isso deve ser visto como uma traição a si mesmo e ao seu grupo? Será que as noções de “traição” ou “desrespeito” ainda estão em vigor, ou o que vale mesmo é a performance eficiente do bom jogador/vendedor no mercado mundial?

Este é um dos temas mais complexos da Filosofia, da Psicanálise, da Teoria Literária e da Teoria das Ciências Sociais e, em particular, da História: o problema da identidade.

A questão é: os indivíduos podem decidir sobre como desejam aparecer e ser vistos ou carregam marcas e sinais indeléveis que o definem?

Seria possível ignorar ou maquiar, por exemplo, a nacionalidade?

Haveria uma brasilidade imutável, que se pudesse definir, conceituar ou até mesmo “trocar em miúdos, e que não se pudesse esconder?

Pode-se falar de uma identidade nacional brasileira?

Teríamos um caráter nacional? O que nos reuniria?

Somos cerca de 206 milhões de indivíduos, extremamente diferenciados geográfica, social, econômica, cultural, sexual, futebol, musical, racial, linguística, política, grupal, residencial, salarial, escolar, esteticamente etc. Somos muito diferentes e vivemos em contínua mudança, dispersos, difusos, solitários, isolados.

Afinal, precisamos de uma identidade nacional?

Qual seria a relevância do tratamento desse tema?

Para Stuart Hall (1999 e 2000), interessa-se pelo tema da identidade e busca discuti-lo quem quer assumir uma “posição de sujeito”, isto é, quem quer fazer, agir. A iniciativa da ação exige o reconhecimento do próprio desejo, da própria forma e imagem, da própria identidade. A ação só pode ser empreendida por um sujeito que se autoaprecie, que se autorrespeite, que queira viver e se expressar de forma plena e própria.

Para nós, o problema da identidade interessa muito, sobretudo aos que perdem. Alguns perdem sempre e ficam perdidos. Por que fracassam sempre? Talvez porque não saibam quem sejam, por não conseguirem ver o próprio rosto. E se não se reconhecem, não conseguem definir o que desejam e desconhecem a própria capacidade de realização. E são derrotados porque já estão internamente derrotados.

Talvez a infraestrutura humana não seja econômico-social, mas cultural. Os grupos que conseguem se ver no espelho da cultura, que conseguem construir a própria figura em uma linguagem própria, identificam-se, isto é, criticam-se, reconhecem o próprio desejo e tornam-se competentes até na ação econômico-social.

Na situação mencionada, por exemplo, daquele que agiu manipulando os sinais de uma identidade vencedora para obter vantagens, ele estava manipulando sobretudo a identidade que a reconhecia e se deixava dominar. Houve nessa relação uma “negociação de reconhecimento”, uma luta, em que uns perderam e outros ganharam.

Em todas as relações, essa negociação de identidade ocorre e, por isso, os sujeitos envolvidos devem estar fortalecidos em seu próprio campo. Em outra negociação de reconhecimento, aquele ex-brasileiro citado ficaria engraçado, assim, “todo metido”, e as portas lhe seriam ruidosamente fechadas.

Discutir a identidade nacional brasileira é relevante, portanto, porque os brasileiros precisam construir criticamente a própria imagem para vencerem em suas lutas e negociações de reconhecimento e superarem sua situação de crise permanente.

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