Destilação do Espírito Brasileiro

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José Carlos Reis, na Introdução de seu livro “As identidades do Brasil 2 de Calmon a Bomfim a favor do Brasil direita ou esquerda”, com satisfação, diz que considera seus estudos sobre as identidades do Brasil uma boa contribuição para a vida brasileira. Compara seu trabalho ao das bactérias e do alambique sobre a cana-de-açúcar: uma destilação do espírito brasileiro.

Faz uma rememoração do pensamento histórico brasileiro que vai além da mera reprodução: é uma metabolização. Ecoa e faz vibrar as múltiplas vozes do Brasil.

No primeiro volume, intitulado As identidades do Brasil, de Varnhagen a FHC, publicado em 1999 (8. ed. em 2006), fez uma viagem de 120 anos pelo pensamento histórico brasileiro, pousando em seus pontos mais altos, olhando o Brasil dos seus “mirantes” mais clássicos.

Reconstruiu os paradigmas do pensamento histórico brasileiro, as matrizes que tornaram o Brasil pensável. Os leitores tiveram acesso a uma visão ao mesmo tempo ampla e diferenciada dos modos pelos quais a nação brasileira se auto representou e dos problemas e soluções que se colocaram de 1850 a 1970. E conheceram a história da escrita da história brasileira, lendo os historiadores e as obras que se tornaram clássicas, referências permanentes para a prática histórica.

Expôs ali as visões do Brasil de Varnhagen, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Capistrano de Abreu, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso.

Dando prosseguimento ao primeiro volume, apresenta no segundo A favor do Brasil: direita ou esquerda?, dedicado à discussão das “identidades do Brasil (anos 1930), de Pedro Calmon a Manoel Bomfim”, passando por Afonso Arinos de Mello Franco e Oliveira Vianna.

Esses autores interpretaram a “civilização brasileira”, construíram uma intriga da história brasileira, com princípio, meio e fim, com origem, sentido, significado. Eles fizeram um retrato de corpo inteiro do Brasil em suas obras História da civilização brasileira (Calmon, 1933), Conceito de civilização brasileira (Arinos, 1936), Evolução do povo brasileiro (Vianna, 1923) e O Brasil nação (Bomfim, 1931).

Jose Carlos Reis vai expor o mais criticamente possível as visões do Brasil desses autores nessas obras. Seguirá a mesma ordem do primeiro volume:

  1. primeira parte, interpretações do descobrimento do Brasil e,
  2. segunda parte, interpretações do redescobrimento do Brasil.

Diferentemente do primeiro volume, os intérpretes não se sucederão em ordem cronológica, mas em ordem ideológica, pois as obras analisadas são todas dos anos 1930. O leque das interpretações analisadas vai da extrema direita à rebeldia mais radical:

  • as interpretações da “direita” serão representadas por Pedro Calmon, Afonso Arinos e Oliveira Vianna, cada um mais conservador do que o outro;
  • a interpretação da “esquerda” será uma única, a de Manoel Bomfim, que procura demolir as primeiras, por um lado, racionalmente, em seus apoios teórico-metodológicos e em suas principais teses e, por outro, furiosamente, em suas propostas políticas e formas de agir.

Mas, o que importa é que todas elas informam sobre o Brasil e, do ponto de vista teórico, historiográfico e político, são todas absolutamente importantes, pois sem elas não se compreende a vida brasileira.

É necessário passar por todas, discuti-las sem receio ou nojo, pelo menos em um primeiro momento, para se construir uma “identidade complexa”, isto é, uma escolha feita com o conhecimento das alternativas. E na medida em que a escolha passa pelas alternativas para se tornar escolha, ela integra virtualmente em si as alternativas e se reconhece melhor como escolha.

Nos anos 1930, e nesses autores em particular, a ideia nacional era uma exacerbação, uma radicalização. Os historiadores pensavam a identidade nacional brasileira na perspectiva essencialista e construíram fantásticas fábulas e mitos nacionais.

Para os intérpretes do Brasil, à direita e à esquerda, havia uma alma, um espírito, uma unidade virtual brasileira, que procurava se organizar, se integrar e se realizar. Eles falavam de uma “brasilidade em si”, a la Hegel, em busca do autoconhecimento e da liberdade.

Então, pode-se falar de uma identidade nacional brasileira? Pode-se falar sim, e dela se falou e se fala muito.

Hoje, não se pode falar mais da brasilidade enquanto tal, mas pode-se discutir sobre o que queriam dizer os que falaram dela, pois as suas narrativas fazem parte da nossa busca de autorreconhecimento.

A perspectiva de Jose Carlos Reis não é a da nação em si, mas a da nação da qual se fala. Analisa os dizeres, os discursos históricos que “inventaram a nação”, as representações narrativas da identidade brasileira, e refletindo sobre a sua repercussão sobre a vida brasileira.

Os historiadores sempre falaram da nação e a descreveram e a interpretaram de inúmeras formas. Os discursos essencialistas, Jose Carlos Reis os tomará apenas como discursos. Vai “desessencializá-los”. Falará das representações históricas da nação brasileira com fidelidade, apego e emoção, mas longe de qualquer chauvinismo ou xenofobia fascistas.

Ao reunir essas visões do Brasil, ao coordenar essa “falação” sobre a identidade nacional brasileira, sua intenção é criar uma super narração, construída de várias sínteses, uma síntese de sínteses, uma macrointriga complexa e virtual, construída de discursos divergentes que, ao se entrecruzarem no espírito do leitor, referindo-se ao mesmo objeto — a vida brasileira —, lhe ofereçam uma máxima visão crítica de si mesmo.

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