Por que se deve ler Manoel Bomfim?

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Segundo Jose Carlos Reis, em “As identidades do Brasil 2 de Calmon a Bomfim a favor do Brasil: direita ou esquerda?”, deve-se ler Manoel Bomfim porque:

  1. sua interpretação do Brasil é a favor da Nação brasileira,
  2. defende os interesses populares contra o parasitismo das elites,
  3. propõe uma radicalização democrática contra a tradição secular de espoliação e exclusão da população brasileira do seu próprio país.

Suas teses rebeldes, solitárias em sua época, abrem o horizonte brasileiro para a integração democrática da nação, que ainda está por ser conquistada.

Sua interpretação revolucionária do Brasil é original, corajosa, pioneira.

Ele antecipou muitas teses sobre o Brasil, que, depois, fizeram a notoriedade de outros autores.

Ele sustentou a força da civilização brasileira contra o olhar desanimador, aniquilador, de europeus e intelectuais brasileiros aculturados.

Ele nos ensinou a recusar esse “olhar dominado” que nos ressecava.

Sua recepção das teorias raciológicas como não científicas, como justificadoras da expansão e dominação europeia sobre a América Latina — já em 1905! —, foi genial.

Ele pensou o Brasil no contexto latino-americano, o que somente muito mais tarde se faria.

Ele combateu a “história oficial”, que enaltecia os heróis luso-brasileiros que massacraram a população brasileira.

Escovando a história brasileira a contrapelo, para ele, os nossos verdadeiros heróis foram os brasileiros derrotados em 1817, 1824, 1889, e que ainda continuavam submetidos na República herdeira do poder bragantino.

Ele denunciou — em 1905! — a destruição do meio ambiente e defendeu a exploração racional dos recursos naturais.

A discussão de sua interpretação do Brasil é indispensável para que possamos nos aproximar mais da realidade brasileira e criar uma representação de nós mesmos, com uma linguagem nossa, moderna, mas própria, que nos faça avançar com coragem e confiança.

Manuel Bomfim não foi bem recebido por críticos porque se expressava ainda em uma “linguagem velha”, biologista, naturalista. Ele via a história como um organismo em desenvolvimento.

Ele teria chegado por si mesmo à tese marxista da exploração de classe, e a formulou em uma linguagem biológica. Sua mensagem nova e revolucionária não foi compreendida, pois seus termos eram tradicionais.

Para o seu leitor, o sentido novo dentro daquela linguagem velha ficava opaco. O conteúdo da sua análise era revolucionário, radicalmente rebelde, mas deveria estar articulado na nova linguagem adequada a esse conteúdo naquela época: o marxismo.

Todavia, ele não utilizou nem o método, nem a linguagem da teoria marxista. Ele sabia da existência de Marx e o citou várias vezes. Em muitos momentos, ele mencionou o proletariado, a burguesia, o imperialismo, a luta de classes, dominantes e dominados, a revolução socialista-comunista.

Mas sua análise do Brasil não aplicava as categorias marxistas, embora a mensagem final fosse a denúncia da exploração sofrida pelo proletariado, a necessidade da revolução, da vitória do povo sobre as elites, a emancipação da nação.

Ele tinha a emoção marxista, mas não possuía a teoria e o seu vocabulário. Seria isso um mal, uma limitação do seu pensamento histórico-social? Talvez o seu marxismo fosse o melhor marxismo, pois uma redescoberta original da intuição de Marx e, não, a imitação ou repetição de programas dogmáticos importados.

De todo modo, ele tinha a emoção e a intuição vivas, vibrantes, da revolução, mas não tinha a linguagem das ciências humanas. Ele pensava circularmente, repetindo muitas vezes o que já tinha dito, perdendo rigor e consistência na análise histórica. Sua prolixidade excessiva, repetitiva, pode tê-lo tornado desanimador para os seus possíveis leitores. [FNC: mesmo defeito que padece Jose Carlos Reis.]

Para se ter uma ideia da profundidade da sua rebeldia e da inadequação da sua linguagem para a teoria social, vale lembrar os termos que usou para se referir aos imperadores Bragança.

  • Para ele, os Bragança eram todos “tarados, broncos, orgulhosos, pulhas, maus, ingratos, sórdidos, dissipados, injustos, sibaritas, assassinos, parasitas, beatos, mulherengos, doidos, devassos, sem inteligência, degenerados, nauseabundos, espíritos inferiores, mentecaptos, egoístas, disformes, fracos, boçais, imorais, corruptos, ignorantes…”.
  • João VI era tudo isso acima e mais “lorpa, insignificante, insulso covarde, cretino, desgraçado, infame, degradado, imbecil, hesitante, dúbio, trêmulo, contraditório, dissimulado, fugido de 1808!”.
  • Pedro I era tudo isso acima e mais “aventureiro, calculista, desleal, insincero, mentiroso, embusteiro, farsante, arbitrário, despótico, tirânico, pessoal, ‘português’, epilético, paranoico, louco, exemplo de degradação humana!”.

É uma linguagem profundamente passional, delirante! Isso pode provocar resistência em quem quer encontrar uma “análise” do Brasil, mesmo por parte daqueles que rejeitam o objetivismo e a imparcialidade na Ciência Social.

Para Bomfim, o modelo revolucionário que poderia ser seguido pelo Brasil não seria aquele proposto pelas internacionais comunistas e pelo PCB. A revolução brasileira deveria ser nacional, patriótica, para resolver o confronto especificamente brasileiro.

Para ele, o povo brasileiro poderia se inspirar no modelo da Revolução Mexicana (1910-17). No México, houve uma aliança de indígenas, camponeses, proletariado e até de setores da classe média, liderados por homens carismáticos como Emiliano Zapata e Pancho Villa, na luta por “terra, trabalho e liberdade”. Lá também havia a questão da miscigenação.

Mas, para se rebelar, o “povo”, entendido como aquela aliança acima, dependia do aparecimento de líderes carismáticos que o conduzissem à vitória. Ou à morte? “Líderes carismáticos”, “caudilhos”, poderiam ser uma liderança confiável, capaz de implementar os valores socialistas-anarquistas-cristãos de Bomfim ou revelariam o caráter perigosamente autoritário da sua interpretação do Brasil?

Apesar de recear ser injusto com a sua original e crítica interpretação do Brasil, que Jose Carlos Reis admira profundamente e com cuja indignação se identifica, não pode deixar de esboçar um necessário distanciamento crítico e perguntar se sua visão do Brasil não conteria alguns riscos.

Ele não estaria, por exemplo, cometendo o mesmo erro que denunciou nas outras nações, o de deturparem a história universal em benefício próprio ao se colocarem como centro da humanidade?

Ele não teria uma concepção essencialista, metafísica, mítica, idílica, da identidade nacional brasileira?

Sua interpretação radicalmente nacionalista não poderia levar à xenofobia, à recusa da alteridade cultural, a projetos político-sociais autoritários?

Para um “intérprete nordestino” do Brasil, republicano e democrático, ele não teria se deixado seduzir por projetos gaúchos autoritários e não teria oferecido argumentos e legitimação a governos personalistas, caudilhescos, cesaristas, bonapartistas, totalitários?

Será que Getúlio era o líder e 1937 a revolução que ele esperava?

Sua interpretação do Brasil poderia ser apoiada pela documentação do Brasil colonial, imperial e republicano?

Ele não cometeria um racismo sub-reptício e perigoso?

Sem exigir imparcialidade, teria credibilidade a análise histórica construída com uma linguagem tão apaixonada e autoritária como a sua?

Ao formular essas questões, Jose Carlos Reis não quer tornar Manoel Bomfim ainda mais esquecível. Pelo contrário, quer mostrar o quanto ele é mal conhecido.

Todos os seus analistas estranham o silêncio, inclusive dos marxistas, que se fez em torno de sua obra, e Reis compartilha esse estranhamento. Sua reflexão sobre o Brasil é magistral. Ele nos olha por trás do espelho.

Ele inverteu a interpretação oficial da história brasileira:

  • os heróis são os derrotados,
  • os poderosos oficiais são os bandidos,
  • o Estado é o criminoso,
  • a nação oprimida luta para sobreviver e deve vencer.

Por isso, deve-se reler os seus textos e excertos e discuti-los mais frequentemente, confrontando-os com os textos conservadores, para refletirmos melhor sobre o alcance da sua análise do Brasil e medirmos até onde e em que termos poderemos seguir em sua companhia. E mesmo que não o acompanhemos, e não precisamos aceitá-lo por inteiro, não podemos tomar qualquer direção sem refletir sobre a sua interpretação do Brasil, que oferece uma interlocução inovadora, original, admirável.

Após completarmos mais uma travessia pelas cínicas e trágicas interpretações da direita, as máscaras de oxigênio cairão diante da população brasileira, que passará a respirar e a ter esperança.

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