A Grande Transformação: As Origens Políticas e Econômicas do Nosso Tempo

a-gt-de-kpA Grande Transformação, de Karl Polanyi (1886-1964): Questões de Interpretação, em sua edição portuguesa (Lisboa, Edições 70), tem Prefácio escrito por Joseph Stiglitz, Introdução de Fred Block e Ensaios Introdutórios com coautoria de Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerônimo. Por serem muito instrutivos, vou resumi-los em uma série de posts.

Karl Polanyi nasceu em Viena, em 1886, no seio de uma família judaica. O seu pai foi um engenheiro e empresário húngaro ligado à rede ferroviária. A sua mãe, também de origem russa, desempenhou papel de relevo nos círculos intelectuais e políticos de Budapeste. Quem com ele conviveu atribui diretamente à figura materna – irmã de um rabino que rompeu com as suas origens judaicas para descobrir o credo cristão – a influência decisiva na formação de uma atitude radical, qualquer que seja o sentido atribuído a tal expressão.

Fez a sua educação em Budapeste, tendo aí obtido a licenciatura em Direito, em 1909, e começado a exercer advocacia em 1912. Enquanto estudante universitário, foi eleito primeiro presidente do chamado Círculo Galileu, em 1908, tendo colaborado no respectivo jornal até à sua supressão. Em 1914, participou na criação do Partido Radical Húngaro. Entrou nas campanhas da Rússia como oficial de cavalaria do exército austro-húngaro.

Em 1919, instalou-se em Viena. Na Hungria de 1919, segundo o próprio Polanyi, vivera-se uma espécie de intervalo de nove meses revolucionários, divididos entre uma revolução democrática e outra comunista. Mas, nesse mesmo ano ,a nobreza feudal magiar acabou por retomar o controle político, vindo assim a recuperar, sempre segundo Polanyi, antigos privilégios políticos e administrativos e, em conjunto com as elites judaicas, os antigos monopólios financeiros e econômicos.

Entre 1924 e 1933, foi editor da seção de relações internacionais do jornal vienense Der Öesterreichische Volkswirt (O Economista Austríaco), um semanário com preocupações econômicas e financeiras, com o qual continuou a colaborar até 1938.

Emigrou para Inglaterra em 1933, devido ao crescente impacto do nazismo e também porque o referido periódico lhe deixou de poder pagar. Envolveu-se, então, no denominado «Christian Left Group» e deu algumas lições nos programas para a educação de adultos das universidades de Oxford e de Londres.

Em 1935, realizou uma série de conferências nos Estados Unidos, país onde, entre 1940 e 1943, foi pesquisador visitante no Bennington College de Vermont. Lá, a sua mulher ensinou Matemática. Regressando a Londres, envolveu-se com associações de imigrantes húngaros.

Em 1947, aceitou um cargo como professor visitante na Universidade de Columbia. Contudo, nos alvores da Guerra Fria e em pleno período de “caça às bruxas” nos Estados Unidos, a sua mulher viu ser-lhe negado um visto de entrada nos Estados Unidos, devido à relação que tivera com o Partido Comunista Húngaro.

Por isso, o casal fixou residência em Toronto e Karl Polanyi passou a deslocar-se a Nova Iorque, como responsável por um projeto interdisciplinar relativo aos aspectos econômicos e institucionais do crescimento. Em 1963, visitou de novo a Hungria, que deixara em 1919, para proferir uma série de conferências na Academia das Ciências. Morreu no Canadá, em Pickering, Ontário, em 23 de abril de 1964.

Em 1944, Polanyi publicou The Great Transformation: the political and economic origins of our time (A Grande Transformação: as Origens Políticas e Econômicas do Nosso Tempo). Nesse livro, analisou a estrutura do capitalismo ao longo do século XIX a partir de uma tese inovadora, de matriz marcadamente institucional e política: a Inglaterra não tinha sido transformada apenas pela máquina a vapor, nem sequer pelas anteriores expansões do comércio mundial e revolução agrícola. Não fora a industrialização per se que desencadeara os processos de conflito e de desorganização social que marcaram o longo século XIX.

A miríade de motins, revoltas, movimentos genéricos de protesto, revoluções sociais e ciclos intensos e recorrentes de violência a estes associados que caracterizaram as Eras da Revolução, do Capital e do Império, resultaram também da emergência de um conjunto de propostas intelectuais – de Ricardo a James Mill, passando por Marx –, progressivamente desenvolvidas no interior de instituições sociais várias, que postularam a prevalência do mercado enquanto forma histórica primordial de organização da sociedade.

A Grande Transformação consistiu sim, essencialmente, na extensão do sistema de mercados a todas as esferas da vida humana, cuja lei da oferta e da procura passou a determinar, autonomamente, a afetação e a remuneração de fatores de produção como a terra (a natureza) – e o trabalho (ou seja, a própria utilização da vida humana).

Assim, a principal preocupação de Polanyi foi a de demonstrar:

  • como se formaram historicamente, primeiro, os mercados nacionais e internacionais e, nesta sequência,
  • como se passou de uma configuração caracterizada por trocas livres para uma outra, marcada por um intenso controle político e social, em reação à grande crise de 1929.

Este controle foi assumido, sob diferentes formas, por:

  1. o incipiente Estado do Bem-Estar Social,
  2. o comunismo e
  3. o próprio fascismo.

Da mesma forma que o capitalismo, com os seus mercados autorregulados e a lógica de uma economia orientada para a satisfação em bens materiais, levara à desagregação da vida em comunidade, criando a denominada «Grande Transformação», sentiu-se mais tarde, devido às consequências nocivas da sua operação autônoma sobre a vida de grandes massas humanas, a necessidade de regular e controlar esses mesmos mercados.

Recolhendo os ensinamentos da Antropologia e da História acerca de economias primitivas ou arcaicas, Polanyi assestou a sua mira na alternância histórica entre:

  1. o controle social da economia e
  2. o controle dos mercados sobre a sociedade.

Na sua formulação mais emblemática, considerou que, nas sociedades pré-capitalistas, a produção e distribuição de bens estavam socialmente incrustadas ou, talvez melhor, encasteladas (embedded) em instituições sociais não mercantis, as quais geravam processos econômicos de natureza não mercantil, e regulavam os próprios mercados. Podia-se dizer-se que a economia era um resultado derivado das relações de parentesco, políticas ou religiosas.

A Grande Transformação teria consistido:

  1. na libertação dos mercados do controle das instituições sociais e, ao invés,
  2. na determinação da economia, das próprias instituições sociais e, tendencialmente, de todos os aspectos da vida social e humana pelos padrões da troca mercantil.

Os regimes totalitários, de matriz comunista ou fascista, instalados desde o início do século XX representariam o ricochete violento das massas humanas contra a desumanização da sociedade pela lógica mercantil.

Para compreender melhor o argumento de Polanyi, vale a pena recordar que, no mesmo ano em que foi publicada A Grande Transformação, Friedrich von Hayek editou o seu livro clássico, intitulado The Road to Serfdom [O Caminho para a Servidão]. Ora, nesta obra considerava-se que o abandono de um sistema de mercado autorregulado implicaria a destruição da democracia política e da liberdade individual, a ponto de se poder considerar que a Alemanha de Hitler fora essencialmente o resultado de um processo em que o Estado procurara regular a economia.

Na sua defesa radical do liberalismo e da lógica dos mercados autorregulados, Hayek seguia uma sequência causal que encadeava a Grande Guerra com a Grande Depressão, a que se teria seguido de novo a Segunda Guerra Mundial. Identificando, tal como Polanyi, a emergência dos totalitarismos como uma reação contra a liberdade dos mercados – daí inferia que, reciprocamente, a regulação dos mercados, mesmo em regimes políticos democráticos, constituiria o caminho para a servidão.

Polanyi, contudo, ia mais fundo na sua visão histórica e antropológica, procurando em um período anterior à Grande Transformação – que conduzira à formação de uma economia de mercado, capitalista e autônoma, e às suas respostas autoritárias e necessariamente reguladoras modelos de sociedade capazes de proporcionar uma reincrustação social do homo oeconomicus inventado pelo liberalismo.

Se o século XIX conduzira a uma separação das esferas institucionais da economia e da política, e inclusive ao domínio desta por aquela, a Grande Guerra teria marcado o seu fim – «o colapso da civilização de oitocentos», nas palavras de Polanyi.

No sentido mais literal de A Grande Transformação, as respostas suscitadas após 1914 pelos efeitos sociais de uma economia de mercado não regulada, ou seja, o socialismo ou o fascismo (ambos com os seus pesados planos de desenvolvimento controlados pelo Estado e com as suas ligações a um cenário mundial de corrida às armas) não poderiam servir de modelo para o pós-Guerra – mas, contrariamente às ideias defendidas por Hayek, tampouco o poderiam os regimes políticos e econômicos liberais que haviam contribuído decisivamente para criar a base social dos totalitarismos.

A alternativa estaria, isso sim, em uma espécie de «‘liberalismo incrustado’, isto é, em governos capazes de jogar um papel musculado na mediação entre economias nacionais e internacionais». Restava às sociedades democráticas o ensaio de novas formas de incrustamento social da economia:

  1. pela regulação dos mercados e
  2. pela criação de novos padrões de redistribuição.

Cabia às Ciências Sociais o estudo substantivo e a elaboração de propostas para tais alternativas, que no plano teórico deveriam elas próprias ser alternativas à teoria econômica formal de matriz neoclássica.

Compreender o percurso e a carreira intelectual de Karl Polanyi, o sentido da sua obra à luz de um trabalho de reconstituição das intenções do seu autor, e procurar perceber os usos a que essa mesma obra tem estado sujeita constituem as principais tarefas de que Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerônimo se ocupam, nos limites de um estudo introdutório à sua obra mais importante, intitulada A Grande Transformação.

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