Estado de Bem-Estar Social X Capitalismo de Livre-Mercado

Dica para assistir no Netflix: o documentário mais recente do Michael Moore, O Invasor Americano (2015). O último que ele tinha lançado foi em 2009: Capitalismo – Uma História de Amor.

Com Where To Invade Next, o documentarista de Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 11 de Setembro (2004) compara a cultura de apreçamento dos Estados Unidos, onde tudo é precificado, para quem tem mais dinheiro poder usufruir melhores produtos e serviços, enquanto na Europa e em outros países — como na Tunísia — o combate à desigualdade social é visto como a prioridade. Pior, a ausência de um Estado de Bem-estar social nos EUA não só é defendida por políticos de seu país como por PhD colonizados culturalmente que voltam para seus Países de origem pregando o credo norte-americamo pró-livre-mercado.

Argumentam que, nos EUA, a carga tributária é menor. Porém, contabilizando-se tudo que se paga nos States e que na Europa é serviço público de acesso universal, com qualidade e gratuito, sai mais barato — e de modo menos injusto — viver neste continente.

Michael Moore sai em uma turnê mundial em busca de bons exemplos de avanços sociais e culturais para serem “confiscados” pela sua nação. Ele começa sua viagem pela Itália, país que tem uma das maiores expectativas de vida do mundo, e fica espantado com os direitos que garantem, praticamente, considerando os feriados, oito semanas de férias para os trabalhadores, duas horas de almoço, licença-maternidade, e um 13° salário! Os EUA não dispõe de nenhuma dessas conquistas sindicais que até o Brasil já incorporou! 

O cineasta explica para os italianos que, de acordo com sua constituição, os norte-americanos não têm direito às férias remunerada, exceto se um sindicato conseguir em acordo coletivo para sua categoria profissional. Há uma reação incrédula do casal local que entrevista.

Ele visita ainda duas fábricas de marcas de sucesso para ouvir também o “outro lado”, ou seja, o dos patrões. Mostra ao público que até eles concordam com as conquistas trabalhistas. O argumento dos empregadores é que um funcionário feliz e livre de estresse adoece menos e é mais produtivo.

A viagem segue por países como:

  • a França, onde todas as escolas públicas, sem diferenciação de classes sociais, servem almoços planejados por um comitê liderado por chef de cozinha;
  • a Finlândia, país que possui, comparativamente, um dos melhores ensinos do mundo, onde a educação básica aboliu o dever de casa, a prova múltipla-escolha, a sobrecarga de ensino visando apenas à reprovação/seleção, etc.;
  • a Eslovênia, onde o Ensino Superior é público, gratuito e superior ao dos EUA, inclusive na avaliação de alunos norte-americanos que recorrem a ir para lá, já que não têm como pagar as caríssimas Universidades particulares de seu país;
  • a Alemanha, onde as montadoras dos melhores automóveis mundiais ouvem os funcionários antes de tomarem decisões importantes, e o ensino enfrenta o trauma coletivo com o nazismo, para ele jamais voltar;
  • o Portugal, que descriminalizou o uso de todas as drogas, oferece serviços gratuitos de saúde contra os vícios, e não entope suas prisões com drogados negros para forçá-los a trabalhar por baixo custo para grandes empresas — “a escravidão que persiste até o século XXI nos EUA”;
  • a Noruega, que impõe pena máxima de 21 anos para reeducação dos condenados a reinserirem na sociedade, inclusive no caso do terrorista que massacrou jovens social-democratas;
  • a Tunísia, país islamita que permite às mulheres o direito de decidir se devem ou não interromper uma gravidez, entre outras conquistas para a igualdade de oportunidades entre gêneros.
  • a Islândia, país que foi o primeiro a eleger uma Presidenta da República (sem golpeá-la), exigir no mínimo 40% de cada gênero nos Conselhos de Administração das grandes empresas, e prender banqueiros julgados culpados pela crise de 2008!Para cada bom exemplo, ele aponta um anti-exemplo de seu país, aquele dos cidadãos alienados em relação ao que se passa no resto-do-mundo, pois imaginam que tudo de melhor está no “sonho americano”. Viverão mais um pesadelo

Exemplo comparativo entre o “american way of life” e o Estado de Bem-Estar Social: a gorjeta é considerada um insulto no Japão. O preço de algo é o preço de algo. Não se coloca alguns ienes a mais na mão do motorista de táxi.

Por que a gorjeta é considera essencial nos Estados Unidos, por exemplo, mas julgada como um mérito e opcional na Europa?

Izabella Kaminska (repórter do Financial Times) já creditou essas diferenças culturais às regras e costumes locais. Mas uma experiência recente na economia colaborativa, ou economia “dos bicos” (do “gig economy“, em inglês), que está tentando acabar de uma vez por todas com as gorjetas, lhe fez perceber que essas diferenças podem estar intimamente ligadas ao grau com que esperamos que os trabalhadores do setor de serviços tenham uma mentalidade de carreira.

Descobriu que os períodos de “surge rates” [um sistema em que os trabalhadores ganham mais quando a demanda pelo serviço aumenta] eram poucos demais para complementar o salário. Enquanto isso, as gorjetas por um trabalho bem feito, o único elemento que tradicionalmente sempre compensou os baixos salários do setor de serviços, nos EUA, haviam em grande parte desaparecido.

No esforço para acabar com a necessidade de dinheiro vivo e criar a experiência perfeita e sem atritos, os desenvolvedores de aplicativos da Deliveroo e outras empresas como ela desumanizaram tanto a transação que as gorjetas se tornaram uma inconveniência. O Uber até mesmo encoraja os usuários a não dar gorjetas aos motoristas.

Para maximizar o potencial de lucro, os trabalhadores da economia colaborativa com frequência se transformam em “paus para toda obra“, registrados no maior número de aplicativos de tarefas possível para aproveitar da melhor maneira as oportunidades de taxas mais altas como as “surge rates“.

Mesmo assim, quando eles fazem isso, prejudicam suas próprias economias de escala. Isso porque com a necessidade de investir em múltiplas ferramentas e equipamentos e o fardo da mudança de uma ocupação para outra, a simultaneidade de tarefas cria novos custos.

 

O que a economia colaborativa realmente faz é solapar os trabalhadores tarimbados do setor de serviços, que aprenderam com a experiência que faz sentido equilibrar os preços nos períodos de pico e baixa em nome do profissionalismo. Ela os substituiu por amadores sem capacidade de planejar antecipadamente – e com pouco tempo para ambicionar gorjetas recompensadoras.

 

Nos EUA, os garçons dependem da bondade das pessoas para conseguir um salário decente. Há quem diga que isso resulta em trabalhadores de serviços melhores e mais atentos. Na Europa continental, o custo dos serviços está sempre incluído na conta.

Sim, os críticos podem afirmar que é por isso que a França tem tantos garçons ruins e mal-educados. Os incentivos são importantes – e os garçons franceses não têm nenhum. Mas também é verdade que, na França, trabalhar no setor de serviços é considerado uma carreira legítima e respeitável para qualquer pessoa – e não só para estudantes, imigrantes ou trabalhadores informais como é nos EUA.

Na economia colaborativa, em que os trabalhadores lutam para obter um salário mínimo, mas não dependem de uma transação em dinheiro que gere a oportunidade de conseguir gorjetas, o sistema opcional simplesmente não funciona.

A indústria tradicional de restaurantes dos EUA contorna a regulamentação por causa de uma peculiaridade local: ninguém ousa não dar uma gorjeta de no mínimo 20% do valor da conta. Isso não é típico de uma cultura que não respeita o verdadeiro custo dos serviços profissionais?

A economia digital terá que desenvolver a mesma cultura se quiser evitar uma intervenção pelas autoridades reguladoras. Caso contrário, a carreira de garçom e garçonete estará condenada ao desaparecimento nos EUA. Isso desencadearia um nivelamento por baixo que afetaria os padrões de vida nos EUA.

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