Programas de Pesquisa de Karl Polanyi

a-grande-transformac%cc%a7a%cc%83omapa-mental-do-cap-1-de-polanyiEntre 1947 e 1953, Karl Polanyi ensinou História Econômica na Universidade de Columbia. Na sua expressão mais simples, o ambicioso projeto de pesquisa coordenado por Polanyi, mas que contava com a colaboração de muitos outros especialistas, seguia dois eixos principais.

Primeiro, tratava-se de continuar a criticar os economistas pelo excesso de atenção nos mecanismos da economia de mercado, no interior dos quais os preços sinalizariam as flutuações na oferta e na procura e permitiriam o seu ajustamento «automático».

Opunha-lhes o olhar do antropólogo que procurava ligar tais mecanismos com os quadros culturais que lhes correspondiam, o modo como eram reconhecidos pelos homens, as suas funções sociais, a sua história e as instituições que lhes diziam respeito.

Na diversidade de noções de reciprocidade e redistribuição, registradas pela etnografia, Polanyi encontrou a tradução de diferentes padrões sociais e econômicos, que respondiam às expectativas de agentes individuais. Neste sentido, o padrão da escolha individual adequado ao mercado livre constituíra-se como um mero produto do Ocidente no século XIX.

Esta última constatação conduz Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerónimo, na Introdução ao livro “A Grande Transformação” de Karl Polanyi,  ao segundo aspecto em causa: será possível, fora do mundo ocidental, seguir outros comportamentos, motivos e sistemas econômicos capazes de pôr em causa as teorias da modernização e do desenvolvimento econômico que se encontravam, então, no seu auge?

O projeto interdisciplinar animado por Polanyi apresentava-se, então, como um quadro teórico destinado a servir o estudo das economias que não eram industrializadas, nem predominantemente organizadas por instituições de mercado.

E foi pelas mesmas razões de relativização de um presente caracterizado como um sistema econômico de economia de mercado, mas sem deixar de emprestar à expressão uma certa ironia, que considerou «obsoleta a nossa mentalidade de mercado» – obsoleta porque, fruto da modernidade ocidental, deixara de poder enquadrar a sua evolução e os anseios humanos que originara, com as trágicas consequências acima enunciadas.

A partir de uma série de exemplos de impérios «arcaicos», Polanyi seguiu o modo como se processava a institucionalização do comércio, dos mercados e da moeda. Verificou, então, que – embora esses mesmos impérios se caracterizassem por uma divisão do trabalho (pelo menos nas cidades e entre estas e os campos), por comportarem redes de comércio, transações monetárias e bancárias, bem como formas de regulação ou de arbitragem – a moeda, os mercados e o comércio estavam institucionalizados de forma separada entre si. Era esta característica que os diferenciava do moderno sistema de mercado.

Mais concretamente, ao analisar a organização econômica de um reino da costa ocidental de África no século XVIII envolvido no comércio externo de escravos com os europeus, constatou que a redistribuição da riqueza, a cargo do Estado, surgia como o principal padrão de integração econômica. Ou seja, o movimento dos bens orientava-se para o centro e era dali que de novo fluía para a sociedade.

Fora da esfera do Estado, ou seja, na órbita familiar e local, a reciprocidade e a casa eram igualmente padrões dominantes. Nas palavras do autor: «na ausência de um sistema de mercados, as trocas comerciais pareciam ser secundárias, já que não compreendiam o trabalho e a propriedade, e mesmo os mercados dos bens de consumo encontravam-se isolados e não se constituíam em um sistema».

Constituíram os dois grandes temas da obra de Polanyi.

  1. a origem, o crescimento e a transformação do capitalismo no século XIX, enquanto sistema de economia de mercado, e
  2. a relação da economia com a sociedade em sistemas considerados primitivos ou arcaicos.

Em ambos os casos, pressente-se a mesma questão ética e política: só há História e Ciências Sociais desde que alicerçadas em uma reflexão sobre o presente.

No sentido inverso, a distância introduzida tanto pela História ou pela Antropologia se revela uma experiência fecunda para melhor compreender os problemas do presente.

Tudo isto, qualquer que seja o sentido assumido pelo presente:

  • das revoluções e contrarrevoluções da primeira metade do século XX à emergência do fascismo ou do nazismo;
  • das propostas socialistas apartadas da influência marxista aos riscos anunciados de novos imperialismos para o período posterior à Segunda Guerra Mundial.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s