Origens do Pensamento de Karl Polanyi

for-a-new-westDiogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerónimo, na Introdução ao livro “A Grande Transformação”, a obra de Polanyi continuará a suscitar duas interrogações a que só investigações de caráter analítico mais aprofundadas poderão dar uma resposta satisfatória.

A primeira diz respeito às origens do seu pensamento. Ora, para reconstituir a genealogia das suas ideias e retomar a questão clássica – e muitas vezes falaciosa em história intelectual – das influências a que Polanyi foi sujeito, haverá que considerar pelo menos três núcleos.

O primeiro remete para o debate acerca da economia socialista, com os seus métodos de planeamento central. A sua posição parecia ser a de criticar tanto o planejamento central como o liberalismo clássico, mostrando por isso mesmo simpatia para com socialistas como Otto Bauer e G. D. H. Cole, mas afastando-se de Karl Kautski, Trotsky e Otto Neurath.

Se neste núcleo se pressente a influência de Marx e dos autores que nele se inspiraram, com as suas ideias acerca da luta de classes e da polarização entre trabalho, capital e propriedade, uma segunda e contraditória influência encontra-se no pensamento do economista austríaco Joseph Schumpeter.

Para este, o sistema da economia de mercado era benéfico, mesmo que os motivos individuais que sustentavam as ações não o fossem. Isto ocorria porque:

  1. as instituições capitalistas habilitavam os indivíduos a concretizar os seus interesses;
  2. os mercados livres organizavam um sistema de distribuição equilibrada; e
  3. os lucros eram uma consequência da administração da propriedade e da capacidade empresarial.

Em A Grande Transformação, a caracterização de um sistema de economia de mercado é, em parte, tributária das ideias de Schumpeter.

Mas existe um terceiro núcleo de autores, situados entre Marx e Schumpeter, que influenciaram Polanyi. Trata-se dos economistas políticos da denominada Escola Histórica Alemã, cujos principais autores foram Frederich List, Gustav Schmoller e o célebre (pelas críticas que suscitou da parte de Marx) Eugen Dühring.

Contra a percepção de um crescimento dos mercados, com os seus ciclos, todos eles insistiram tanto na especificidade histórica dos mesmos mercados como na centralidade do Estado enquanto seu organizador principal. Mais: longe de pensarem que a autorregulação dos mercados contribuía para a coesão social, consideraram que a existência de mercados livres suscitava numerosos conflitos.

Por isso, julgavam que as atividades de especulação deveriam ser contrariadas por medidas de intervenção social e regulação por parte do Estado. Ou seja, o Estado era chamado a intervir, traduzindo as medidas normativas em instituições, capazes de resolver o conflito entre os trabalhadores e as outras classes, de molde a que aqueles fossem reintegrados no organismo político. Max Weber, Werner Sombart e Karl Polanyi procuraram, de facto, criar o seu espaço entre estes três núcleos de autores e de influências.

A segunda interrogação prende-se, em parte, com as relações entre Polanyi e Keynes, mas tem consequências mais profundas respeitantes aos usos das ideias de Polanyi. Relações frustradas, uma vez que Keynes não parece ter mostrado nenhuma abertura frente às tentativas daquele, documentadas desde 1933, para com ele se encontrar.

No entanto, tanto Keynes como Polanyi propuseram, cada um à sua maneira, modos de fazer com que a economia de mercado ficasse sujeita à regulação por parte do Estado, quer através de instituições, de regulações ou de formas de incrustação. Mais recentemente, o estudo e a conceptualização da economia nas suas relações com instituições, ideias e interesses, pelo menos em certos círculos, foi mais tributário dos contributos de Keynes do que de Polanyi.

Provavelmente, só em reação ao neoliberalismo (ou neoconservadorismo dos anos 1990) se passou a investir mais na obra de Polanyi e nas suas ideias acerca da necessidade de regular a economia, pondo fim à falta de regulação dos mercados.

Resta, porém, saber se este retorno a Polanyi e aos seus conceitos não tem sido feito à custa do esvaziamento ideológico e do combate político inicial em que o autor situava as suas ideias. Por outras palavras, o risco é que o uso seletivo das ideias de Polanyi, sobretudo em Sociologia Econômica – confundindo neutralidade com objetividade –, possa reduzir o seu pensamento à questão da inserção, considerando que as práticas econômicas envolvem relações sociais, normas, costumes e formas de institucionalização, mas procedendo à sua despolitização e esquecendo a sua força ética e política.

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