Desordem Global da Geopolítica Internacional

economia-global

Martin  Wolf (Financial Times apud Valor, 06/01/17) afirma que “não é verdade que a humanidade não consegue aprender com a história. Consegue e, no caso das lições do período sombrio entre 1914 e 1945, o Ocidente conseguiu. Mas ela parece ter esquecido essas lições. Estamos vivendo, mais uma vez, em uma era de gritante nacionalismo e xenofobia. As esperanças de um admirável mundo novo de progresso, harmonia e democracia, levantadas pela abertura dos mercados da década de 1980 e pelo colapso do comunismo soviético entre 1989 e 1991, transformaram-se em cinzas.

O que podemos esperar dos EUA, os criadores e fiadores da ordem liberal do pós-guerra, prestes a serem governados por um presidente que repudia as alianças permanentes, abraça o protecionismo e admira os déspotas?

O que esperar de uma combalida União Europeia (UE), que contempla a ascensão da “democracia não liberal” no Leste, o Brexit e a possibilidade de Marine Le Pen ser eleita presidente da França?

O que virá pela frente agora que a Rússia expansionista de Vladimir Putin exerce uma influência cada vez maior sobre o mundo, e que a China anunciou que o presidente Xi Jinping não é o primeiro entre iguais, e sim o “líder principal”?

O sistema econômico e político mundial contemporâneo surgiu como reação aos desastres da primeira metade do século XX. Esses desastres, por sua vez, foram causados pelo progresso econômico sem precedentes, mas altamente irregular, do século XIX.

As forças de transformação liberadas pela industrialização estimularam o conflito de classes, o nacionalismo e o imperialismo. Entre 1914 e 1918, ocorreram a industrialização da guerra e a revolução bolchevique. A tentativa de reinstauração da ordem liberal pré-Primeira Guerra Mundial, na década de 1920, desembocou na Grande Depressão, no triunfo de Adolf Hitler e no militarismo japonês dos anos 30. Esse quadro criou as condições para a catastrófica chacina da Segunda Guerra Mundial, que foi seguida pela Revolução Comunista na China.

Na esteira da Segunda Guerra Mundial, o mundo foi dividido entre dois campos: a democracia liberal e o comunismo. Os EUA, a potência econômica mundial dominante, lideravam o primeiro, e a União Soviética, o segundo. Com o incentivo dos EUA, os impérios controlados por países europeus debilitados se desintegraram, criando uma multiplicidade de novos países na região que foi denominada “Terceiro Mundo”.

Contemplando as ruínas da civilização europeia e a ameaça do totalitarismo comunista, os EUA, a economia mais próspera e o país militarmente mais poderoso do mundo, lançaram mão não apenas de sua riqueza como também de seu exemplo de governo autônomo democrático para criar, inspirar e sustentar um Ocidente dos dois lados do Atlântico. Ao fazer isso, seus líderes aprenderam conscientemente com os erros políticos e econômicos desastrosos cometidos por seus antecessores após o ingresso do país na Primeira Guerra Mundial, em 1917.

Internamente, os países desse novo Ocidente saíram da Segunda Guerra Mundial com o compromisso do pleno emprego e de implementar alguma forma de Estado de bem-estar social. Internacionalmente, um novo conjunto de instituições — o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt, o antecessor da atual Organização Mundial do Comércio, a OMC) e a Organização Europeia de Cooperação Econômica (OECE, o instrumento do Plano Marshall, posteriormente rebatizada de Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE) — supervisionou a reconstrução da Europa e promoveu o desenvolvimento da economia mundial. A Otan, o núcleo do sistema de segurança ocidental, foi fundada em 1949. O Tratado de Roma, que criou a Comunidade Econômica Europeia, antecessora da atual UE, foi assinado em 1957.

Essa atividade criadora ocorreu, em parte, como resposta a pressões imediatas, notadamente a miséria econômica da Europa do pós-guerra e a ameaça da União Soviética de Stálin. Mas refletiu também a visão de um mundo de maior cooperação.

Da euforia ao desencanto

Do ponto de vista econômico, a era do pós-Segunda Guerra pode ser dividida em duas partes:

  1. o período keynesiano da recuperação europeia e japonesa; e
  2. o período subsequente da globalização orientada pelo mercado, que começou com as reformas de Deng Xiaoping na China, a partir de 1978, e com as eleições de Margaret Thatcher, no Reino Unido, em 1979, e de Ronald Reagan nos EUA, em 1980.

Este último período foi caracterizado pela conclusão da Rodada Uruguai de negociações comerciais, em 1994, pela criação da OMC, em 1995, pelo ingresso da China na OMC, em 2001, e pela ampliação da UE, de forma a incluir os ex-membros do Pacto de Varsóvia, em 2004.

O primeiro período econômico desembocou na grande inflação da década de 1970. O segundo período, na crise financeira do Ocidente de 2007-2009. Entre esses dois períodos houve uma época de turbulência e incerteza econômica, como a que se instaurou novamente agora. A principal ameaça econômica do primeiro período de transição foi a inflação. Desta vez, é a desinflação.

Geopoliticamente, a Era do Pós-guerra também pode ser dividida em dois períodos:

  1. a Guerra Fria, que acabou com a queda da União Soviética em 1991, e
  2. a era pós-Guerra Fria.

Os EUA travaram guerras significativas em ambos os períodos:

  1. a Guerra da Coreia (1950-53) e a Guerra do Vietnã (1963-1975) no primeiro; e
  2. as duas Guerras do Golfo (1990-91 e 2003) no segundo.

Mas não foi travada nenhuma guerra entre grandes potências economicamente avançadas, embora isso tenha ficado muito próximo de acontecer durante a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962.

O primeiro período geopolítico da era do pós-guerra terminou em decepção para os soviéticos e euforia no Ocidente. Hoje, é o Ocidente que se defronta com decepção geopolítica e econômica.

O Oriente Médio está em tumulto. A migração em massa tornou-se uma ameaça à estabilidade europeia. A Rússia de Putin está em marcha. A China de Xi está cada vez mais assertiva. O Ocidente parece impotente.

Essas mudanças geopolíticas são, em parte, resultado de mudanças desejáveis, notadamente a expansão do rápido desenvolvimento econômico além do Ocidente, particularmente nos gigantes asiáticos, China e Índia. Algumas são também resultado de decisões tomadas em outros países, como a decisão da Rússia de rejeitar a democracia liberal em favor de nacionalismo e autocracia como núcleo de sua identidade pós-comunista; e a da China de combinar uma economia de mercado com controle político comunista.

Revolta crescente

Mas o Ocidente também cometeu grandes erros, especialmente a decisão, na esteira do 11 de setembro, de derrubar o líder iraquiano Saddam Hussein e disseminar a democracia no Oriente Médio sob a mira de armas. Tanto nos EUA como no Reino Unido, a guerra no Iraque é agora vista como tendo origens ilegítimas, gerenciamento incompetente e resultados desastrosos.

As economias ocidentais também foram afetadas, em variados graus, pela queda do crescimento, aumento da desigualdade, desemprego elevado (especialmente no sul da Europa), diminuição da participação da mão de obra e desindustrialização. Essas mudanças tiveram efeitos particularmente adversos sobre homens relativamente pouco qualificados. A ira diante da imigração em massa cresceu, particularmente em segmentos populacionais também afetados adversamente por outras mudanças.

Algumas dessas transformações foram resultado de mudanças econômicas inevitáveis ou consequências adversas de desdobramentos desejáveis. A ameaça da tecnologia aos trabalhadores não qualificados não poderia ser plausivelmente interrompida, nem a crescente competitividade das economias emergentes.

No entanto, também em política econômica grandes erros foram cometidos, especialmente na incapacidade de assegurar que os ganhos do crescimento econômico fossem mais amplamente compartilhados. A crise financeira de 2007-09 e a subsequente crise da zona euro foram, no entanto, os eventos decisivos.

Isso produziu efeitos econômicos devastadores: um salto súbito no desemprego seguido de recuperações relativamente fracas. As economias dos países avançados são aproximadamente um sexto menores, hoje, do que teriam sido se as tendências anteriores à crise tivessem persistido.

A resposta à crise também minou a crença na justiça do sistema. Enquanto as pessoas comuns perderam seus empregos ou suas casas, o governo socorreu o sistema financeiro. Nos EUA, onde o livre mercado é uma fé secular, isso pareceu particularmente imoral.

Por fim, essas crises destruíram a confiança na competência e na probidade das elites financeiras, econômicas e políticas, especialmente no que diz respeito à gestão do sistema financeiro e à sabedoria na criação do euro.

Tudo isso junto destruiu o pacto no qual repousam democracias complexas, que afirmava que as elites poderiam ganhar grandes somas de dinheiro ou desfrutar de grande influência e poder desde que “distribuíssem as mercadorias”. Em vez disso, um longo período de fraco crescimento da renda para a maioria da população, especialmente nos EUA, culminou, para surpresa de quase todos, na maior crise financeira e econômica desde a década de 1930. O choque, então, deu lugar a medo e raiva.

A sucessão de erros geopolíticos e econômicos também minou a reputação de competência dos Estados ocidentais, reforçando, ao mesmo tempo, a da Rússia e, mais ainda, a da China. Com a eleição de Donald Trump, abriu-se ainda um rombo na já esfarrapada convicção de liderança moral dos EUA.

Estamos, em suma, no fim de um período econômico — de globalização liderada pelo Ocidente — e geopolítico: o “momento unipolar” pós-guerra fria de uma ordem mundial liderada pelos EUA.

A questão é se o que virá será um esgarçamento da era pós-Segunda Guerra Mundialdesglobalização e conflito — como aconteceu na primeira metade do Século XX, ou um novo período em que as potências não ocidentais, especialmente China e Índia, desempenharão um papel mais importante na manutenção de uma ordem mundial cooperativa.

Livre comércio e prosperidade

Grande parte da resposta será fornecida pelos países ocidentais. Mesmo agora, após uma geração de relativo declínio econômico, os EUA, a UE e o Japão produzem pouco mais de metade da produção mundial medida a preços de mercado, ou 36% se medida em paridade de poder de compra.

Eles também permanecem sendo a base das empresas mais importantes e inovadoras do mundo, dos mercados financeiros dominantes, das instituições de ensino superior líderes e das culturas mais influentes. Os EUA também devem continuar sendo o país mais poderoso do mundo, particularmente em termos militares, por décadas. Mas a sua capacidade de influenciar o mundo é grandemente reforçada pela sua rede de alianças, produto da criativa política americana durante os primeiros anos do pós-guerra. E alianças também precisam ser sustentadas.

O ingrediente essencial do sucesso ocidental precisa, porém, ser doméstico. Crescimento lento e o envelhecimento das populações têm pressionado os gastos públicos.

Com crescimento fraco, particularmente da produtividade, e uma instabilidade estrutural nos mercados de trabalho, as políticas assumiram características de soma zero: em vez de ser capazes de prometer mais para todos, tornam-se, na verdade, um mecanismo que tira de alguns para dar a outros.

Os vencedores desse conflito foram aqueles que já são extremamente bem sucedidos. Isso deixa os que estão no meio e na base da distribuição de renda mais nervosos — e, portanto, mais suscetíveis à demagogia racista e xenófoba.

Em primeiro lugar, a era pós-Segunda Guerra Mundial de hegemonia americana foi um grande sucesso generalizado. A renda real média mundial per capita aumentou 460% entre 1950 e 2015. A proporção da população mundial em extrema pobreza caiu de 72%, em 1950, para 10% em 2015.

Em nível mundial, a esperança de vida ao nascer aumentou de 48 anos, em 1950, para 71 anos em 2015. A proporção de pessoas que vivem em democracias subiu de 31%, em 1950, para 56% em 2015.

Em segundo lugar, o comércio está longe de ser a principal causa do declínio de longo prazo na proporção do emprego americano na indústria de transformação, embora o aumento do déficit comercial tenha produzido um efeito significativo sobre o emprego em manufatura após 2000. O crescimento da produtividade tecnológica teve um impacto muito mais poderoso.

Analogamente, o comércio também não foi a principal causa do aumento da desigualdade. Afinal de contas, as economias de alta renda foram todas impactadas pelas grandes mudanças na competitividade internacional, mas as consequências dessas mudanças para a distribuição de renda variaram enormemente.

Os líderes americanos e ocidentais precisam encontrar maneiras melhores de satisfazer as demandas de seus povos. No entanto, parece que o Reino Unido ainda não tem uma ideia clara de como vai funcionar após o Brexit, a zona do euro permanece frágil e algumas pessoas que Trump pretende nomear, bem como os republicanos no Congresso, parecem determinados a cortar os cabos já esgarçados da rede de seguridade social americana.

É provável que um Ocidente dividido, ensimesmado e administrado erroneamente torne-se altamente desestabilizador. A China poderá, então, ver grandes missões lançadas sobre seus ombros. Se os chineses conseguirão se mostrar à altura de um novo papel mundial, em vista de seus enormes problemas domésticos, é uma questão em aberto. Isso parece bastante improvável.

Ao sucumbir à tentação de soluções falsas, nascidas da desilusão e da ira, o Ocidente poderá até mesmo destruir os pilares intelectuais e institucionais sobre os quais repousou a ordem econômica e política mundial no pós-guerra. É fácil compreender essas emoções e, ao mesmo tempo, rejeitar tais reações simplistas. O Ocidente não curará os seus males ignorando as lições de sua própria história. Mas poderá muito bem criar um caos tentando fazer isso.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s