“O crime organizado começa na favela e termina em Wall Street”

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Cristina Klein (Valor, 06/01/17) entrevistou o jornalista e escritor, Carlos Amorim, 64 anos, é autor de uma trilogia sobre o crime organizado, publicada pela editora Record e com a qual ganhou o Prêmio Jabuti por duas vezes. No primeiro livro, remonta a história da formação do Comando Vermelho (CV); no segundo, conta a construção da aliança do CV com o Primeiro Comando da Capital (PCC) de São Paulo e a expansão das duas facções por países vizinhos; no terceiro livro, “Assalto ao poder”, dedica-se a mostrar a infiltração do crime em instituições do Estado e do mercado. “O crime organizado começa na favela e termina em Wall Street”, afirma.

Amorim ressalta que, com ganhos entre US$ 3 trilhões e US$ 4 trilhões pelo mundo, segundo a ONU, o crime organizado não tem como movimentar esse volume de recursos sem as conexões com o sistema bancário. No Brasil, lembra que o mensalão teve no núcleo financeiro a direção do Banco Rural.

Em sua opinião, o Brasil representa o segundo caso mais grave da América Latina, depois do México, com um sistema prisional que fortalece as facções criminosas. “As condições carcerárias no país são tão péssimas que elas fomentam o surgimento de grupos organizados para resistir a essas condições. O fato de que o sujeito se organiza na cadeia é para sobreviver”. Amorim critica a reação de autoridades como o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ao massacre que matou 60 detentos em presídio de Manaus e expôs as vísceras de um sistema negligenciado pelos governos. “O governo de São Paulo, por exemplo, sempre deixou muito claro que o PCC não existia, que o PCC era uma ficção da imprensa”, diz.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista concedida ao Valor:

Valor: Em “Assalto ao poder”, o sr. defende a ideia de que o crime organizado pretende a tomada do poder do Estado. Como isso se dá?

Carlos Amorim: O crime organizado precisa de um mecanismo de autopreservação que exige atuação política. Quando falo de crime organizado, não estou falando de bandido em cima de laje de favela, falo do crime que está infiltrado nas instituições públicas, na democracia, na economia formal. Isso que a gente vê hoje em Brasília não tem outro nome.

Valor: A ligação entre o crime comum e a política e outras instituições é assim tão evidente?

Amorim: Tem conexões diretas. A atuação das organizações criminosas em escala global movimenta, anualmente, de acordo com a ONU, algo entre US$ 3 trilhões e US$ 4 trilhões. É maior do que o PIB do Brasil. Não seria possível movimentar tamanha quantidade de dinheiro sem o sistema bancário, de troca de capitais. Não existe isso aí em papel moeda. Você não bota isso em cima de uma mesa ou num campo de futebol. O crime organizado começa na favela e termina em Wall Street. É um leque amplo de envolvimentos. Se você considerar o tráfico de drogas, que é o maior negócio do crime organizado, que movimenta perto de US$ 1 trilhão, mais o contrabando de armas de guerra, a pirataria de produtos e serviços, mais as operações de lavagem de dinheiro, se você juntar esse bolo todo, fica muito claro, para quem quiser enxergar, que essa é uma operação criminosa transnacional que envolve gente de todos os tipos, de todos os escalões sociais, e governos também.

Valor: Que evidências mostram essa conexão?

Amorim: Nas Américas, tivemos um narcopresidente, que foi o [Manuel] Noriega, no Panamá. Ele era sócio do Pablo Escobar e transformou o Panamá num entreposto de venda de drogas, de exportação de cocaína colombiana para o mundo inteiro. Até que o governo americano decidiu invadir o Panamá e prendê-lo — aliás está preso até hoje. Era presidente de uma República diretamente envolvido com o tráfico de drogas. Na África, a máfia nigeriana, segundo um relatório do FBI recente, é a organização criminosa que mais cresce no mundo, porque se transformou num ponto de conexão da venda de drogas das Américas para a Europa e o Oriente, e do Oriente para as Américas. Daqui indo maconha, cocaína e crack e de lá vindo heroína, ópio e morfina. Isso era tão grave que a cidade de Kano, a segunda em importância da Nigéria, tinha um setor de seu aeroporto que era para despachar droga e era protegido pelo Exército nacional. Isso é um nível de cumplicidade que está além da imaginação.

Valor: Apesar da importância de facções como PCC e Comando Vermelho, o Brasil parece ter uma autoimagem diferente à dos vizinhos latino-americanos tomados pelo problema das drogas e do crime organizado.

Amorim: Mas não é diferente, não. Aqui nas Américas o caso mais grave é o do México, por causa do conflito instalado lá e da contaminação das instituições do país pelo crime organizado. Mas o segundo caso mais grave é o brasileiro, pelo tamanho e importância do país na América do Sul e pelo fato de já sermos o segundo maior mercado consumidor de cocaína no mundo, de acordo com a ONU, sendo o primeiro em crack. O crack é um subproduto da cocaína, uma droga vulgar, barata, perigosa — muitas organizações não gostam nem de lidar com isso porque acham que ela termina encurtando a carreira do consumidor. Mas o segundo caso mais grave é o brasileiro porque você já começa a ver a interferência do narcotráfico na política, ao eleger vereadores, deputados, se infiltrando em pequenos partidos e, eventualmente, até querendo criar partidos. Meu livro “Assalto ao poder” fala disso. Essas organizações, como têm uma base social muito grande, no Rio, em São Paulo e hoje em dia no país inteiro — onde tem miséria tem crime organizado e o narcotráfico —, eles teriam como consequência natural o plano de se organizar politicamente, e talvez na forma de um partido. O Fernandinho Beira-Mar tinha esse sonho, queria criar a federação do crime organizado, juntar todas as organizações sob a mesma bandeira e controlar o crime organizado no país inteiro. Nunca se realizou, mas chegou perto. A sociedade entre Comando Vermelho e PCC, que durou muitos anos e agora está em crise, do ano passado para cá, quase que realizou esse desejo do Fernandinho Beira-Mar.

Valor: Qual é a lógica dessas facções?

Amorim: Elas são organizações carcerárias, existem e se organizam dentro da cadeia. A maioria das lideranças está presa. E geram para fora uma sensação de que são uma grife. Então, quadrilhas avulsas se associam a esses nomes, contribuem com dinheiro, de forma a constituir um salvo-conduto. Quando chegarem à cadeia — e vão chegar, é um fato da vida deles — eles chegam como amigos e colaboradores, e não como adversários. Isso tem uma influência grande para o crescimento desses grupos.

Valor: Elas se expandem pela necessidade de proteção dentro dos presídios.

Amorim: Garantem um bom convívio na cadeia, nas galerias onde eles dominam não tem violência interna, não tem estupro, não tem crime contra outro preso, eles estabelecem uma lei duríssima de controle da vida carcerária, dividem comida. Estupro não acontece, sob pena de morte. O PCC, por exemplo, chegou a proibir o uso de crack nos presídios porque considerava que acabava com a dignidade do preso. Proibiu e acabou, ponto final. A expansão dessas facções se concretiza com a droga, que é um negócio que movimenta milhões e milhões de reais. Hoje um traficantezinho de pequeno porte, de bairro, movimenta R$ 1 milhão por semana. A droga é uma multi-indústria, articulada globalmente. O FBI diz que existem apenas 250 grandes organizações criminosas no mundo, entre as quais PCC e Comando Vermelho, e o resto são associações locais, como essa Família do Norte (FDN), no Amazonas. Ela foi criada especificamente sob a influência do PCC e do Comando Vermelho. Na Bahia, tem a Organização Plataforma Armada (OPA), que é voltada para o roubo armado, que usa todas as características destas duas organizações.

Valor: Qual é a origem da guerra entre PCC e Comando Vermelho?

Amorim: Foi aquele incidente em Pedro Juan Caballero. Os dois grupos se juntaram para assumir o tráfico de maconha na fronteira de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, com Ponta Porã (MS) e executaram aquele traficante paraguaio [Jorge Rafaat Toumani], o chefão da droga na região, chamado de rei da fronteira. Mobilizaram um grupo de mercenários para produzir aquele resultado, usando inclusive metralhadora calibre .50. Ex-militares brasileiros participaram disso. A DEA, a agência americana antidrogas, diz que até gente que originalmente era ligada ao Exército Republicano Irlandês (IRA) estava envolvida. O IRA já foi encontrado com as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]. O IRA firmou acordo com o governo britânico, depôs as armas e atua hoje pela via política e eleitoral. Mas havia gente do IRA que tinha condenações tão pesadas que não podiam voltar para a vida legal. Então esses caras viraram mercenários. A mesma coisa aconteceu com a Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), do Chile, que veio aqui e sequestrou o Abilio Diniz, o Washington Olivetto e o vice-presidente do Bradesco, o Beltran Martinez. Eram organizações de esquerda cujos caras não tinham mais caminho de volta e continuaram no mundo da operação armada, que marcou a vida deles inteira.

Valor: E o rompimento?

Amorim: Depois desse episódio, o PCC e o Comando Vermelho tomaram o poder da região e colocaram um novo cara para comandar a operação. Parece que, então, houve um desacerto comercial entre eles, alguma coisa foi muito mal e produziu um estremecimento. Aí ocorreram rebeliões e lutas internas entre as duas organizações em vários presídios da região Norte e Centro-Oeste, desde o ano passado para cá, e agora esse negócio em Manaus, que é um escândalo, um absurdo, sem tamanho, que não tem nem como qualificar.

Valor: Qual é sua avaliação da reação das autoridades?

Amorim: Nosso ministro da Justiça [Alexandre de Moraes] fica dizendo que não se pode explicar esse tipo de evento apenas — apenas — pela existência das organizações criminosas. Vai explicar pelo que então? Foi a troco de quê que aconteceu aquilo? Na verdade, as condições carcerárias no país são tão péssimas que elas fomentam o surgimento de grupos organizados para resistir a essas péssimas condições. O fato de que o sujeito se organiza na cadeia é para sobreviver. E o detento já não parte do zero. Hoje tem um caminho pavimentado. Tanto o PCC, o Comando Vermelho quanto outras organizações já deram o exemplo de como se faz, quais são os critérios, quais são as leis internas que têm que ser aplicadas, quais são os negócios que têm que ser mantidos do lado de fora.

Valor: O que o sr. achou da declaração do ministro da Justiça, que disse que o sistema prisional não deve separar as facções, quando o procedimento é feito em outros países?

Amorim: Isso na verdade é uma burrice. No Rio de Janeiro, no primeiro governo Brizola, em 1982, quando o Comando Vermelho se impôs como uma administração paralela na Ilha Grande, a secretaria de Justiça decidiu: “Vamos pulverizar esses caras por todos os presídios”. Qual foi a consequência disso? Foi gerar a experiência deles para toda a massa carcerária. Eles se expandiram por todo o sistema. Depois, tentaram voltar atrás e recolheram de novo, como é aqui em São Paulo nos presídios de Presidente Bernardes e Presidente Venceslau, que são as casas do PCC. Dizem que em São Paulo eles influenciam 40 mil detentos. Um telefonema de uma liderança do PPC para qualquer um desses presos gera uma resposta instantânea, imediata. Se eles disserem “Vamos virar a cadeia amanhã”, a cadeia vai virar.

Valor: A declaração do ministro busca minimizar o peso do PCC, oriundo do Estado onde ele foi secretário de Segurança?

Amorim: Na verdade, ele sempre manteve a mesma posição. Quando foi secretário em São Paulo, ele dizia a mesma coisa, que o problema do sistema não é facção criminosa. É superlotação, é morosidade da Justiça, é o fato de existir 40% dos presos sem julgamento. E o governo de São Paulo sempre deixou muito claro que o PCC não existia, que o PCC era uma ficção da imprensa. Depois da rebelião de 2006, quando não era mais possível dizer que não existia, é que começaram a admitir a existência, mas daquele jeito que a gente conhece. Sai na televisão mas não tem o nome da organização. Depois, dizia que o PCC existia sim, mas foi desbaratado, estão todos presos. É verdade que estão todos presos. É uma organização carcerária, todos eles estão em cana mesmo, não há dúvida sobre isso. Agora é uma posição confortável do ministro porque ele fala que o problema não existe… Se ele contraria os fatos, fica difícil.

Valor: Os governos do Rio têm atitude semelhante?

Amorim: O governo do Rio é um pouco mais realista com essa questão do crime organizado porque os fatos são graves e a repetição sistemática desses acontecimentos torna impossível dizer que não existe. Mas a autoridade pública, de modo geral, tenta desdenhar da existência desses grupos, porque eles são um poder paralelo, uma coisa que afronta o Estado, e o Estado não responde, o que é pior.

Valor: Investigações mostram a suposta colaboração de médicos, juiz e magistrada com o crime organizado no Amazonas. É um exemplo da infiltração nas instituições?

Amorim: Houve facilitação de fugas. O crime adentra o mundo legal pela via da corrupção e da ameaça. Você vê o grau de comprometimento que envolve até desembargadores. É triste. O cenário é absolutamente assustador e não vemos políticas para a segurança pública.

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