Os Índios Antes do Brasil

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Carlos Fausto é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, UFRJ. Nascido em São Paulo, em 1963, graduou-se em Ciências Sociais pela USP e obteve seu mestrado e doutorado em Antropologia na universidade em que hoje leciona. É fundador e editor da revista Mana: Estudos de Antropologia Social e editor de Ciências Humanas da revista Ciência Hoje.

Os Índios Antes do Brasil, livro de autoria de Carlos Fausto (Rio de Janeiro; Zahar; 200?), lembra-nos que não houve “descoberta do Brasil”, como é praxe encontrar na historiografia brasileira, mas sim conquista de um largo território já ocupado por nativos há milênios.

Imagine-se nas Américas no momento de sua “descoberta”. Imagine-se um membro da expedição de Colombo deixado, em 1492, na ilha de Hispaniola. Imagine que, trazido ao continente, você teve tempo de conhecer a América do Sul, de ponta a ponta, antes de Cabral aportar por aqui. O que teria visto? Como viveriam os índios? Quantos eram? Como se organizavam? Como eram suas aldeias? Quem eram seus chefes e especialistas religiosos? Como conduziam a guerra e cultivavam a paz? Estas são algumas das perguntas que este livro pretende enfrentar.

A tarefa não é fácil, pois você, leitor, se aqui esteve antes de Cabral, não nos deixou nenhum escrito. Para conhecer os índios antes do Brasil temos que:

  1. recorrer às evidências fornecidas pela arqueologia e pela linguística histórica,
  2. conhecer as descrições legadas pelos colonizadores e missionários dos séculos XVI e XVII e
  3. estudar as populações indígenas contemporâneas.

Mas nem assim estamos em terreno seguro.

As áreas tropicais colocam obstáculos consideráveis à arqueologia. Os solos ácidos e as intempéries naturais destroem boa parte dos registros da presença humana. Tudo, exceto a pedra trabalhada e a cerâmica, vira pó: ossos, madeira, palha, restos de alimentos preservam-se mal.

Ademais, a floresta densa esconde a maior porção dos sítios ocupados pré-historicamente. Há vastas áreas do continente que são ainda hoje terra ignota do ponto de vista arqueológico.

Tampouco podemos esperar respostas seguras da linguística, pois estamos longe de esgotar as tarefas de descrição, comparação e classificação das línguas indígenas, que são básicas à reconstrução histórica. Quanto aos escritos dos primeiros séculos da colonização, além de lacunares, devem ser lidos com cuidado.

É preciso interpretá-los criticamente, pois neles misturam-se os medos e os desejos dos conquistadores, que buscam descobrir ouro, catequizar os gentios, ocupar a terra, escravizar os nativos. Ademais, nenhum texto baseado em permanência prolongada entre os nativos pode ser considerado fora do contexto colonial — o Brasil de Anchieta, ao menos no litoral, já não era mais o mesmo daquele de Cabral.

Por fim, devemos considerar o que os grupos indígenas contemporâneos podem nos dizer sobre as populações do passado. Será que os sistemas sociopolíticos e cosmologias atuais guardam alguma semelhança com aqueles existentes na época da conquista?

Em matéria de demografia e geografia, as dessemelhanças são notáveis: hoje há possivelmente 1/20 da população indígena de então, e a calha dos grandes rios e o litoral encontram-se reocupados por pessoas que não se identificam como índios.

Por outro lado, o encapsulamento dos povos nativos em um Estado nacional e sua inserção na economia de mercado trazem consequências dantes ausentes.

Todavia Carlos Fausto sugere que a etnologia pode fornecer um olhar crítico às interpretações históricas e arqueológicas. Para isso, no entanto, deve-se explorar um plano de continuidades entre o passado e o presente que nem sempre é evidente.

“Tudo somado, é possível dizer que vivemos em uma ilha de conhecimento rodeada por um oceano de ignorância. Sabemos menos do que deveríamos, mas felizmente ainda podemos saber mais. Para avançar cumpre fazer as perguntas certas.”

Continua em próximo post.

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