Visão Continental dos Nativos da América do Sul

incas

No livro de autoria de Carlos Fausto, “Os Índios antes do Brasil”, ele ressalta que, “Antes de focalizarmos algumas regiões da América do Sul, é preciso ter uma visão geral do continente. Há duas razões para isso.

Os sistemas sociais indígenas existentes às vésperas da conquista não estavam isolados, mas articulados local e regionalmente. Ao que tudo indica, vastas redes comerciais uniam áreas e povos distantes. Movimentos em uma parte produziam efeitos em outra, por vezes a quilômetros de distância. O comércio, a guerra e as migrações articulavam as populações indígenas do passado de um modo mais intenso do que observamos hoje.

Uma visão continental é também necessária porque muitos dos modelos sobre a pré-história e a história do continente foram forjados a partir de uma oposição entre as terras altas e as baixas:

  • de um lado, a grande formação montanhosa andina, que se ergue paralela à costa do Pacífico;
  • de outro, todo o resto a leste, mas, principalmente, a floresta tropical.

Oposição entre terrenos áridos e montanhosos, grandes escarpas, vales-oásis e costas secas, e uma floresta luxuriante, verde, densa e úmida. Nessas matas, porém, não floresceu uma civilização capaz de cultivar intensivamente o solo, domesticar animais, dominar a metalurgia e conhecer os ardis do poder; ao contrário, foi na aspereza andina que se ergueu um império, cujos traços ficaram marcados em pedra e metal.

Daí advém uma questão recorrente: por que nas terras baixas não se desenvolveram sociedades politicamente centralizadas, estratificadas e urbanas como nos Andes?

A indagação ronda como um espectro a antropologia deste continente, refletindo uma visão que é contemporânea à própria “descoberta” do Novo Mundo. Os índios do Brasil foram logo caracterizados como gente sem religião, sem justiça e sem estado — uma ideia que, elaborada pela Filosofia Política, serviu de base ao imaginário sobre o homem natural e o estado de natureza.

No século XIX, outras dicotomias somaram-se à oposição entre natural e civilparentesco versus política, sangue versus território, status versus contrato —, constituindo um corte entre:

  1. sociedades organizadas por laços de parentesco (mais “naturais”) e
  2. aquelas estruturadas segundo vínculos políticos (mais “sociais”).

Essa dicotomia está na base das hipóteses e questões sobre a América do Sul às vésperas da conquista. O mais influente modelo continental foi proposto pelo antropólogo norte-americano Julian Steward, na década de 1940, quando da publicação dos cinco volumes do Handbook of South American Indians [Guia dos índios sul-americanos, referido daqui para frente como HSAI].

Para organizar a diversidade das culturas do continente, Steward propôs classificá-las em quatro grandes tipos, hierarquizados em função do nível de complexidade. A tipologia, embora utilizando um conjunto de traços variados, fundava-se em uma associação estreita entre ecologia, modo de produção e organização sociopolítica. A esses tipos corresponderia uma distribuição geográfica determinada.

No estrato inferior, temos os chamados povos marginais, um conjunto heterogêneo de sociedades definidas por possuírem uma tecnologia de subsistência muito rudimentar e por carecerem de instituições políticas. Seriam predominantemente caçadores-coletores nômades, vivendo em pequenos bandos e retirando seu sustento em ambientes inóspitos. Esses povos estariam concentrados em três áreas de campos abertos, embora com condições climáticas bastante diversas: o Cone Sul, o Chaco e o Brasil Central.

Acima dos marginais, teríamos as tribos da floresta tropical. Estas viveriam em aldeias mais permanentes, porém dispersas no território. Congregariam um número maior de pessoas do que os bandos marginais, graças à agricultura de queima e coivara e à exploração de recursos aquáticos, mas careceriam de instituições propriamente políticas.

O princípio organizacional continuaria a ser o parentesco — não haveria poder político ou religioso destacado, e o panorama social seria dominado por um notável igualitarismo. Sociedades desse tipo estariam dispersas pela maior parte do continente, ocupando quase toda a Amazônia, a costa do Brasil e das Guianas e os Andes meridionais.

Na região circunvizinha à caribenha e nos Andes setentrionais, apareceria um outro tipo de formação social, caracterizada por um desenvolvimento inicial de centralização política e religiosa, estratificação em classes e intensificação econômica.

Embora apresentassem tecnologia e cultura material semelhantes às das tribos da floresta tropical, Steward considerava que essas sociedades tinham ultrapassado o nível de organização social baseado apenas em laços de sangue: grupos fundados em categorias de parentesco, idade e sexo davam lugar a classes sociais e à especialização ocupacional. O poder e a religião institucionalizavam-se, levando ao aparecimento de chefes supremos, sacerdotes, templos e ídolos. O igualitarismo da floresta cedia lugar à hierarquia e ao poder.

Por fim, no topo da classificação encontramos a civilização que se desenvolveu nos Andes Centrais e na costa do Pacífico e que teve como ponto culminante o império inca — uma experiência expansionista que durou cerca de cem anos antes de ruir com a chegada dos espanhóis.

Populações densas, sistemas intensivos de produção agrícola, criação extensiva de animais, aparelho estatal desenvolvido com formas sofisticadas de administração pública e extração de tributos, estratificação social, especialização e desenvolvimento de técnicas como a metalurgia; tudo isso faria do mundo andino uma exceção frente às outras sociedades do continente.

Essa classificação quadripartite dos povos da América do Sul está na base de uma tipologia geral dos estágios de desenvolvimento sociopolítico, proposta por Elman Service em 1962. Service designou tais estágios Bando, Tribo, Cacicado e Estado, consagrando uma sequência evolutiva até hoje influente na arqueologia. O modelo do HSAI acabou, assim, refraseado e generalizado na literatura posterior.

A discussão sobre a paisagem etnográfica do continente no momento da conquista foi dominada por essa tipologia evolucionista, realizada à sombra do Estado. A própria classificação de Steward fora, na verdade, concebida de cima para baixo.

O império Inca, como o ápice do desenvolvimento no continente, acabou por definir os demais tipos por carência, levando à caracterização dos povos das terras baixas pela negativa. Com isso, restringiram-se os problemas a serem enfrentados pela arqueologia a duas perguntas básicas:

  1. será que todos os povos das terras baixas, de fato, não tinham aquilo que os incas tinham?
  2. E por que não tinham?

Como ninguém diria que houve alhures sociedades tão complexas como nos Andes Centrais, a primeira questão deslocou-se para o tipo seguinte, os cacicados. Assim, ela se traduziu em:

  • será que só existiram sociedades estratificadas e hierarquizadas de tipo cacicado em torno do mar do Caribe e no norte dos Andes?
  • Ou poderíamos reencontrá-las, ao contrário do que pensava Steward, em outras regiões do continente?

Nisto reside uma das polêmicas mais ásperas da arqueologia americanista contemporânea, dividindo aqueles que negam e os que defendem a existência de cacicados na Amazônia pré-conquista.

Um dos pontos nevrálgicos refere-se à demografia, ou mais especificamente à densidade demográfica. Nos modelos de Service e de Steward, a cada uma das formas organizacionais corresponde um limiar demográfico, pois se supõe que o desenvolvimento institucional é uma resposta adaptativa ao crescimento populacional.

À medida que a população aumenta e se adensa, novos mecanismos de integração e organização tornam-se necessários para produzir e distribuir recursos, garantir a paz interna e a defesa externa. Esse processo implica a progressiva diferenciação social e política: o igualitarismo antes prevalecente cede lugar à estratificação e à divisão entre dominantes e dominados.

O motor de todo esse processo é o incremento populacional. Deste pressuposto surgiram as principais hipóteses para responder à segunda pergunta colocada acima sobre o porquê de os povos das terras baixas não terem o que os incas tinham. Como se poderia esperar, as respostas acabaram por focalizar os fatores que teriam prevenido o crescimento demográfico em áreas como a Amazônia.

Antes, porém, de chegarmos à floresta e suas rixas, vejamos o que, afinal de contas, os incas tinham que os outros não tinham.

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