Império Inca

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Carlos Fausto, em Os Índios Antes do Brasil (Rio de Janeiro; Zahar; 200?), diz que não houve nada em toda a América do Sul que se compare ao desenvolvimento ocorrido nos Andes. Em 1500, o império inca estendia-se por cerca de 4.300km, desde o que é hoje a fronteira sul da Colômbia até o rio Maule, no Chile.

A expansão começara no século XIV, e em menos de cem anos a elite incaica conseguira controlar um vasto território habitado por, talvez, 10 milhões de pessoas. O império estava dividido territorial e administrativamente em quatro cantões, que por sua vez dividiam-se em províncias.

Cada cantão possuía um comandante; cada província, um governador. Esses postos eram ocupados por membros da nobreza inca, escolhidos pelo imperador, o Sapan Inca. Em nível provincial, havia chefes classificados hierarquicamente de acordo com o número de casas ou famílias (unidades de tributação) sob sua responsabilidade.

A administração do Estado não era sustentada pelo pagamento de impostos em dinheiro ou produtos, mas em trabalho. Cada região tinha suas terras divididas em três porções:

  1. para o Inca,
  2. para a religião e
  3. para o uso da população.

Os homens adultos tinham que cultivar, durante parte do ano, os campos do Estado, além de prestarem outros serviços adicionais como :

  1. servir o exército e
  2. trabalhar nas minas ou nas construções públicas.

Em cada região, o governo mantinha dois depósitos:

  • um para o produto dos campos do Inca e
  • outro para os da religião.

Havia também armazéns na capital das províncias e outros em Cuzco, o centro do império. Os armazéns serviam para sustentar a nobreza, os servidores do estado, os sacerdotes e funcionários dos templos, os trabalhadores a serviço do governo, o exército e os artesãos especializados, bem como para promover cerimônias públicas. Além dos recursos agrícolas, o Estado tinha hegemonia na criação de lhamas e alpacas.

Apesar da complexidade da administração do império, não havia escrita. Utilizava-se o quipu, um sistema baseado em cordas com nós que funcionavam como recurso mnemônico para servidores do Estado, cuja função era memorizar e recontar as histórias, mitos e censos estatísticos.

Para a comunicação administrativa, utilizava-se a transmissão oral de mensagens: ao longo das vias principais, em intervalos regulares, havia um posto com jovens corredores, que estabeleciam uma cadeia de informação entre as províncias e Cuzco.

O território era recortado por uma rede de estradas, totalizando cerca de trinta mil quilômetros. As duas principais vias atravessavam o império de norte a sul — uma ao longo da costa, outra pelo planalto — e, junto com estradas menores, ligavam todos os seus rincões. À margem das estradas erguiam-se abrigos e armazéns com provisões, permitindo o deslocamento de grande número de pessoas.

Tal organização permitiu não apenas a expansão do império como sua relativa unificação. Um dos problemas centrais para a elite inca era administrar uma população muito diversa.

Após conquistar um novo território, o Estado promovia uma ampla reorganização:

  1. fazia-se um levantamento da topografia e dos recursos da região;
  2. realizava-se um censo demográfico;
  3. a partir daí, redistribuía-se a população local,
  4. alocavam-se terras,
  5. escolhia-se uma capital provincial e
  6. implantava-se uma nova administração em moldes incaicos.

Acolhiam-se os chefes locais que se submetessem, transformando-os em funcionários, e levavam-se seus filhos para serem educados em Cuzco. Designava-se um governador, proveniente da nobreza, para a região, e enviavam-se colonos e administradores de outras províncias para instalar o novo sistema e disseminar o quechua, a língua franca do império.

Foi essa estrutura que caiu nas mãos de Francisco Pizarro e de um punhado de espanhóis no fatídico ano de 1532. As razões de sua derrocada são várias, e cabe aqui destacar duas.

Alguns autores sugerem que, na década de 1520, a varíola já havia sido introduzida e se espalhava pelo império, causando danos em Cuzco e nas províncias. A se julgar pela grandeza dos danos causados por eventos variólicos posteriores, registrados por cronistas espanhóis, a mortalidade pode ter alcançado a casa das dezenas e até centenas de milhares de pessoas.

As epidemias teriam, assim, aberto o caminho para Pizarro anos antes de ele colocar os pés no altiplano. As doenças não teriam apenas afetado a população do império em geral, mas imposto uma alta perda sobre a nobreza inca, matando inclusive o Inca, Huayna Capac. Sua morte repentina levou a uma feroz disputa pelo poder e à guerra civil.

O sucessor legítimo era Huascar, filho de Huayna Capac com sua própria irmã; fruto de um lídimo casamento incestuoso real. Mas havia Atahualpa, filho do Inca com uma esposa secundária. Ele governava Quito, tinha participado das campanhas militares de seu pai no Equador e estava junto a ele no leito de morte.

Contestando os direitos de seu meio-irmão, Atahualpa sustentava que o pai, antes de falecer, havia decidido dividir o império, conferindo-lhe soberania sobre a parte setentrional. Se resultasse apenas dos desejos e capacidades de Atahualpa, a rivalidade pela sucessão não teria prosperado. Porém ela tinha ingredientes estruturais profundos.

A razão estrutural atende pelo nome de herança dividida, um sistema de transmissão de bens e direitos implantado pelo imperador Pachakuti (1438-1471), que fora o motor das conquistas. Segundo essa regra, quem herdava o poder não tinha legado material.

Quando da morte do Inca, um de seus filhos assumia a chefia do estado. Recebia o direito de governar, declarar guerras, fazer a paz, cobrar impostos, mas não recebia qualquer propriedade material. Tudo o que pertencera ao Inca morto passava para seus outros descendentes em linha masculina, que formavam um grupo social corporado denominado panaca.

Eles eram responsáveis pela preservação da múmia do Inca e pela manutenção de seu culto. Para sermos fiéis à concepção nativa, o Inca morto, representado por sua múmia, continuava a possuir os bens e ser servido por seus descendentes.

A regra da herança dividida significava que tudo o que resultara da administração anterior — obras e conquistas — saíam da esfera do Estado. A cada sucessão era preciso começar tudo de novo: o rei recém-chegado não tinha alternativa senão ampliar os limites do império, conquistando novos povos e novas terras.

No início do século XVI, os Incas mortos já detinham o maior quinhão das terras e não havia mais para onde se expandir sem correr riscos insuportáveis. E não obstante a necessidade de expansão, o império já era grande demais e administrava uma população diversa demais.

Os panacas dos reis mortos formavam verdadeiros Estados dentro do Estado, enfraquecendo o poder do Inca e alimentando a rivalidade no interior da elite. A alternativa para Huascar manter sua liderança seria, portanto, reformar o sistema e enfrentar as cortes dos Incas mortos. Não foi capaz de fazê-lo.

Por volta de 1530, a disputa pelo trono resultou em guerra civil. O império se dividiu em combate. Atahualpa venceu, mas não levou. Pizarro e seus homens atalharam-no em Cajamarca, quando estava a caminho de Cuzco. Capturaram-no, receberam um vasto resgate em metal precioso e, ao cabo de alguns meses, o executaram. Era o fim da trajetória expansionista de uma população que conquistara o mundo andino.

Não cabe aqui recuperar a história dessa expansão. Cumpre notar apenas que os incas não construíram um dos maiores impérios de seu tempo a partir do nada. Eles o fizeram sobre trilhas antes exploradas por outros povos, em particular em dois dos grandes centros irradiadores do desenvolvimento cultural na região:

  1. o altiplano meridional, em torno do lago Titicaca — hoje na Bolívia — e
  2. a costa norte do Peru.

Nessas áreas, há indicações arqueológicas da presença de sociedades centralizadas e estratificadas desde c.1500 a.C. Muitos autores empregam o termo cacicado para caracterizá-las; em certos casos, falam em Reinos, Estados, e mesmo Civilização ou Império.

A despeito das incertezas de qualquer reconstituição arqueológica e das impropriedades das categorias tipológicas, o certo é que na região andina e na costa do Pacífico assistimos ao desenvolvimento de formas sociopolíticas cujos paralelos com outras regiões da América do Sul são difíceis de se estabelecer.

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