Floresta Tropical

amazonia-pre-colombiana

Carlos Fausto, em Os Índios Antes do Brasil (Rio de Janeiro; Zahar; 200?), diz que à sombra monumental do Inca obscureceu durante muito tempo a floresta tropical. Julgada ao revés, por aquilo que não tinha, ela tendeu a ser vista como um lugar estéril e inóspito.

Os Andes e a costa do Pacífico, ao contrário, surgiam como o principal, senão único, centro de invenção cultural no continente ou lugar de origem:

  1. da domesticação de plantas e animais,
  2. da manufatura de cerâmica,
  3. do uso do metal,
  4. de um sistema religioso baseado no trio sacerdote-templo-ídolo,
  5. da centralização política e
  6. da estratificação social.

O olhar de Steward construiu-se em acordo com uma visão profundamente enraizada na cordilheira em tempos coloniais. Segundo essa visão, o império inca teria uma fronteira intransponível a leste, ali onde se estendia uma floresta malsã e perigosa, povoada por gente selvagem de costumes animalescos.

Tal versão da relação entre terras altas e sua vertente oriental foi elaborada a partir de uma visão nativa, anterior à colonização espanhola, que resultou das fracassadas tentativas de expansão inca sobre a mata tropical. Os exércitos imperiais, acostumados a percorrer grandes extensões em estradas bem providas e a lutar em campo aberto, definhavam e morriam na vegetação cerrada. Perdiam-se, adoeciam, passavam fome e eram alvo fácil das setas certeiras dos guerreiros da floresta.

Os incas, e depois os espanhóis, construíram uma dicotomia entre,

  1. de um lado, formações plenamente “políticas” do altiplano e,
  2. de outro, aquelas quase “naturais” das terras baixas.

A floresta seria, assim, associada negativamente às artes da civilização e positivamente aos poderes mágicos do xamanismo, oscilando entre o natural e o sobrenatural. A cultura e o estado civil, por sua vez, ficariam reservados às terras altas.

Foi essa a imagem que Steward trouxe para dentro das Ciências Sociais. Extremamente difundida, ela nos fez ignorar:

  1. que, desde um período remoto, recuando talvez ao VI milênio a.C., havia uma interação importante entre a costa do Pacífico, os Andes e a floresta tropical; e
  2. que essa interação se fez também no sentido oeste-leste, como difusão de ideias e técnicas dos Andes para a floresta.

povos-indigenas

Foram necessárias algumas décadas de pesquisas para que essa visão começasse a mudar. Até os anos 1970, ela foi dominante na Antropologia do continente. Para isso contribuíram decisivamente os trabalhos da arqueóloga norte-americana Betty Meggers, cujo livro de síntese e divulgação chama-se, significativamente, Amazonia: Man and Culture in a Counterfeit Paradise [Amazônia: a ilusão de um paraíso]. Ao mito do El Dorado, da floresta como um repositório desconhecido de vida e riquezas, Meggers contrapôs a imagem de um inferno verde, cuja pobreza em recursos naturais imporia limites estreitos ao desenvolvimento das culturas nativas.

Esposando um estrito determinismo ambiental, a autora propôs que a baixa fertilidade do solo teria impedido tanto o crescimento e o adensamento populacional quanto a fixação em um mesmo local, resultando daí uma existência móvel e uma ocupação esparsa dos territórios. Ambas as características teriam determinado a estagnação dos povos da floresta tropical no estágio de tribo.

A paisagem humana na Amazônia em 1500 d.C. pouco diferiria, assim, daquela descrita pelos etnólogos do século XX, mais de quatrocentos anos depois do início da colonização. Se você, leitor, tivesse de fato chegado aqui antes de Cabral e pudesse passear pela mata com salvo-conduto, encontraria então populações pouco expressivas e relativamente isoladas, vivendo em aldeias de pequeno porte e praticando uma agricultura itinerante baseada na mandioca.

As inúmeras escavações que Meggers e seus colaboradores realizaram nos anos 1950 e 60 pareciam confirmar a hipótese de que a floresta tropical é o hábitat por excelência de sociedades simples, igualitárias e de pequeno porte. Assim, completava-se o raciocínio: nós não tínhamos o que os incas tinham porque o incremento e adensamento populacional nas terras baixas teriam esbarrado na pobreza de recursos naturais, o que inibia o desenvolvimento de formas sociopolíticas complexas.

Alguns dados arqueológicos e etno-históricos, contudo, maculavam esse quadro. As evidências adversas concentravam-se nos formadores e na calha principal do rio Amazonas. Clifford Evans e Betty Meggers, já naquela época, escavaram em duas áreas que apresentam registros arqueológicos indicativos de complexificação social, entendida, nesse contexto, como processo de intensificação econômica, diferenciação social e centralização política:

  1. a bacia do rio Napo, um formador do Solimões que nasce na cordilheira equatoriana, e
  2. a ilha de Marajó, na foz do Amazonas.

Ainda que pesquisas futuras venham a esclarecer tais questões, parte daquele mundo nos será para sempre inacessível, pois os habitantes dos tesos desapareceram antes que pudessem ser observados. Não há quaisquer registros históricos sobre os povos que lá viveram. Para a maioria dos autores, o colapso da cultura marajoara ocorreu antes da conquista, pois não há associação entre os aterros e objetos europeus, nem datações posteriores ao século XIV.

Betty Meggers e Clifford Evans, que realizaram pesquisas arqueológicas em Marajó na década de 50, apostavam que a decadência manifestada pela simplificação estilística da cerâmica encontrada nos estratos superiores das escavações teria ocorrido por causa dos limites impostos ao desenvolvimento cultural pelo ambiente amazônico.

Como explicar, porém, o surgimento da cultura marajoara, onde se encontram registros que os arqueólogos costumam associar a sociedades centralizadas e estratificadas?

A resposta de Meggers e Evans foi postular a migração de uma população subandina, que se assentara na foz do Amazonas nos séculos IV-V d.C, já dotada de um padrão civilizacional elevado. Ela não se desenvolvera nas planícies inundáveis, onde vicejam as gramíneas e os mosquitos, mas chegara pronta, perfeita em seu esplendor.

Contudo, seguia o argumento, assim como uma cultura se desenvolve em condições favoráveis, também regride se o meio lhe for desfavorável: a partir do século XI, começaria, então, o declínio dos Marajoara. Implacável, a natureza amazônica teria determinado a involução daqueles intrusos afeitos às nascentes geladas.

Poucos especialistas, hoje, aceitam esta hipótese migratória.

Primeiro, porque existem indícios de que a indústria cerâmica na ilha se desenvolveu in loco; Marajó seria, assim, antes um local de invenção do que de importação cultural.

Segundo, porque as datações mais antigas de cerâmica policrômica na Amazônia ocorrem em Marajó, e não próximas aos Andes; portanto, se formos postular “uma difusão (e não desenvolvimentos independentes), seria mais razoável supor que esta se deu de leste para oeste.

Terceiro, porque a teoria da decadência não explica como uma sociedade demográfica e culturalmente robusta poderia ter resistido durante vários séculos em um ambiente supostamente tão restritivo.

Quarto, porque simplificação estilística não significa necessariamente regressão cultural, podendo resultar de uma produção em maior escala.

Marajó ainda nos reserva vários enigmas. Não sabemos, por exemplo, qual o tempo de construção de cada um dos aterros. Teriam sido eles rapidamente erguidos, com mobilização de trabalho em larga escala, ou se formaram lentamente, ao longo dos séculos, como os sambaquis do litoral?

Desconhecemos também os modos de articulação entre os diferentes tesos e se existiam, dentre eles, centros político-cerimoniais. Sobretudo, restam obscuros quais foram os processos históricos que determinaram o apogeu e a queda dos Marajoara.

Nas terras baixas da América do Sul, há outros exemplos, além de Marajó, de uma arte cerâmica sofisticada como aquelas encontradas ao longo do rio Amazonas e de seus formadores, e de sociedades que construíram extensos sistemas de aterros: como em Llanos de Mojos, na Bolívia; no triângulo de Apure, no Orinoco; ou no litoral das Guianas.

Se admitirmos que a existência desse tipo de obra e/ou de cerâmica particularmente refinada podem apontar para sociedades mais sedentárias, centralizadas e hierárquicas do que aquelas características da chamada “cultura da floresta tropical”, então os modelos de Steward e de Meggers necessitam ser revistos.

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