De Volta ao Passado Neoliberal: O “Cavalo-de-Pau” nos Bancos Públicos

 

politicas-operacionais-do-bndes-em-2017O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai assumir papel inédito como supridor de capital de giro para as empresas nacionais. Até 31 de dezembro de 2017, caso o governo golpista não caia antes, o banco vai oferecer R$ 13 bilhões na linha BNDES Progeren, de fortalecimento da capacidade de geração de emprego e renda, dos quais R$ 5 bilhões de forma direta, o que até agora nunca tinha ocorrido de maneira ampla, e R$ 8 bilhões via agentes financeiros.

A oferta de capital de giro sem a intermediação dos agentes faz parte das novas políticas operacionais anunciadas pelo BNDES na maior reformulação nas condições de financiamento em quase uma década. A última mudança havia ocorrido há nove anos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014).

“Nesse momento, nossa ênfase em capital de giro é para preservar a atividade econômica e os empregos”, disse Maria Silvia Bastos Marques, presidente do BNDES ao anunciar as novas políticas operacionais. Segundo ela, a instituição tem um olhar de curto prazo, conjuntural, em que busca ampliar o acesso a crédito para além da rede bancária tradicional. Um banco de desenvolvimento vai virar banco de varejo?!

O banco quer atrair novos canais de distribuição de produtos, dentro do esforço de aumentar o acesso a crédito. Entre esses canais, estão plataformas digitais e “fintechs, empresas que usam tecnologia de forma intensiva para oferecer produtos na área de serviços financeiros. “Estamos em conversas avançadas com uma grande plataforma [digital] e com uma “fintech” para que possam distribuir nossos produtos”, disse Maria Silvia. Espanto! O banco de desenvolvimento maior do que o Banco Mundial virou “fintech”! Vá pensar pequeno assim…  🙂

O cenário de restrição de crédito e taxas de juros nas alturas acabou favorecendo canais de empréstimos alternativos aos grandes bancos, como o crédito on-line. O produto oferecido por plataformas digitais tem sido uma opção para os consumidores, especialmente os que buscam refinanciar dívidas sob taxas e prazos mais favoráveis.

Novatas, as plataformas digitais resistem a oferecer números. Estimativas do mercado apontam que um grupo de dez a 12 companhias emprestou R$ 300 milhões em 2016. O volume é uma gota no mar de empréstimos feitos pelos bancos tradicionais, cujas concessões em crédito pessoal (sem incluir consignado) chegaram a quase R$ 6 bilhões apenas em novembro de 2016, último dado disponível no Banco Central. Mas é considerado expressivo quando se considera que foi gerado por um grupo de empresas de tecnologia — as “fintechs” de crédito — que em sua maioria não completou dois anos de vida.

O movimento também é monitorado com lupa pelas grandes instituições financeiras, atentas ao potencial do setor. Outras fintechs de crédito vão surgir, até o próprio BNDES!

Os grandes bancos estão se mexendo não só para adquirir, mas também para atrair pessoal qualificado das fintechs para suas operações digitais. Não há um movimento de consolidação do setor, mas, à medida que essas fintechs começam a incomodar, não tem como negar que isso vai acontecer.

Por exemplo, especializado em crédito com garantia, o BankFacil começou as operações em 2013 e afirma que vem triplicando a sua carteira de crédito a cada ano desde então, chegando a R$ 100 milhões em 2015. A fintech já levantou R$ 30 milhões de fundos de venture capital como RedPoint e.Ventures, Quona Capital, QED e Kaszek Ventures.

Com cerca de três meses de vida, a Noverde, voltada para crédito à classe C, diz que ainda é cedo para falar em tamanho de carteira. Em dois meses, registrou 6,5 mil pedidos de créditos, em um total de R$ 15 milhões.

As plataformas citam o clássico movimento de troca de dívida mais cara por mais barata como um motor importante a puxar o negócio. O cenário de crise impôs desafios para todo o setor de crédito, on-line ou não, mas o aumento da restrição da oferta dos bancos e elevação de taxas acabaram atraindo clientes para as fintechs. A consolidação de dívidas, diz ele, foi o carro-chefe a fundamentar os empréstimos. Cerca de 60% dos tomadores recorreram ao empréstimo para refinanciar dívidas mais caras.

A pessoa ia no piloto automático e tomava empréstimo no próprio banco. Com o aumento de taxas e a restrição de crédito pré-aprovado, vimos mais clientes desse tipo virem para a fintech. Isto tem um “efeito boca a boca”, que aumentará um pouco a pequena escala do negócio, pois tomadores que tiveram uma boa experiência com outras fintechs de crédito e perderam o medo de experimentar.

O foco das plataformas digitais é bastante diversificado. Na Noverde, é o cliente da classe C. Os empréstimos têm tíquetes entre R$ 1 mil e R$ 5 mil, com prazos de seis, nove e 12 meses. Os juros variam entre 4,5% e 9,3% ao mês – o que significa algo entre 70% e 180% ao ano. A taxa média é de 100% ao ano.

Também voltada à pessoa física, a Geru se dispõe a emprestar de R$ 2 mil a R$ 35 mil, com prazos de 12 a 36 meses. O foco não é necessariamente o cliente mais abastado, mas aquele que tem histórico de crédito e está buscando operação compatível com a sua renda. O empréstimo típico é de R$ 11 mil, com prazo de dois anos e taxas que variam de 25% a 80% ao ano, dependendo do score de crédito – o perfil – do cliente. As taxas de serviço, cobradas no momento em que o empréstimo é liberado, são de cerca de 5% do valor do empréstimo.

Os executivos reconhecem que taxas máximas de juros de 80% a 100% ao ano não podem ser consideradas baratas, mas estão distantes das taxas de mercado, em média de 137,9% ao ano no crédito pessoal, e de 331%, também ma média anual, no cheque especial.

Com foco nas classes mais altas, o BankFacil oferece crédito com garantia. Se a garantia for um imóvel, explica o presidente, Sergio Furio, a taxa cobrada é de um 1,15% a 1,45% ao mês mais IPCA – o que representa uma taxa anualizada que começa em 21%, considerando uma inflação de 7% no ano. A taxa de serviço adiciona 0,1 ponto ao mês a esse total.

No caso do veículo como garantia, as taxas são fixas e variam de 2% a 3,1% ao mês, mais 0,2 ponto ao mês de taxa de serviço. O volume médio emprestado é de R$ 150 mil no caso do imóvel como garantia e de R$ 17 mil no caso do veículo. “No veículo, o recurso é usado principalmente para matar as dívidas caras”, diz Furio. “O consumidor paga tudo e fica com produto a custo menor.”

No geral, a concessão desse tipo de crédito ocorre sem muita burocracia. O cliente baixa o aplicativo ou entra no site da fintech e em alguns minutos, com base em dados como o seu CPF, já sabe se o crédito foi ou não pré-aprovado. Passada essa etapa, é preciso preencher um cadastro mais longo, além de fornecer dados da conta bancária e uma foto feita pelo celular mesmo. Em no máximo dois dias o crédito é liberado.

É preciso cuidado ao escolher uma fintech de crédito. São pequenas coisas que fazem toda a diferença. Há algo errado com sites que não mostram a taxa efetiva paga pela pessoa ou que não têm certificado de segurança no canto do navegador e CNPJ da empresa.

Todas as fintechs de crédito operam em modelos parecidos de negócio: funcionam como correspondentes bancários que atuam em parceria com uma instituição financeira, conforme exige a lei. No mais comum deles, o tomador emite Cédulas de Crédito Bancário (CCB) tendo o banco como originador do título. As fintechs ficam com a gestão da cobrança dos empréstimos.

O regulador (BCB) tem se mostrado aberto a discutir e entender o fenômeno e tem olhado as novas empresas de tecnologia de forma aberta. Até que uma quebre e leve de rodão recursos de terceiros…

porquinho-da-poupanca

Mas a Autoridade Monetária (BCB) deveria estar preocupado com coisa mais séria e de escala de bilhões que envolve risco sistêmico. Devido à taxa de juros básica (Selic) disparatada, há anos, a caderneta de poupança registrou captação líquida de recursos de R$ 10,668 bilhões em dezembro de 2016, melhor resultado mensal desde o último mês de 2013. No acumulado do ano, no entanto, os saques líquidos somaram R$ 40,701 bilhões, fazendo deste o segundo pior ano da série histórica compilada pelo Banco Central, iniciada em 1995.

Em 2015, as retiradas na poupança haviam superaram os depósitos na caderneta de poupança em R$ 53,567 bilhões, marcando o pior ano da série estatística do BC. No ano anterior, a poupança atraiu R$ 24,034 bilhões, representando a menor captação líquida desde os R$ 14,186 bilhões de 2011.

O resultado de dezembro de 2016 pode ser atribuído ao pagamento da segunda parcela do 13o salário. Em dezembro de 2015, a captação também fora positiva, ficando em R$ 4,789 bilhões. O recorde foi registrado em 2013, com a entrada de R$ 71,047 bilhões em termos líquidos.

Os fatores que explicam os saques acumulados em 2016 são os mesmos do ano anterior, como:

  1. inflação elevada,
  2. aumento do desemprego,
  3. menor crescimento da renda do trabalhador e
  4. maiores gastos com tarifas.

Mesmo após a redução para 13,75% ao ano da taxa Selic, esse patamar ainda tira a atratividade da caderneta de poupança, que perde em termos de rentabilidade para outros investimentos, mesmo considerando a isenção de Imposto de Renda.

A caderneta encerrou o ano com uma rentabilidade líquida de 8,3%, contra uma inflação projetada ao redor de 6,4%.

A captação líquida se soma ao rendimento de R$ 4,063 bilhões. Com isso, o patrimônio total da poupança subiu de R$ 650,260 bilhões em novembro para R$ 664,992 bilhões no mês passado. No ano, o patrimônio subiu R$ 8,4 bilhões, após ter caído R$ 6,137 bilhões em 2015.

Em dezembro de 2016, os bancos que aplicam recursos da caderneta de poupança em crédito imobiliário mostraram uma captação líquida de R$ 9 bilhões (SBPE).

As instituições que destinam os recursos para o crédito rural registraram uma entrada líquida de R$ 1,667 bilhão (SBPR).

Desde o fim de agosto de 2013, a poupança voltou a ser remunerada pela “fórmula antiga” de 0,5% ao mês mais TR. Pela regra atual, se a taxa Selic voltar a ficar abaixo de 8,5% ao ano, o rendimento será equivalente a 70% da taxa básica de juros.

O movimento atual, para captar funding, é os grandes bancos de varejo negociarem entre si CDBs e Letras Financeiras e as encarteirarem em FIFs, i.é, portfólios de fundos de investimentos referenciados a Crédito Privado. Com um mix com títulos de dívida pública, para aumentar a segurança com risco soberano, oferecem aos grandes investidores (exigência mínima de um milhão de reais em volume de negócios) fundos que acompanham o benchmark de 100% da CDI e cobram taxas de administração em torno de 0,25%.

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