Nativos às Margens de um Rio Chamado Atlântico

migracoes-tupinamba-e-guaraniCarlos Fausto, em Os Índios Antes do Brasil (Rio de Janeiro; Zahar; 200?), chega à última etapa desta viagem pré-cabralina. Depois de subir os Andes e descer o Amazonas, alcança as nascentes do Xingu e, de lá, foi ao cerrado. Agora é pegar o caminho do mar e esperar as naus portuguesas.

Antes, porém, é preciso conhecer o litoral, que de norte a sul era habitado por uma população bastante homogênea em termos lingüísticos e culturais. Entra no mundo tupi-guarani, um mundo sobre o qual temos informações históricas e alguns dados arqueológicos sistemáticos.

Quando os portugueses aqui chegaram, encontraram esses índios dispersos ao longo da costa com ramificações profundas pelo o interior, sempre acompanhando o vale dos rios. Eles evitavam as regiões mais áridas, assim como as altas altitudes, onde o clima é mais frio, preferindo as matas pluviais tropicais ou subtropicais. Dominavam a faixa litorânea, com exceção de alguns pontos — como o estuário do Prata, a foz do rio Paraíba, o norte do Espírito Santo, o sul da Bahia e a divisa entre o Ceará e o Maranhão, onde havia intrusões de outros povos, provavelmente macro-jê.

Com base em algumas diferenças em língua e cultura, podemos distinguir dois blocos subdividindo o conjunto tupi-guarani:

  1. ao sul, os Guarani ocupavam as bacias dos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e o litoral, desde a Lagoa dos Patos até Cananéia (SP);
  2. ao norte, os Tupinambá dominavam a costa desde Iguape até, pelo menos, o Ceará, e os vales dos rios que deságuam no mar.

No interior, a fronteira recairia entre os rios Tietê e Paranapanema.

A adaptação ao meio era caracteristicamente amazônica, baseada na agricultura de coivara, na pesca e na caça. Entre os Guarani, o milho parece ter sido o cultivar de base, enquanto os Tupinambá enfatizavam a mandioca amarga para produção de farinha.

Excelentes canoeiros, ambos faziam uso intenso dos recursos fluviais e marítimos.

Explorando ecossistemas ricos e diversificados, esses povos alcançaram um patamar demográfico elevado. Denevan calcula que na faixa litorânea viviam cerca de 1 milhão de Tupinambá (9hab/km2), enquanto Pierre Clastres sugere a presença de 1,5 milhões de Guarani (4hab/km2) na área meridional. Estas estimativas, muitas vezes superiores àquelas admitidas por Steward, devem ser vistas com cautela; faltam-nos trabalhos mais detalhados de demografia histórica, bem como o cotejo sistemático com informações arqueológicas.

A despeito das incertezas, as crônicas da época deixam claro que as populações eram muito maiores do que as hoje encontradas na Amazônia. Os dados sobre:

  1. o número de índios aldeados em missões jesuíticas na Bahia ou no Paraguai;
  2. o número de aldeias existentes em torno da baía de Guanabara ou na ilha do Maranhão;
  3. o número de Guarani escravizados pelos bandeirantes ou de Tupinambá mobilizados em operações de guerra sugerem uma outra escala demográfica, mais próxima das estimativas recentes que daquelas de Steward.

A taxa de depopulação durante os dois primeiros séculos da colonização foi brutal. As guerras, as expedições para captura de escravos e, principalmente, as epidemias e a fome dizimaram os Tupi-Guarani. Em 1562, por exemplo, uma epidemia consumiu, em três meses, cerca de 30 mil índios na Baía de Todos os Santos. No ano seguinte, a varíola completou o serviço, matando de 10 a 12 índios por dia; um terço da população aldeada pelos jesuítas sucumbiu. Em 1564, veio, por fim, a “fome geral”, pois nada se plantara nos anos anteriores. Ao findar a década de 1580, Anchieta constatava: “A gente que de 20 anos a esta parte é gastada nesta Baía, parece cousa, que não se pode crer.”

A mesma história repetiu-se ao longo de toda a costa e nas matas do sul. Em 1594, os oficiais espanhóis escreviam a Sua Majestade, desde Assunção, dando conta de que “los índios [Guarani] que servían a esta ciudad están menoscabados, porque no hay ni la décima parte de los que debería haber, por várias causas y enfermedades, y también por los abusos de los españoles.”

A depopulação no entorno das cidades conduzia a um círculo vicioso: a escassez de mão-de-obra nativa nas redondezas intensificava e interiorizava as expedições de apresamento de escravos — o que, por seu turno, expunha ainda mais as populações indígenas ao morticínio pelas armas e pelas epidemias.

Até recentemente, acreditava-se que os Tupi-Guarani teriam chegado à costa pouco antes da conquista — só uma expansão rápida e recente poderia explicar tanta semelhança cultural e linguística em uma população dispersa em tão amplo território. As datações arqueológicas de cerâmica associada aos Tupi-Guarani, contudo, vieram desmentir essa hipótese. Existem várias delas que remontam ao século X d.C., sendo as mais antigas do século II d.C. Na região guarani, elas se encontram nos rios Uruguai, Ivaí e Paranapanema; na área tupinambá, no baixo rio Tietê e no litoral fluminense.

Ainda que seja necessário ter cuidado ao atribuir uma indústria oleira à presença de uma população cultural e linguisticamente diferenciada, as datações arqueológicas — muitas delas compondo sequências que alcançam os tempos históricos — indicam que os antepassados dos Tupinambá e dos Guarani começaram a ocupar o sul e o sudeste brasileiros muito antes da chegada de Cabral.

Cumpre, assim, formular outra hipótese para explicar a homogeneidade encontrada entre a bacia do Prata e a foz do Amazonas. Talvez a chave dessa questão seja a continuidade da ocupação e a intensidade da interação, embora ainda não se possa descartar que a expansão para nordeste se deu próximo à conquista.

A afirmação tem consequências fortes para a discussão sobre as rotas que os proto-Tupi-Guarani teriam percorrido desde a Amazônia até o Brasil meridional. Hoje há duas hipóteses concorrentes:

  1. a primeira, mais difundida, sugere que eles deixaram seu centro de origem na Amazônia, provavelmente entre as bacias do rio Madeira e Tapajós, atingiram o rio Paraguai e, a partir daí, ocuparam a floresta subtropical e o litoral, de sul para norte;
  2. a segunda hipótese, proposta por José Brochado, com base na análise de formas e estilos cerâmicos e na grotocronologia, inverte o sentido do deslocamento proto-tupinambá: ao invés de rumarem para o sul via Madeira-Guaporé, eles teriam descido o Amazonas até sua foz, expandindo-se, em seguida, pela faixa costeira em sentido oeste-leste, e depois norte-sul, até terem sua expansão barrada pelos Guarani em São Paulo.

Essa “Teoria da Pinça” foi recentemente defendida por Francisco Noelli. Ele não nos oferece, porém, informações arqueológicas decisivas. Continuam faltando dados sobre a costa entre o Amazonas e o Rio Grande do Norte, assim como novas datações no litoral nordestino.

A única novidade é a aceitação de datas muito antigas para a cerâmica atribuída aos proto-Tupinambá no litoral do Rio de Janeiro, o que curiosamente vai de encontro à hipótese que Noelli defende. Caso essas datas sejam confirmadas e se estabeleça inequivocamente o pertencimento dessa cerâmica à subtradição tupinambá, fica difícil crer que tenha havido uma expansão de norte para sul a não ser que recuemos muito a cronologia desse movimento.

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