Migrações e Distribuição das “Nações dos Nativos” sobre o Território

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Carlos Fausto, em Os Índios Antes do Brasil (Rio de Janeiro; Zahar; 200?), diz que, embora o assunto esteja longe de ser resolvido, pelas evidências atuais parece mais plausível que os proto-Tupinambá tenham avançado de sul para norte. O centro de dispersão pode ter sido a bacia do rio Tietê, de onde teriam se irradiado para o litoral, concentrando- se por alguns séculos em uma faixa restrita entre São Paulo e o sul do Espírito Santo, antes de iniciarem a conquista, relativamente rápida, da costa nordeste.

Tal hipótese, em acordo com as datações disponíveis hoje, permite explicar:

  1. a homogeneidade cultural e linguística dos Tupi-Guarani no momento da conquista e
  2. o porquê de os cronistas falarem em uma ocupação recente da costa – as referências são à Bahia, Maranhão e Pará.

Devemos, contudo, “manter as barbas de molho”, à espera de novas evidências arqueológicas.

Independente de como chegaram, o fato é que o litoral era dos Tupinambá e dos Guarani quando o Brasil foi descoberto. Esses dois blocos, contudo, não formavam duas grandes unidades políticas regionais: estavam divididos, nas palavras dos cronistas, em várias “nações”, “castas”, “gerações” ou “parcialidades”, algumas aliadas entre si, outras inimistadas até a morte.

Para os Guarani, entre outras designações, aparecem a de:

  1. Carijó ou Cario em Assunção e na costa atlântica;
  2. Mbyasá no caminho que ligava estas áreas;
  3. Tobatí, Guarambaré e Itatí no Paraná-Paraguai;
  4. Tape nas bacias do Uruguai e médio Paraná; e
  5. Chiriguano na Bolívia.

Para os Tupinambá temos:

  1. Tupiniquim no litoral e planalto paulistas, Espírito Santo e sul da Bahia;
  2. Tupinambá (em sentido restrito) no vale do Paraíba, na costa do norte de São Paulo a Cabo Frio e do Recôncavo baiano à foz do São Francisco;
  3. Caeté, daí até a Paraíba, e Potiguar no Ceará, entre outros termos.

No século XVII, os cronistas falam dos Tupinambá no Maranhão, Pará e ilha de Tupinambarana, afirmando serem migrantes fugindo às conquistas no litoral.

Essa distribuição das “nações” sobre o território não é uma representação acurada da morfologia sociopolítica nativa. Assim como na discussão sobre as províncias da várzea, o problema consiste em saber se, de fato, havia unidades sociais discretas para além da aldeia — e, em caso afirmativo, qual era sua natureza.

As aldeias tupinambá eram compostas por um número variável de malocas, em geral, de 4 a 8, dispostas irregularmente em torno de um pátio central, abrigando uma população de 500 a 2 mil pessoas.

A distância entre os grupos locais variava em função das condições ecológicas e políticas de cada região: havia áreas de grande concentração — como a baía de Guanabara, o Recôncavo baiano, a ilha de São Luís do Maranhão — e outras menos densas. A variabilidade deveria ser a regra, e por isso é perigoso projetar dados de uma região para outra.

Várias aldeias ligadas por laços de consanguinidade e aliança mantinham relações pacíficas entre si, participando de rituais comuns, reunindo-se para expedições guerreiras de grande porte, auxiliando-se na defesa do território. As aldeias aliadas formavam núcleos de interação mais densa, nexos políticos, no interior desses conjuntos maiores, designados na literatura como Tupiniquim, Tupinambá, Temomino e assim por diante.

A realidade desses macroblocos populacionais, contudo, é incerta. Não sabemos como se distinguiam uns dos outros, nem como mantinham uma identidade comum. Qual era, por exemplo, a ligação com um determinado território? Qual era a relação entre os Tupinambá do Rio de Janeiro e da Bahia, ou entre os Tupiniquim de São Paulo e do Espírito Santo?

As informações dos cronistas não nos permitem esclarecer estas questões:

  • primeiro, porque muitas vezes são inconsistentes;
  • segundo, porque muitas das designações empregadas não eram autodenominações – Caeté, por exemplo, quer dizer “mata de verdade”, e Tobajara, “os do outro lado”;
  • por fim, há poucos dados sobre diferenças Inter étnicas, sinais diacríticos de identidade e distinções dialetais, pois os cronistas preferiram enfatizar a unidade de costume e língua.

Sabe-se, no entanto, que essas denominações não designavam províncias políticas verticalmente organizadas. As fronteiras eram fluidas, fruto de um processo histórico em andamento, no qual se definiam e redefiniam as alianças.

Aldeias aliadas formavam conjuntos multicomunitários, como nós de uma rede sem centro: não existia um núcleo regional, político-cerimonial, onde residisse um chefe ou sacerdote supremo. Os grandes xamãs tupi-guarani, conhecidos como karaí ou karaíba, não exerciam uma força centrípeta — eram eles que circulavam pela terra, de aldeia em aldeia, profetizando e curando.

Tampouco havia chefes com poder supralocal. A estrutura da chefia era tão difusa e fragmentária quanto a das unidades sociais. Havia aldeias com um só chefe e outras em que cada maloca tinha um “principal”; um deles poderia ganhar prestígio e se fazer ouvir mais que os outros. Em tempos de paz, porém, eram equipotentes, e as decisões políticas eram tomadas coletivamente pelos homens adultos.

É possível que, entre os Guarani, a situação fosse algo diferente; alguns cronistas espanhóis os descreveram como divididos em províncias submetidas a um cacique principal e denominaram agregados de aldeias como cacicazgos. Contudo, a impressão de Carlos Fausto, a despeito da possibilidade de maior territorialização e centralização político-religiosa na área guarani, é de que a gente de Castela tinha mania de províncias e cacicados, projetando reinos por onde quer que andasse.

Não havia regra mecânica de sucessão. Embora filhos de chefe tivessem maiores chances de se tornarem principais, o acesso à liderança e seu exercício dependiam do longo processo de constituição das unidades domésticas, das estratégias matrimoniais e seu exercício dependiam do longo processo de constituição das unidades domésticas, das estratégias matrimoniais e das virtudes pessoais do indivíduo.

O status era conquistado, e não atribuído. Era preciso ser capaz de articular uma parentela forte, ser temido e respeitado como guerreiro e ser, como os grandes xamãs, um orador eficaz. Alguns principais tinham fama e renome que ultrapassavam os limites de sua aldeia. Estes exerciam grande liderança em operações bélicas, articulando vários grupos locais.

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