Antropofagia dos Nativos

antropofagia

Para se ter uma ideia do contingente numérico que podia ser mobilizado, há relatos de combates armados no litoral envolvendo mais de mil guerreiros de cada lado. Jean de Léry, por exemplo, narra um confronto nas praias cariocas, entre os Maracajá e os Tupinambá, no qual só estes últimos somariam 4 mil homens.

São comuns as referências a flotilhas de guerra com 50 a 200 canoas, cada qual transportando de 20 a 25 pessoas. Ainda que a aritmética de “golpe de vista” dos conquistadores fosse muito imprecisa, é certo que havia ações bélicas em larga escala.

A organização e os objetivos, porém, não eram de um exército comum. Os cronistas afirmam que o alvo imediato da guerra não era nem a conquista de território, nem o butim. Não esqueçamos, porém, que os Tupi-Guarani provavelmente expulsaram, incorporaram ou mataram os grupos que habitavam previamente o litoral e que, portanto, a expansão envolveu, sim, conquista bélica.

Seja como for, o motor explícito da guerra era a vingança e seu objetivo, a captura de prisioneiros — cujo destino era não a escravidão, mas a morte e a devoração em praça pública.

A execução ritual podia tardar vários meses. Nesse intervalo, o cativo vivia na casa de seu captor, que lhe cedia irmã ou filha como esposa; sua condição só se alterava às vésperas da execução, quando era reinimizado e submetido a um rito de captura. Por fim, era morto e devorado.

A execução era um momento privilegiado de articulação das aldeias em nexos sociais maiores e estava ligada a concepções sobre o prestígio, a reprodução humana e o destino póstumo.

Todos os cronistas chamam atenção para a centralidade da guerra e da antropofagia ritual entre os Tupinambá. Muitos deles ressaltam a ambivalência dos índios com a transformação dos cativos em bens alienáveis no comércio de escravos europeu.

A guerra e o ritual canibal eram dispositivos cruciais na articulação dos conjuntos multicomunitários tupinambá, ocupando uma posição que, em outros sistemas nativos, caberia à circulação de bens de prestígio e utilidades.

Não há evidências de que as aldeias tupinambá fizessem parte de extensas redes de troca, como ocorria na Amazônia setentrional. Apesar da riqueza de informações históricas, há apenas algumas referências sobre um escambo silencioso com povos do sertão, envolvendo as famosas pedras verdes (para confecção de tembetás) e penas (para confecção de adornos).

Inexistiam mecanismos políticos de acomodação, como os descritos para o Alto Xingu e o Alto Rio Negro, capazes de articular povos de diferentes línguas e culturas em um mesmo sistema de interdependência regional.

Tampouco havia formas verticais de integração política, apesar de a escala demográfica dos conjuntos multicomunitários ser provavelmente superior a 10 mil pessoas. O que sobressai e merece explicação no caso tupi-guarani é a enorme fragmentação em uma população tão homogênea.

A guerra não conduzia à subjugação, à escravização ou à extração de tributos por uma elite cada vez mais poderosa, que erguia monumentos consagrando seu próprio poder. Ao contrário, produzia um movimento centrífugo, voltado literalmente para o consumo de inimigos — não de sua força de trabalho, mas de suas capacidades subjetivas —, sendo que tudo que deles restava eram bens imateriais: nomes, cantos e memória.

Os Tupinambá colocam, enfim, novas dificuldades para os modelos gerais de evolução sociopolítica. Há uma continuidade notável entre os Tupi do passado e os do presente, ainda que estes últimos representem apenas uma fração daqueles. É como tivéssemos uma estrutura fractal a replicar sempre a mesma forma em diferentes escalas.

O que teria faltado, então, aos Tupinambá para se erguerem além do “nível tribal”, com tal contingente demográfico e explorando ecossistemas tão ricos?

  • para uns, faltou-lhes tempo;
  • para outros, sobrou-lhes espaço: uma maior densidade populacional e circunscrição ecológica teriam posto a evolução em movimento;
  • para outros, ainda, eles nutririam um horror ao Estado — horror que seria materializado na figura dos grandes xamãs, os karaíba, que lideraram movimentos proféticos.

Mas não se pode dizer o que teria ocorrido não fosse a conquista cabralina. De todo modo, o surgimento de centralização política e integração regional verticalizada exigiria uma mudança substantiva de concepções, práticas e estruturas entre os Tupinambá e os Guarani do século XVI. Mudanças radicais, contudo, acontecem.

Por isso, Carlos Fausto, no fim do livro “Os Índios antes do Brasil”, limita-se a um conselho final: “se até aqui você não foi devorado, nem perdeu a cabeça, aproveite e descanse à beira-mar. A praia é boa e o verão promete. Dois meses depois do carnaval, tudo vai mudar. Aí vem Cabral inventar o Brasil”.

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Cronologia Pré-Cabalina

Carlos Fausto, no livro “Os Índios antes do Brasil”, dá referências cronológicas aproximadas da história da América do Sul pré-cabalina, baseadas em escavações e datações arqueológicas:

9000-8500 a.C. Mais antigas evidências de ocupação humana da Amazônia, na região de Santarém

5000 a.C. Mais antiga cerâmica do continente, encontrada na mesma região

4000-3500 a.C. Complexos cerâmicos aparecem na costa do Equador e norte da Colômbia

1500-1000 a.C. Primeiro complexo cerâmico de Marajó, conhecido como fase Ananatuba

500 a.C. Surge a primeira tradição cerâmica do Brasil central, conhecida como Una

100-500 d.C. Cerâmica associada aos povos tupi-guarani aparece no sul do Brasil

300-400 d.C. Os aterros na ilha de Marajó começam a ser erguidos; cerâmica policrômica mais antiga da Amazônia ocorre na mesma região

800 d.C. Aldeias circulares começam a dominar a paisagem do Brasil central

900 d.C. Surgem aldeias circulares na região dos formadores do rio Xingu

1300-1400 d.C. A sociedade dos aterros marajoara desaparece

1400-1500 d.C. Grandes aldeias fortificadas são construídas no Alto Xingu

1438 d.C. Início da expansão do Império Inca (segundo a história oral)

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Datas históricas

1492 Cristóvão Colombo chega às Antilhas. Primeiro contato com os Taino

1500 Pedro Álvares Cabral chega ao litoral da Bahia. Primeiro contato com os Tupinambá

1519 Hernán Cortés inicia a conquista do México e do Império Asteca

1529 Após a morte de Huayna Capac inicia-se a guerra civil e o Império Inca começa a ruir

1532 Início da conquista do Peru. Francisco Pizarro aprisiona Atahualpa em Cajamarca

1541-1542 Pela primeira vez uma expedição européia desce o Amazonas, desde o rio Napo até a foz. A jornada é descrita por frei Gaspar de Carvajal

1549 Chegam ao Brasil os primeiros jesuítas, com a comitiva do primeiro governador geral, Tomé de Souza

1560-1561 Nova expedição desce o Amazonas, sob o comando de Pedro de Ursua

1563 Epidemia de varíola assola a Bahia

1616 Após expulsarem os franceses do Maranhão, os portugueses fundam Belém do Pará e iniciam a conquista da Amazônia

1621 Irrompe em São Luís e atinge o Pará a primeira epidemia de varíola de que se tem notícia na Amazônia oriental.

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