Os Sertões de Euclides da Cunha

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Walnice Nogueira Galvão, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro clássico da historiografia brasileira Os Sertões de autoria Euclides da Cunha.

Após a Proclamação da República pela casta dos guerreiros-militares, em 1889, um ano após a extinção da escravidão na última grande Nação ocidental independente a explorá-la, houve a eclosão por todo o território nacional de insurreições mais ou menos profunda e duradouras, ou apenas pequenos levantes locais. A Guerra dos Canudos, desencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897, não é mais do que uma dessas revoltas que supostamente resistiam à mudança de regime governamental. Os Sertões, cujo autor testemunhou de corpo presente essa Guerra, tornou-se a obra clássica na literatura brasileira a respeito dela.

Euclides da Cunha pertencia à casta dos guerreiros, pois teve formação na Escola Militar. Antes da chegada da corte portuguesa à sua colônia nas Américas e criação dessa Escola, o oficialato era obrigatoriamente formado no exterior, sobretudo em Portugal. Historicamente, tal como ocorreu nos Estados Unidos, o objetivo da Escola Militar era qualificar o oficialato e os preparar como engenheiros para os serviços públicos civis, como a construção de estradas, portos e pontes.

Na verdade, foi um modelo instaurado pela Revolução Francesa. A França espalhou, mundialmente, sua tradição de formar quadros técnicos capacitados por altos estudos como alternativa ao recrutamento de quadros dirigentes apenas na casta dos aristocratas governantes e proprietários fundiários. O caráter inovador da Escola Militar, valorizando as ciências e a tecnologia, em detrimento do prestígio na época conferido aos estudos clássicos ou retórica, vai gerar entre os alunos um comportamento vanguardista e uma atitude contestatária. Instiga à consciência da cidadania e à militância política inclusive entre os colonizados culturalmente.

Quando Euclides da Cunha ingressa na Escola Militar, em 1885, quatro anos antes de se conseguir a vitória, seus colegas estudantes já estavam empenhados na meta de implantação do Regime Republicano e abolição da escravatura no País.

Ele viria participar da Guerra dos Canudos como enviado do jornal A Província (hoje O Estado de São Paulo). De lá remeteu uma série de reportagens que só apareceria em forma de livro postumamente, em 1939, com o título de Canudos – Diário de uma Expedição. Foi o embrião de Os Sertões.

Pela primeira vez no País foi feita uma cobertura midiática dos acontecimentos locais em escala mais nacional. Mas os jornalões brasileiros já estampavam invencionices, pareceres dogmáticos de militares de partido previamente tomado, tudo com o objetivo comum de reforçar a ideia de uma iminente restauração monárquica. Aliás, nada muito diferente ocorreu por parte do PIG (Partido da Imprensa Golpista) no recente golpe parlamentarista em um regime presidencialista no Brasil: atuou na manipulação da “opinião pública” de uma massa ignara…

Aquele primeiro evento midiático foi viabilizado pela então recente instalação de redes de telégrafo cobrindo o sertão, pelas quais transitavam as notícias. Os correspondentes eram, em geral, militares, alguns deles mesmo combatentes.

Entre diversos livros publicados a respeito da Guerra de Canudos, que provocou uma comoção mobilizadora da opinião pública, apenas o de Euclides Cunha, lançado em 1902, tornou-se um clássico da literatura brasileira, lido por gerações sucessivas.

Em geral, por toda a América Latina, a história das insurreições populares foi escrita por militares representantes da casta dos guerreiros. O projeto modernizador, que prejudicava as populações rurais pobres pela cobrança de tributos, foi em toda a parte imposto à força pelo Exército. Os militares foram, ao mesmo tempo, os algozes e as testemunhas que legaram seu depoimento à posteridade.

2 thoughts on “Os Sertões de Euclides da Cunha

  1. Boa tarde, Prof. Fernando. Há tempos sigo a sua página. Gosto dos artigos e das críticas. Atualmente, faço um trabalho sobre a guerra de Canudos, com o livro Os sertões. Caso tenha mais textos sobre o assunto, gostaria de ter acesso. Obrigada.

    1. Prezada Ângela,
      eu não fiz pesquisa primária sobre o assunto. Apenas iniciei uma série de posts em que resenharei as clássicas Interpretações do Brasil a partir de resumo de resenhas.

      Meu objetivo é fazer um apanhado das principais teses sobre a História do Brasil. Viso, a partir delas, orientar meu curso sobre Cidadania e Cultura Brasileira, ilustrado por filmes nacionais, cujo debates serão sobre essa literatura clássica de autores que merecem a leitura da nova geração de universitários.
      att.

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