Mestiçagem

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Prossigo com o resumo da resenha sobre o livro clássico da historiografia brasileira Os Sertões de autoria Euclides da Cunha, realizada pela Walnice Nogueira Galvão, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999). Neste post enfoco a questão mais complexa no estudo do Homem brasileiro: a mestiçagem. Leia: Manifesto da Tropicalização Antropofágica Miscigenada.

A dificuldade que se colocaram os intérpretes do Brasil foi avaliar as respectivas contribuições de índios, brancos e negros na construção da Nação brasileira. A miscigenação não é uniforme e gera os três tipos de combinação em:

  1. o mulato (branco com negro),
  2. o mameluco ou curiboca (branco com índio),
  3. o cafuz (negro com índio).

Todos eles tenderiam, através de sucessivos cruzamentos, para o pardo, que seria o brasileiro. E não é possível enfrentar a questão sem antes analisar o histórico das várias correntes de povoamento.

Preocupado com a influência do clima e das coordenadas geográficas sobre o Homem, Euclides da Cunha compara diferentes regiões do País na variabilidade de seus condicionantes mesológicos:

  • o cerrado do Centro-Oeste versus a floresta amazônica do Norte,
  • a caatinga dos sertões do Nordeste versus a Mata Atlântica do Sudeste e os pampas gaúcho.

Este determinismo do habitat teria tido seu peso no povoamento inicial do País, concedendo ao bandeirante paulista, já cruzado com o índio, um tipo etnológico estabilizado. Beneficiado desde logo por um clima mais ameno e de menores contrastes, esse paulista se tornou um dominador da terra, autônomo e livre, tendo papel-chave no desbravamento do Brasil.

Se não se pode propriamente falar em raças humanas, já que os descendentes do Homo Sapiens eliminaram as demais raças, muito menos se deve falar em “raça brasileira”, nem mesmo sob a caracterização de um tipo antropológico brasileiro. No entanto, alguns racistas apelam para classificar como uma sub-raça resultantes de tantos caldeamentos e condicionantes mesológicos divergentes.

Destacam duas categorias de mestiçagem no Nordeste, conforme se tratasse do litoral ou do sertão.

  1. No primeiro, onde o africano era comprado como escravo para os canaviais e engenhos, o povoamento tendeu a assentar-se com o tipo predominante a ser o mulato.
  2. No segundo, avesso à sedentarização, os bandeirantes paulistas e os índios acabaram por produzir como tipo predominante o curiboca.

A população do sertão, após três séculos de isolamento, se mostraria regressiva por não ter recebido influências posteriores. Dedicando-se coletivamente ao trabalho nômade do regime pastoril, manifesta os traços psicológicos da índole aventureira dos bandeirantes e da impulsividade indígena. Atento ao tipo físico, ou fenótipo, Euclides da Cunha encontra nele uma subcategoria étnica já constituída: não só forte e corajoso, mas por ter parado no tempo, igualmente atrasado e supersticioso.

Tal como o sertanejo, sua religiosidade é mestiça, porque absorve elementos das crenças dos índios, dos portugueses e dos africanos, entre elas as superstições de toda ordem e o messianismo. Este é visto tanto como a esperança na intervenção de pessoas ou circunstâncias providenciais, por exemplo, um movimento ideológico, capazes de instaurar ou reinstaurar um novo tempo de felicidade e justiça para um povo ou grupo oprimido, quanto como um sentimento mórbido de encarnar um messias.

Comprovam-no o fato de já terem havido na região do sertão, há tempos, vários outros surtos de insurreições marcadas pela religião. Com ela se misturou, igualmente, o banditismo endêmico.

Todas essas características da formação e do caráter do sertanejo viriam encarnar na pessoa de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Peregrino. Este constituiu uma síntese do processo histórico em que as correntes de povoamento resultaram nos eixos socioculturais e psíquicos resultantes da miscigenação no isolamento do sertão.

O diagnóstico de Antônio Conselheiro é contraditório entre decretá-lo não desequilibrado e considera-lo um “doente grave”, afetado de paranoia. “Determinado pelas variáveis raciais que entraram em sua constituição, sob o influxo das condições do meio foi regredindo até tornar-se um heresiarca, a exemplo daqueles do cristianismo primitivo”.

Envolvido nas lutas das famílias entre os Maciéis e os Araújos, além de sofrer as atrocidades das quais seu clã foi vítima, viveu infelicidades pessoais que o levaram à loucura. Ressurge sob a autodenominação de O Peregrino, pois se enterrou por trinta anos em peregrinação pelos sertões como penitência auto imposta por pecados auto atribuídos, “condensando o obscurantismo de três raças”.

Líder místico, Antônio Conselheiro, acompanhado de seus sequazes, vagueava pelo sertão. Seu séquito estava sempre a aumentar durante todos esses trinta anos, quando fazia sermão diante das igrejas que construía ou reconstruia, assim como cemitérios e açudes nas vilas e aldeias. Até que a Igreja mandou uma missão investigar esse concorrente no arraial de Canudos, onde os conselheiristas se tinham finalmente refugiado.

Dois capuchinhos chegaram a Canudos para executar sessões de reavivamento, como era comum em todo o sertão. Pregaram no recinto sagrado para uma multidão hostil e ostensivamente armada. Denunciaram os perigos a que estavam expostos os pecadores ali reunidos ao obedecerem mais a Antônio Conselheiro do que a Santa Madre Igreja. Ordenaram que os presentes se desarmassem e abandonassem o arraial e seu líder, voltando aos lares distantes.

Pragmática e oportunisticamente, interpelaram o Conselheiro quanto a seu dissídio com a República recém proclamada, exortando-o a aceitar a nova forma de governo. Como resultado, tiveram que sair dali fugidos, amedrontados pela reação violenta que os ameaçou. De volta, fizeram seu relatório em virtude do qual a Igreja reivindicou o desmantelamento de Canudos.

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