“O sertanejo é antes de tudo um forte”

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O sertanejo não é um degenerado como as teorias “científicas” da época o classificam sob o argumento que toda mistura entre a raça branca superior e as outras raças, que só podem lhe ser inferiores (de acordo com o ponto de vista dos racistas defensores da “supremacia branca”), provocaria a degenerescência do componente superior. Walnice Nogueira Galvão, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenhando o clássico da historiografia brasileira Os Sertões, destaca o estudo do autor,  Euclides da Cunha, dos trezentos anos de miscigenação que teriam resultado em uma “subcategoria étnica já constituída”.

Cunha escreve um verdadeiro libelo contra o mestiço. Este é tratado como desequilibrado e comparado ao histérico, acusado de hibridez moral, chamado de dispersivo e dissolvente, além de oscilar entre influxos opostos de legados discordes. A mestiçagem é enfaticamente qualificada como perniciosa.

O índio é declarado incapaz de compreender as mais simples concepções de um estado mental superior. O negro não consegue alçar-se ao nível intelectual médio do indo-europeu.

Entretanto, o sertanejo, como o prova sua conduta na Guerra dos Canudos, não deu provas de inferioridade nem de degeneração, bem ao contrário. Isso causou uma reviravolta nas convicções daquele típico representante da casta dos guerreiros por sua formação na Escola Militar. Choca com os saberes de seu tempo o que ele observou como testemunho ocular dessa história. A insurreição passa a ser vista como um vã tentativa de regressão ao passado e Antônio Conselheiro como um herético demente do cristianismo primitivo.

Euclides da Cunha vacila entre sua consciência e as teorias racistas de sua época. A acomodação da sua conclusão é que o brasileiro do sertão seria o primeiro produto da miscigenação dos bandeirantes brancos com os índios durante três séculos de isolamento. Essa mistura, onde só entrariam as melhores qualidades das duas raças, e que, de acordo com a tradição nacional, sequestra o negro, que produziu o sertanejo.

Esse primeiro e notável resultado – “o sertanejo é antes de tudo um forte” – seria a raça brasileira propriamente dita ou, pelo menos, uma subcategoria étnica. Daí o drama intelectual do autor, dilacerado entre:

  1. a sua vontade de resgatar a memória dos canudenses e
  2. o saber de sua época que lhe cobrava o contrário.

A exaltação do branco como raça superior era corrente nas teorias do imperialismo europeu nas últimas décadas do século XIX, teorias produzidas, evidentemente, pelos próprios europeus. Dado o colonialismo cultural, aliás, até hoje sobreviventes nestas plagas, o racismo era aceito e aprovado precisamente por aqueles que ele discrimina: os habitantes das ex-colônias europeias.

A preferência pelo índio não é novidade nem estreia em Os Sertões. Ela é historicamente datada e assume no imaginário das elites coloniais uma função deflagrada pelos movimentos de independência na América Latina. Reivindicar ancestrais indígenas significava opor-se ao seu colonizador europeu dominante.

Na época da Independência era frequente verem-se brasileiros renegar seu nome português e adotar um nome indígena. Essa reivindicação ab origene se soma àquela que o autoctonismo do índio, ponto de vista igualmente defendido em Os Sertões. Constituiu uma primeira manifestação de nacionalismo ou nativismo.

No plano literário, encontra-se o correlato dessa postura na corrente indianista do Romantismo que tem um suporte no ideário da conjuntura histórica. No Romantismo nativo, o índio assume o papel que tem na literatura europeia o cavaleiro andante, o ancestral medieval, carregado de valores nobres.

Essa personagem aparece assim como uma reação de membros da casta aristocrática proprietária fundiária contra o mercantilismo e o materialismo burguês trazido pela revolução industrial. A autoafirmação de uma literatura brasileira independente da portuguesa passa pelas obras indianistas de dois autores novecentistas, José de Alencar e Gonçalves Dias. Por nacionalismo e romantismo, o índio imaginário, que nada tem a ver com os índios reais, veio a tornar-se o emblema da “brasilidade”.

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