Guerra dos Canudos

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A mistura de fé com boas obras provocou conflitos com a política e a igreja, segundo Walnice Nogueira Galvão, em sua resenha de Os Sertões, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999).

Antônio Conselheiro era católico e beato –   aquele que recebeu beatificação da Igreja católica, que se encontra em estado de bem-aventurança celestial, bem-aventurado, que se dedica, com assiduidade, a práticas religiosas e manifesta intensa dedicação e sentimento religioso, devoto, santeiro, que vai frequentemente à igreja e geralmente exagera nas manifestações de fé e no sentimento religioso, “barata de igreja”, carola, papa-hóstias, pessoa fanática que proclama pelos sertões passagens da Bíblia, fazendo profecias, e que sobrevive da benevolência alheia. Ah, e faz votos de castidade, daí… fica assim.

Ele não tinha sido ordenado sacerdote, obtinha ou não a tolerância dos vigários locais, conforme o caso. Por não ser padre, ele pregava somente no adro das igrejas e não no altar ou púlpito. Ele se abstinha de administrar os sacramentos, nichos de mercado da igreja. Ele peregrinava acompanhado por um séquito que o acolitava nas orações.

Ora, o advento da República acarreta alterações que perturbam o ânimo dos peregrinos. Em vez de mudar, pragmaticamente, como fez a Igreja católica,  a louvação do regime vigente monarquista para a do republicano, reagiram mal às medidas deste. De um lado, foram decretados novos impostos que gravavam também a população pobre do sertão. De outro, instalou-se um Estado dito laico com a separação entre Estado e Igreja, a liberdade de culto e a instituição do casamento civil pela Assembleia Constituinte de 1890. Atingiram nichos de mercado do sacramento católico.

Para se voltar à vida contemplativa, os peregrinos acabam por se instalar, por volta de 1893, em uma fazenda de criação extensiva de gado abandonada pelo bandeirante Garcia d’Ávila no sertão da Bahia, isto é, em um “fim-do-mundo”, desde os primórdios da colônia. Sobre as ruínas os peregrinos edificam seus barracos de pau-a-pique e um templo que mantém o nome da antiga fazenda: Arraial de Canudos.

Como não há madeira na caatinga, o povo de Canudos tinha comprado e pago antecipadamente na cidade de Juazeiro um lote de peças necessárias para as obras da Igreja Nova. Não tendo sido entregue a encomenda, apesar de paga, foram busca-la, pessoalmente, organizados em uma procissão, cantando hinos religiosos. Mas a casta dos comerciantes invocou a proteção da casta dos governantes, no caso, autoridades locais que, por sua vez, convocaram para recebe-los a casta dos guerreiros, ou seja, tropas estaduais.

Emboscados, os canudenses, não protegidos pela casta dos sacerdotes-católicos, foram dizimados. Ainda assim, sem saber avaliar a quantidade de recursos que o adversário dispunha, as tropas amedrontadas pelo fanatismo religioso bateram em retirada. Esta foi a primeira expedição contra Canudos em 1896.

A segunda expedição contra Canudos, em janeiro de 1897, com tropas estaduais baianas mais numerosas e bem armadas, sob o comando de uma patente mais alta, resulta igualmente em derrota nos arredores de Canudos.

A terceira expedição ganha o comando de uma patente ainda mais superior, o coronel conhecido como “Corta-cabeças” por sua reputação na campanha contra a Revolução Federalista no sul do País. Após duas derrotas, a ameaça de Canudos passa a ser considerada de alçada nacional. Forças federais vindas de todo o País, armamento moderno, incluindo canhões, e uma ampla campanha midiática para alarmar a opinião pública, exaltando os ânimos e despertando a demagogia patriótica, são as justificativas para enfrentar aqueles incidentes do sertão como fossem uma tentativa de restauração monárquica!

Porém, essa terceira expedição sofre pesadas perdas, inclusive a de seu comandante, batendo em retirada, debandando às pressas. Para facilitar a fuga, joga fora as armas e munições que serão coletadas e entesouradas pelos canudenses – e até peças de farda. “Para não bater-as-botas”, os escravos libertos, membros das tropas, acostumados a correrem descalços, abandonam as botas

Com a notícia da derrota, o furor da multidão no Rio de Janeiro se desencadeou sobre os poucos jornais monarquistas sobreviventes: quatro deles foram empastelados e o dono de um deles foi linchado. A caça às bruxas é o estratagema usado, secularmente, para aplacar a fúria da massa ignara. No caso, prometeu-se o aniquilamento dessa “ameaça nacional contra a República”.

Os estudantes, candidatos à casta de sábios, assinaram uma petição exigindo a liquidação dos sequazes do “degenerado”. Os deputados e os senadores demagógicos se aliaram contra eles, inclusive o campeão do liberalismo, o jurista Rui Barbosa, chamou os canudenses de “horda de mentecaptos e galés”, dizendo como é praxe na retórica parlamentar que eles não passavam de “um caso de polícia”, a qual deveria bastar para eliminá-los como sempre faz contra párias.

Os jornais trataram a derrota local como uma calamidade nacional, multiplicando notícias falsas até de focos conspiratórios internacionais contra a jovem República brasileira. Euclides da Cunha, nomeado adido do ministro da Guerra, não ousa expressar opinião diferente das demais.

Transformada em uma (falsa) prioridade nacional, para uma quarta expedição contra Canudos, as tropas são mobilizadas em todo o País, desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul. Põe-se em marcha em junho de 1897 para assediar o arraial, o qual é cercado totalmente para impedir socorros ou reforços, mas sobretudo para tolher o abastecimento de água, escassa na caatinga seca.

Os canudenses dispunham do mais moderno armamento da época, abandonado pela terceira expedição em debandada, especialmente os rifles de repetição Mannlicher austríacos, metamorfoseada na fala sertaneja em manulixe ou manulicha, e os Comblains belgas, igualmente nomeados como comblés ou combléas.

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Com o esgotamento da resistência, Antônio Beatinho, membro da guarda pessoal de Antônio Conselheiro, negocia uma rendição, entregando-se cerca de trezentas mulheres, reduzidas pela fome à condição de esqueletos, acompanhadas pelas crianças e alguns velhos, ou seja, um peso morto que alivia a resistência. Após um bombardeio intenso de vários dias e lançamento de bastões de dinamites sobre gasolina espalhada sobre as casas ainda habitadas, o arraial é incendiado sem se render em 5 de outubro de 1897, salvando-se apenas quatro sobreviventes, entre os quais um velho e um menino.

O recenseamento oficial do Exército computou 5.200 casas, cuja média de cinco pessoas por casas, daria uma população de 26.000 pessoas, ou seja, seria a segunda maior cidade do Estado da Bahia na época. São Paulo, por exemplo, tinha 200 mil habitantes no final do século XIX. Foi um genocídio!

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A cabeça do cadáver de Antônio Conselheiro, morto dias antes do final, foi cortada e levada para a Faculdade de Medicina da Bahia para ser autopsiada com a intenção de descobrir-se a origem mental de seus descaminhos. Mesmo com a dissecação do cérebro e a análise comparativa das dimensões do seu crânio, os resultados não foram conclusivos para o avanço da ciência racista…

Após a Guerra dos Canudos, que se revelou ingloriamente como uma chacina de pobres-diabos, ficou evidente que não houvera conspiração alguma como a imprensa brasileira tinha alardeado. Este bando de sertanejos miseráveis não tinha qualquer ligação com os monarquistas instituídosgente branca, urbana e da casta dos aristocratas proprietários fundiários que tinha horror a “jagunços” e “fanáticos” pobres como aqueles rebeldes eram tratados. Eles não tinham qualquer apoio logístico, seja no país, seja no exterior.

Verificou-se então uma notável reviravolta da opinião públicaalgo assim como haverá em relação ao apoio do golpe contra a Presidenta Dilma –, virando para o lado oposto. Os estudantes se manifestam de novo, mas desta vez para protestar contra o massacre dos pobres-coitados. Rui Barbosa promete obter um habeas-corpus para eles… depois de mortos! Quanto ao noticiário jornalístico tendencioso e falsificado, os jornalistas cinicamente dizem que nada tem a ver com aquilo. O mea culpa culmina com o livro Os Sertões de Euclides da Cunha, que procura reabilitar os injustiçados e resgatá-los para a história.

A conduta do exército foi criticada na surdina, destacando a prática, denominada pelo eufemismo “gravata vermelha”, dos comandantes e comandados de degolar em público os prisioneiros amarrados. Em consequência, a reputação da casta dos guerreiros foi poluída. Ela se vangloriava de forçar a extinção da escravidão e substituir a Monarquia pela República, fornecendo os dois primeiros presidentes-ditadores. Após a revelação de suas atrocidades, inclusive a venda de crianças sobreviventes, sua imagem pública nunca foi reparada tal como era após a vitória na Guerra do Paraguai.

A Guerra dos Canudos completa o processo de consolidação do Regime Republicano, exorcizando o espectro de uma eventual restauração monárquica. Para tanto, a opinião pública foi manipulada e os canudenses serviram de bode-expiatório. Apresentados como o inimigo interno comum a todos os brasileiros, enfrentado coletivamente, permitiu forjar à força a união nacional. Servir de massa-de-manobra é o papel de suposto inocente útil, exercido por incautos ao longo da história brasileira.

Por fim, o determinismo, o cientificismo, o evolucionismo, a noção da linearidade do progresso tido como inelutável, as preocupações ligadas aos fatores hereditários, todos esses preconceitos têm voz ativa na narrativa de Euclides da Cunha em Os Sertões. Sua intertextualidade possui um caráter enciclopédico, envolvendo geologia, meteorologia, botânica, zoologia, física, química, no capítulo inicial (“A Terra”), e etnologia, história da colonização, folclore, psiquiatria, neurologia, e sociologia, no capítulo sobre “O Homem”.

Entre a polifonia e a intertextualidade, a dificuldade de lidar com tal avalanche de saberes, sejam opostos, sejam complementares, é evidente. Paráfrases discordantes se sucedem. Sem possibilidade de uma síntese ou sequer sínteses parciais, só apresenta antíteses no encadeamento de paráfrases contraditórias.

Walnice Nogueira Galvão, em sua esplêndida resenha de Os Sertões, conclui que, de um lado, o livro imita a narrativa bíblica, que começa pelo Gênese e termina pelo Apocalipse ou aniquilamento pelo fogo, tal como as profecias bíblicas. De outro lado, revela que ocorreu o contrário de o que os canudenses, milenaristas e messianistas, esperavam: não o Juízo Final, anunciado pelo fim do século, quando salvariam suas almas por uma vida dedicada à oração, mas sim uma inversão demoníaca das imagens bíblicas que presidem o mito salvacionista.

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