Inflação: Inércia do Passado, Expectativa do Futuro… e a Grande Depressão do Presente?

inflacao-em-2016

Arícia Martins (Valor, 19/01/17) informa que as expectativas inflacionárias e a inércia explicaram a maior parte da alta de 6,29% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2016, segundo estudo da MCM Consultores. Nos cálculos da consultoria, que usa metodologia diferente da do Banco Central para decompor a inflação de cada ano, as estimativas para 12 meses à frente e a influência da variação passada do IPCA sobre os preços correntes responderam por quase 87% do avanço do indicador do IBGE em 2016.

Apresentada normalmente pelo Banco Central no Relatório de Inflação do primeiro trimestre, que será divulgado no fim de março, a decomposição do aumento anual do IPCA analisa o peso de seis componentes na dinâmica de preços:

  1. inflação de preços livres,
  2. inflação de preços administrados,
  3. choques de oferta,
  4. repasse cambial,
  5. inércia e
  6. expectativas.

A MCM faz uso dessa mesma classificação, mas, ao contrário da autoridade monetária, que inclui em seu modelo somente a parcela de variação do IPCA que excede o centro da meta, de 4,5%, para calcular tanto a influência da inércia quanto das expectativas nos preços correntes, a consultoria avalia que usar os índices “cheios” é o critério mais correto.

“O conceito utilizado pelo BC, de contabilizar a inércia somente da inflação excedente em relação à meta, é útil quando se analisam os determinantes do descumprimento da meta em um certo ano. Todavia, para analisar a herança de toda a inflação passada (não apenas da parcela que excedeu a meta) para a inflação presente, precisamos decompor a inflação total“, explica a equipe econômica da MCM no estudo.

O mesmo raciocínio vale para as expectativas de inflação. “Para analisar o comportamento da inflação cheia, o procedimento recomendável, também nesse caso, a nosso ver, consiste em não descontar a meta de inflação da série de expectativas.”

Feitas essas duas adaptações, a contribuição do componente inercial ao aumento do IPCA em 2016 sobe de 1,79 ponto percentuaL, nos cálculos de acordo com a metodologia do BC, para 3,16 pontos — metade da inflação do ano — pela decomposição alternativa da MCM. Na mesma comparação, o peso das expectativas avança de 0,5 ponto para 2,31 pontos.

Como, no impacto dos preços definidos livremente pelo mercado e dos itens administrados, o efeito da inércia e das expectativas é excluído em ambos os modelos, o peso desses dois segmentos também é diferente. Assim, enquanto, na metodologia da autoridade monetária, os preços livres teriam respondido por 2,94 pontos do IPCA em 2016, o efeito cai para apenas 0,22 ponto no conceito da MCM, importância bastante reduzida. O efeito dos preços monitorados também cai, de 0,74 para 0,28 ponto.

Já o peso dos choques de oferta e do repasse cambial são iguais nos dois casos. Nas estimativas da consultoria, somente 0,49 ponto da inflação do ano anterior foi explicado por choques de oferta. A variação da taxa de câmbio, por sua vez, ajudou a dinâmica de preços no período, “retirando” 0,17 do IPCA.

O resultado dos preços livres parece coerente na opinião dos economistas da MCM. “Excluindo-se o repasse cambial, os choques de oferta e os componentes totais de expectativas e inércia, sobra apenas o hiato do produto como fator relevante para o comportamento dos preços livres.”

Diante do elevado nível de capacidade ociosa na economia, para a MCM, é natural que a contribuição do hiato do produto (diferença entre o PIB potencial e o efetivo) sobre a inflação tenha sido pequena. “Na verdade, o fato da contribuição do hiato ter sido positiva em 2016 chega a ser surpreendente.”

Voltando à inércia, responsável por mais de três pontos do IPCA do ano passado, a principal explicação para essa elevada contribuição foi o conjunto de surpresas negativas em relação à inflação no fim de 2015. Somente no último trimestre daquele ano, o IPCA acumulou alta de 2,81%, destaca a consultoria.

“Isso reforça as expectativas favoráveis para a inflação em 2017, uma vez que observamos exatamente o oposto em 2016: a inflação no último trimestre do ano passado foi de apenas 0,74%, a menor variação para um quarto trimestre desde 1998.”

O comportamento das expectativas, que estão mais ancoradas, também é outra sinalização favorável para a inflação deste ano, observa a MCM. A estimativa para o IPCA 12 meses à frente, no boletim Focus do Banco Central, se encontra ao redor de 4,8%, bem abaixo dos 6,9% registrados no início de 2016.

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