Capítulos de História Colonial

capistrano-de-abreu

Ronaldo Vainfas, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro clássico da historiografia brasileira Capítulos de História Colonial de autoria de Capistrano de Abreu.

Capistrano (1853-1927 ), um cearense com formação tipicamente autodidata sem diploma de curso superior, foi membro da casta dos sábios-intelectuais. Começou sua carreira profissional com um emprego na Livraria Garnier em 1875 e pouco depois conseguiu uma vaga de professor, lecionando francês e português. Em 1879, começou a trabalhar na imprensa, dedicando-se a textos de crítica literária e de história da literatura. Tornou-se historiador em 1883, ocupando a cátedra de História do Brasil do Colégio Pedro II até 1899. A partir de então, viveria do trabalho de jornalista e mesmo da pesquisa histórica, apoiado sobretudo financeiramente por Paulo Prado, seu grande admirador, discípulo e editor, nascido na casta dos aristocratas, pois sua família era herdeira de grande cafeicultor paulista.

O interesse de Capistrano pelas relações entre História e Geografia e sua convicção de que as sociedades eram profundamente marcadas pela cultura e pelo meio geográfico estariam presentes no Capítulos de História Colonial, obra clássica da historiografia brasileira. Seu plano de escrever uma “nova história” do Brasil foi acalantado mais ainda quando preparou uma reedição crítica da obra da história brasileira mais lida até então, a História Geral do Brasil, de Francisco Adolpho de Varnhagen, publicada originalmente em cinco volumes de 1854 a 1857.

Desejava introduzir assuntos até então pouco estudados, por vezes desconhecidos, como as bandeiras, as minas, as estradas, a criação de gado. Incomodava-o, antes de tudo, o estilo, a escrita fria e insensível do Visconde de Porto Seguro, título que o Imperador concederia ao primeiro historiador “oficioso”, Varnhagen. Este era paulista de Sorocaba e filho de alemães. Contou uma história do Brasil à feição dos interesses imperiais da elite dominante, centralizadora e escravocrata.

Capistrano detestava seu texto e almejava escrever uma história viva e vivaz, e não meramente factual em cima de uma cronologia rígida, elaborada por Varnhagen, que só acompanhava os fatos oficiais da “descoberta” de 1500 à chegada da “corte joanina” em 1808 ao Brasil. Louvava a dinastia de Bragança. Era uma história elitista, laudatória dos “vencedores”, i.é, da casta dos aristocratas fundiários, que desprezava o índio, mal falava do negro, e desconfiava sempre das rebeliões, desqualificando-as.

Já na época membros da casta dos sábios-intelectuais achavam que o núcleo de uma história do Brasil deveria ser a “fusão das três raças”o branco português, o índio nativo, o negro africano –, proposta muito inovadora para uma época em que o tráfico negreiro estava no auge e o índio estava quase exterminado, ao menos no litoral. Capistrano deplorava a falta de sensibilidade de Varnhagen em relação à vida social, às diversidades regionais e ao povo.

Capítulos de História Colonial, publicado em 1907, cujas demais edições foram todas póstumas, é livro-chave de nossa historiografia. No entanto, o autor não acatou a ideia circulante que a história do Brasil devia ser escrita elegendo “a fusão das três raças” como problemática central. O livro é acanhado no tratamento do tema da miscigenação.

Porém, não obedece uma lógica de “história oficial”, depois dos “Antecedentes Indígenas” e os “Fatores Exóticos” (os portugueses vistos como estrangeiros), a partir do terceiro capítulo sobre os “Descobridores”, vai sumariando alguns fatos ou processos marcantes dos séculos XVI ao XVIII, a exemplo do regime de capitanias hereditárias, das invasões francesas do século XVI, das holandesas do XVII, dos tratados dos limites entre portugueses e espanhóis. Mas entre esses capítulos convencionais, há destaques como os clássicos “O Sertão” e o último deles, “Três Séculos Depois”, totalizando os onze capítulos da obra.

Tanto o português quanto o africano, ambos são apresentados como alienígenas ao continente. A propósito desse encontro, Capistrano ensaia algumas notas sobre a mescla cultural – e nem tanto racial –, politicamente correta “avant la lettre”, pois observa sim as etnias distintas e não as falsas “raças humanas”.

Não deixa de ensaiar um novo passo na análise da miscigenação, rastreando as motivações de índias e portuguesas nesse encontro que foi também sexual.

Quanto às índias, diz que se ofereceram aos portugueses para terem filhos “pertencentes à raça superior”, dado que entre os nativos o parentesco só contava pelo lado paterno. Ronaldo Vainfas, assim como eu, considera essa uma hipótese bastante discutível que encobre os mais prováveis estupros ou da “raça superior” (sic).

Quanto aos portugueses, Capistrano sugere que influiu “a escassez, se não ausência de mulheres de seu sangue” – ideia justificadora da violência sexual que a historiografia posterior repetiria fartamente.

Lançando o foco na verdadeira competição entre franceses e portugueses, logo nas primeiras décadas do século XVI, questiona o direito português às terras brasílicas. Ao usar os nomes com que os indígenas do litoral tratavam portugueses (Peró) e franceses (Mair), Capistrano articula a disputa europeia no Brasil com as rivalidades entre grupos indígenas, tupinambás e tupiniquins – ambos da fala tupi –, porém lutando em lados opostos.

Quanto ao regime de donatarias ou capitanias hereditárias, “organização feudal”, Capistrano mostra o fracasso de várias delas, umas abandonadas em face dos ataques indígenas, outras nem sequer ocupadas, quase todas desprotegidas. Exceções que confirmam essa regra foram São Vicente e Pernambuco.

Bahia tinha tudo para dar certo, como aliás ocorreria depois de 1549, por causa dos largos recursos naturais. Se era pobre em pau-brasil, ficava livre dos franceses e, por conseguinte, era menos fustigada pelos tupinambás. Porém, o donatário não soube dominar sua própria gente, “nem se impôs à indiada das adjacências”. Acabou fugindo para Porto Seguro; quando retornou, caiu prisioneiro dos tupinambás e foi ritualmente sacrificado por um irmão com apenas cinco anos de um índio antes assassinado a seu mando.

Analisando os mecanismos de controle português, desde a instituição do governo geral, a escolha da Bahia como capitania régia, os primeiros governadores, até a entrada em cena dos jesuítas, que vieram com Tomé de Souza em 1549, e o projeto missionário. Mostra, novamente, os franceses fustigando, agora o Rio de Janeiro.

Dá alguma atenção à face religiosa da colonização portuguesa. Examina as ideias de Padre Nóbrega de que os curumins seriam educáveis, enquanto os mais velhos seriam mais apegados às bebedeiras, à antropofagia, e à poligamia. Com o avanço das missões pelo litoral, sobretudo após 1558, as pressões escravizadoras e as doenças epidêmicas, de fato, dizimaram boa parte da população indígena posta em contato direto com a colonização.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s