Familismo + Nacionalismo = Protecionismo X Globalização

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Martin Wolf (FT, 18/01/17) publicou mais um artigo cult, i.é, culto, bem-informado, analítico. Reproduzo-o abaixo.

A humanidade é tribal. Somos animais sociais e culturais. A cultura nos permite cooperar não apenas em círculos familiares como em comunidades imaginadas. De todas essas comunidades nada está mais perto de família do que “nação”, uma palavra que significa ascendência compartilhada.

Na capacidade de criar comunidades imaginadas está a vitalidade da humanidade e uma de suas maiores vulnerabilidades. A comunidade imaginada define o que as pessoas compartilham. Hoje, como no passado, os líderes fomentam o ressentimento nacionalista para justificar despotismo e guerras.

Durante grande parte da história humana, a guerra foi vista como a relação natural entre as sociedades. A vitória trazia pilhagem, poder e prestígio, pelo menos para as elites. Mobilizar recursos para guerras era um papel central dos Estados. Justificar tal mobilização era um papel central da cultura.

Existe outra maneira para alcançar a prosperidade: o comércio. O equilíbrio entre comércio e pilhagem é complexo. Ambos exigem instituições fortes apoiadas em culturas eficazes. Mas a guerra exige exércitos baseados em lealdade, ao passo que o comércio requer segurança, baseada em justiça.

[FNC: acrescento eu que o comerciante necessita ter empatia com o parceiro, ou seja, colocar-se em seu lugar, para elaborar a melhor proposta aceitável por ambos. Por isso, o capitalismo comercial significou um grande avanço em relação à Era Medieval, quando a riqueza de origem rural implicava na violência da conquista de territórios, matando ou escravizando “os inimigos”. A divisão de trabalho, inclusive entre regiões, que eleva a produtividade, substitui a violência pela cooperação com o parceiro comercial. A relação de inimizade é substituída pela relação de clientela.]

Talvez a maior contribuição da Economia seja a ideia de que as sociedades ganharão mais buscando negociar umas com as outras do que com a tentativa de conquistarem-se umas às outras. Além disso, quanto mais ricos os seus parceiros, maiores são as oportunidades para o comércio mutuamente enriquecedor.

A relação sábia entre os Estados, portanto, é de cooperação, não de guerra, e de comércio, não de isolamento. Essa ideia brilhante está correta. Mas é também contraintuitiva, até mesmo perturbadora. Significa ser possível ganhar mais da relação com estrangeiros do que com concidadãos. Ela solapa um senso de pertencer à tribo imaginada.

Para muitos, essa erosão da lealdade tribal é ameaçadora, principalmente se os estrangeiros são autorizados a migrar livremente. Quem, perguntam as pessoas, são esses estranhos que moram em nossas casas e compartilham nossos benefícios?

A ideia de que a melhor forma de as sociedades se relacionarem umas com as outras é pelo comércio mutuamente enriquecedor é a filosofia de validação do Fórum Económico Mundial. Ele privilegia o comércio em detrimento de conflito e o que os seres humanos têm em comum ao que os divide. É um bom credo.

[FNC: este credo que divide os que seguem a ideologia da esquerda e os que adotam a ideologia da direita: ambos sabem que os indivíduos, por definição, são desiguais, mas os primeiros buscam, via altruísmo, destacar o que há de comum entre os seres humanos, enquanto os segundos buscam, via competitividade, confirmar que as desigualdades individuais são insuperáveis!]

No entanto, Theresa May, a conservadora primeira-ministra do Reino Unido, condena seus crentes por serem “cidadãos do mundo”, que são cidadãos de lugar nenhum. [?!] O ressentimento que ela evoca é, até certo ponto, justificado. Aqueles que se beneficiaram da globalização e da transição pós-comunista prestaram muito pouca atenção àqueles não beneficiados.

  • Eles assumiram que uma maré montante ergueria todos os barcos.
  • Eles criaram uma crise financeira que devastou sua reputação de probidade e competência, com resultados políticos terríveis.
  • Eles assumiram que os laços comunitários que pouco significavam para si próprios pouco significavam para aqueles deixados para trás.

Não é de surpreender que aqueles que se deparam com o mundo transformado por mudanças sociais e econômicas sucumbam ao ressentimento nacionalista.

No entanto, a política de ressentimento nacionalista não é apenas uma irrupção de baixo para cima. Ela é uma tática dos que aspiram ao poder. As histórias que esses líderes contam variam em detalhes, mas a essência é sempre a mesma. Elas distinguem as pessoas “reais” que os apoiam dos “inimigos do povo”. Para eles, vida é guerra. Numa guerra, eles podem justificar qualquer coisa.

A narrativa deles justifica transformar a democracia liberal em ditadura plebiscitária. O analista polonês Slawomir Sierakowski expõe como isso está funcionando em seu país. O aspirante a déspota condena a liberdade pessoal como sinônimo de caos, instituições limitadoras como sendo ilegítimas, fontes de informação independentes como corruptas, estrangeiros como dúplices e imigrantes como ameaçadores.

O cultivo da paranoia justifica cada passo. O aspirante a déspota necessita inimigos. Eles são sempre facilmente encontrados. Incessantemente, os aspirantes a déspotas enfatizam que a maioria está ao lado deles (mesmo que não esteja).

O assalto à noção de fontes confiáveis de informação independentes é um elemento central na política de um déspota plebiscitário, como o turco Recep Tayyip Erdogan ou o russo Vladimir Putin.

Como é a verdade definida por tais regimes? Verdade é o que eles dizem ser verdadeiro. Assim, o poder determina a verdade. Essa é uma característica de todas as ditaduras, particularmente as comunistas, como nos disse Orwell. É também o que o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, acredita: a verdade é o que ele acha conveniente hoje.

Os EUA são o exemplo mais importante. Então, até que ponto, no caminho para o despotismo plebiscitário, Trump poderia levar seu país? O consenso é: “não muito longe”, dada a força das instituições. Mas as instituições são tão fortes quanto as pessoas que as governam.

  • O judiciário americano defenderá a liberdade de expressão?
  • Os legisladores defenderão o direito de voto?
  • Ou o presidente terá êxito em intimidar aqueles de quem discorda?

Sierakowski assinala que o polaco Jaroslaw Kaczynski abraçou o Estado de bem-estar social. Trump também ganhou a base republicana ao enfatizar seu apoio aos programas dos quais dependem os americanos comuns. Mas os líderes republicanos querem eviscerá-los. O sucesso deles poderá depender da fidelidade, ou não, de Trump, a suas promessas ou a seu partido.

O pensador israelense Yuval Harari argumentou recentemente que: “a despeito de toda a desilusão com a democracia liberal e os livres mercados, ninguém ainda formulou uma visão alternativa que goze de qualquer tipo de apelo mundial”.

Isso é verdade, mas irrelevante. O nacionalismo autoritário tem, potencialmente, esse apelo. Ele se deslocou para o núcleo do sistema mundial. Isso muda tudo.”

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