Economia em Letras de Música

Navegando, ou melhor, vagueando pela web, encontrei algo articulado com uma inspiração que tive: estimular meus alunos (e seguidores deste modesto blog pessoal) a pesquisarem letras de música que se referem à Economia. A seguinte fonte é: Beethoven e Economia na Música.

Um dos grandes tabus do meio artístico é o dinheiro. Questões materiais passam ao largo das discussões acerca do “talento”, da “genialidade” e do “valor artístico da grande obra”.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu afirma que um dos fundamentos do campo artístico autônomo é a denegação da economia (Bourdieu, 1996, p. 162). Este campo trabalha com o que ele chama de economia às avessas: o triunfo do “verdadeiro artista” é simbólico (reconhecimento dos pares, dos críticos, de um publico específico) e não financeiro.

No campo artístico autônomo, o livre criador opera sua magia distante das preocupações econômicas, pois “arte não é mercadoria”. Produzir arte com objetivos financeiros pertence, para esta ideologia, ao campo dos criadores de obras “rasas”, “ligeiras”, “para as massas”.

A importância fundamental desta ideologia no campo artístico costuma alienar os artistas e o público da questão material, transformando a História da Arte em uma sucessão de estilos e estéticas sem a conexão com o mundo financeiro e, por consequência, social. Isto atesta Bourdieu quando diz que a história autônoma da arte é uma conquista da própria autonomia do campo (Bourdieu, 2011, p.177). Em outras palavras, falar de economia na música é tocar em tema “proibido”.

Será mesmo? Para dar um ponto-de-partida nesta pesquisa, demonstrando a possibilidade de ser estendida, citando letras do Chico Buarque, darei alguns exemplos abaixo. Fiz uma playlist no Spotify (12142604272) com as que encontrei. Porém, não achei a primeira que veio à mente, uma metáfora do risco sistêmico, que citei no último capítulo do meu livro “Economia em 10 Lições”: O Malandro, gravada no disco Ópera do Malandro.

Lista de Letras de Músicas com referência à Economia:

  1. O Malandro (versão livre da música de Kurt Weill & Bertolt Brecht, Chico Buarque em 1977/78)
  2. Pedro pedreiro (Chico Buarque, 1965)
  3. Tamandaré (Chico Buarque, 1965)
  4. Gente humilde (Garoto-Vinicius de Moraes-Chico Buarque, 1969)
  5. Bolsa de amores (Chico Buarque, 1971)
  6. Construção (Chico Buarque, 1971)
  7. Deus lhe pague (Chico Buarque, 1971)
  8. Partido alto (Chico Buarque, 1972)
  9. Vence na vida quem diz sim (Chico Buarque-Ruy Guerra, 1972-73)
  10. Mambordel (Chico Buarque, 1975)
  11. Milagre brasileiro (Julinho da Adelaide, 1975)
  12. Meu caro amigo (Francis Hime-Chico Buarque, 1976)
  13. O que será (À flor da terra) (Chico Buarque, 1976)
  14. Corrente (Este é um samba que vai pra frente) (Chico Buarque, 1976)
  15. O cio da terra (Milton Nascimento-Chico Buarque, 1977)
  16. Primeiro de maio (Milton Nascimento-Chico Buarque, 1977)
  17. Folhetim (Chico Buarque, 1977-78)
  18. Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1977-78)
  19. E se (Francis Hime-Chico Buarque, 1980)
  20. Linha de montagem (Novelli-Chico Buarque, 1980)
  21. O velho Francisco (Chico Buarque, 1987)
  22. Injuriado (Chico Buarque, 1998)
  23. Iracema voou (Chico Buarque, 1998)
  24. Sonhos sonhos são (Chico Buarque, 1998)

Em sua adaptação da letra de O Malandro a partir da música de Kurt Weill & Bertolt Brecht, em 1977/78, Chico Buarque traça o círculo vicioso da crise sistêmica em que se insere a vida econômica brasileira. A partir do pequeno calote no pagamento da dose de uma cachaça, expande-se a rede de default: malandro – garçom – português – distribuidor – usineiro – Banco do Brasil –taxação da cachaça exportada. Os ianques proíbem seu consumo, provocando um excesso no alambique e a “ressaca” nacional: Banco do Brasil – usineiro – carregador – distribuidor – galego – garçom – malandro, sendo este condenado pela situação. Está dito tudo aí: o “efeito encadeamento”, o “efeito dominó”, o “efeito contágio”, etc.

O malandro/ na dureza

Senta à mesa / do café

Bebe um gole / de cachaça

Acha graça / e dá no pé

Mas os ianques / com seus tanques

Têm bem mais o / que fazer

E proíbem / os soldados

Aliados / de beber

O garçom / no prejuízo

Sem sorriso / sem freguês

De passagem / pela caixa

Dá uma baixa / no português

A cachaça / tá parada

Rejeitada / no barril

O alambique / tem chilique

Contra o Banco / do Brasil

O galego / acha estranho

Que o seu ganho / tá um horror

Pega o lápis / soma os canos

Passa os danos / pro distribuidor

O usineiro / faz barulho

Com orgulho / de produtor

Mas a sua / raiva  cega

Descarrega / no carregador

Mas o frete / vê que ao todo

Há engodo / nos papéis

E pra cima / do alambique

Dá um trambique / de cem mil réis

Este chega / pro galego

Nega arreglo / cobra mais

A cachaça / tá de graça

Mas o frete / como é que faz?

O usineiro / nessa luta

Grita (ponte que partiu)

Não é idiota / trunca a nota

Lesa o Banco / do Brasil

O galego / tá apertado

Pro seu lado / não tá bom

Então deixa / congelada

A mesada / do garçom

Nosso banco / tá cotado

No mercado / exterior

Então taxa / a cachaça

A um preço / assustador

O garçom vê / um malandro

Sai gritando / pega ladrão

E o malandro / autuado

É julgado e condenado culpado

Pela situação

 

Pedro pedreiro (Chico Buarque, 1965)

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa

E a gente vai ficando pra trás

Esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento

Desde o ano passado

Para o mês que vem

 

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande no bilhete pela federal

Todo mês

Esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando aumento

Para o mês que vem

Esperando a festa

Esperando a sorte

E a mulher de Pedro

Está esperando um filho

Pra esperar também

 

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro está “esperando a morte

Ou esperando o dia de voltar pro Norte

Pedro não sabe mas talvez no fundo

Espera alguma coisa mais linda que o mundo

Maior do que o mar

Mas pra que sonhar

Se dá o desespero de esperar demais

Pedro pedreiro quer voltar atrás

Quer ser pedreiro pobre e nada mais

Sem ficar esperando, esperando, esperando

Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento para o mês que vem

Esperando um filho pra esperar também

Esperando a festa

Esperando a sorte

Esperando a morte

Esperando o norte

Esperando o dia de esperar ninguém

Esperando enfim nada mais além

Da esperança aflita, bendita, infinita

Do apito do trem

 

Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)”

 

Tamandaré (Chico Buarque, 1965)

 

Zé qualquer tava sem samba, sem dinheiro

Sem Maria sequer

Sem qualquer paradeiro

Quando encontrou um samba

Inútil e derradeiro

Numa inútil e derradeira

Velha nota de um cruzeiro

 

“Seu” Marquês, “seu” Almirante

Do semblante meio contrariado

Que fazes parado

No meio dessa nota de um cruzeiro rasgado”

“Seu” Marquês, “seu” Almirante

Sei que antigamente era bem diferente

Desculpe a liberdade

E o samba sem maldade

Deste Zé qualquer

Perdão, Marquês de Tamandaré

Perdão, Marquês de Tamandaré

 

Pois é, Tamandaré

A  maré não tá boa

Vai virar a canoa

E este mar não dá pé, Tamandaré

Cadê as batalhas?

Cadê as medalhas?

Cadê a nobreza?

 

Cadê a marquesa, cadê?

Não diga que o vento levou

Teu amor até

 

Pois é, Tamandaré

A maré não tá boa

Vai virar a canoa

E este mar não dá pé, Tamandaré

Meu marquês de papel

Cadê teu troféu?

Cadê teu valor?

Meu caro almirante

O tempo inconstante roubou

 

Zé qualquer tornou-se amigo do marquês

Solidário na dor

Que eu contei a vocês

Menos que queira ou mais que faça

É o fim do samba, é o fim da raça

Zé qualquer tá caducando

Desvalorizando

Como o tempo passa, passando

Virando fumaça, virando

Caindo em desgraça, caindo

Sumindo, saindo da praça

Passando, sumindo

Saindo da praça

 

 

Gente humilde (Garoto-Vinicius de Moraes-Chico Buarque, 1969)

 

Tem certos dias

Em que eu penso em minha gente

E sinto assim

Todo o meu peito se apertar

Porque parece

Que acontece de repente

Feito um desejo de eu viver

Sem me notar

Igual a como

Quando eu passo no subúrbio

Eu muito bem

Vindo de trem de algum lugar

E ai me dá

Como uma inveja dessa gente

Que vai em frente

Sem nem ter com quem contar

 

São casas simples

Com cadeiras na calçada

E na fachada

Escrito em cima que é um lar

Pela varanda

Flores tristes e baldias

Como a alegria

Que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza

No meu peito

Feito um despeito

De eu não ter como lutar

E eu que não creio

Peço a Deus por minha gente

É gente humilde

Que vontade de chorar

 

Gente humilde (Garoto-Vinicius de Moraes-Chico Buarque, 1969)

 

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

 

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar

Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar

E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

 

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou

E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou

E foram tantos beijos loucos

Tantos gritos roucos como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu

Em paz

 

Carta do Chico para o Vinícius: “Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar. ” (Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”).

 

Bolsa de amores (Chico Buarque, 1971)

Comprei na bolsa de amores

As ações melhores

Que encontrei por lá

Ações de uma morena dessas

Que dão lucro à beça

Pra quem pode

E sabe jogar

Mas o mercado entrou em baixa

Estou sem nada em caixa

já perdi meu lote

Minha morena me esquecendo

Não deu dividendo

Nem deixou filhote

 

E eu que queria

De coração

Ganhar um dia

Alguma bonificação

Bem me dizia

Meu corretor

A moça é fria

É ordinária

Ao portador

 

Construção (Chico Buarque, 1971)

 

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

 

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como ne fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

 

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

 

Deus lhe pague (Chico Buarque, 1971)

 

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague

 

Pelo prazer de “chorar e pelo “estamos aí”

Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir

Um crime pra comentar e um samba pra distrair

Deus lhe pague

 

Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui

O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir

Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi

Deus lhe pague

 

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair

Deus lhe pague

 

Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir

Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir

E pelo grito demente que nos ajuda a fugir

Deus lhe pague

 

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir

Deus lhe pague

 

Partido alto (Chico Buarque, 1972)

 

Diz que deu, diz que dá

Diz que Deus dará

Não vou duvidar, ô nega

E se Deus não dá

Como é que vai ficar, ô nega

Diz que Deus diz que dá

E se Deus negar, ô nega

Eu vou me indignar e chega

Deus dará, Deus dará

 

Deus é um cara gozador, adora brincadeira

Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro

Mas achou muito engraçado me botar cabreiro

Na barriga da miséria, eu nasci brasileiro

Eu sou do Rio de Janeiro

 

Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica

Como é que pôs no mundo esta pouca titica

Vou correr o mundo afora, dar uma canjica

Que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca

E aquele abraço pra quem fica

 

Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio

Pele e osso simplesmente, quase sem recheio

Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio

Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio

Que eu já tô de saco cheio

 

Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia

Deus me deu muitas saudades e muita preguiça

Deus me deu perna comprida e muita malícia

Pra correr atrás de bola e fugir da polícia

Um dia ainda notícia

 

Vence na vida quem diz sim (Chico Buarque-Ruy Guerra, 1972-73)

Para Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra

Versão proibida pela censura em 1973

 

Vence na vida quem diz sim

Vence na vida quem diz sim

 

Se te dói o corpo

Diz que sim

Torcem mais um pouco

Diz que sim

Se te dão um soco

Diz que sim

Se te deixam louco

Diz que sim

Se te babam no cangote

Mordem o decote

Se te alisam com o chicote

Olha bem pra mim

Vence na vida quem diz sim

Vence na vida quem diz sim

 

Se te jogam lama

Diz que sim

Pra que tanto drama

Di z que sim

Te deitam na cama

 

Diz que sim

Se te criam fama

Diz que sim

Se te chamam vagabunda

Montam na cacunda

Se te largam moribunda

Olha bem pra mim

Vence na vida quem diz sim

Vence na vida quem diz sim

 

Se te cobrem de ouro

Diz que sim

Se te mandam embora

Diz que sim

Se te puxam o saco

Diz que sim

Se te xingam a raça

Diz que sim

Se te incham a barriga

De feto e lombriga

Nem por isso compra a briga

Olha bem pra mim

Vence na vida quem diz sim

Vence na vida quem diz sim

 

Mambordel (Chico Buarque, 1975)

Para o filme Polichinelo, de J. G. Albicocco, jamais realizado

 

O rei pediu quartel

Foi proclamada a república

Neste bordel

 

Eu vou virar artista

Ficar famosa, falar francês

Autografar com as unhas

Eu vou, nas costas do meu freguês

 

Eu cobro meia entrada

Da estudantada que não tem vez

Aqui no meu teatro

Grupo de quatro paga por três

 

O rei pediu quartel

Foi proclamada a república

Neste bordel

 

Faço qualquer negócio

Passo recibo, aceito cartão

Faço facilitado, financiado

E sem correção

 

Ao povo nossas carícias

Ao povo nossas carências

Ao povo nossas delícias

E nossas doenças”

 

“A música, feita para um filme que nunca foi terminado, seria cantada numa situação em que as prostitutas conseguiam enxotar o dono do bordel. O puritanismo da censura proibiu a canção, que só foi gravada no álbum Soltas na vida, das Frenéticas.” Fonte: Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”.

 

Milagre brasileiro (Julinho da Adelaide, 1975)

 

Cadê o meu?

Cadê o meu, ó meu?

Dizem que você se defendeu

É o milagre brasileiro

Quanto mais trabalho

Menos vejo dinheiro

É o verdadeiro boom

Tu tá no bem bom

Mas eu vivo sem nenhum

Cadê o meu?

Cadê o meu, ó meu?

Eu não falo por despeito

Mas, também, se eu fosse eu

Quebrava o teu

Cobrava o meu

Direito

 

A terceira e última composição de Julinho da Adelaide criticava o chamado “milagre brasileiro”, que alardeava índices de crescimento enquanto o povo empobrecla. O general Médici deixara escapar durante uma entrevista que o Brasil ia bem, mas o povo ia mal. 0 Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostrava isso em números: em 1965, o tempo de trabalho necessário para adquirir uma cesta básica era de 88 horas e 16 minutos. Em 1974 saltou para 163 horas e 32 minutos.

Proibida pela censura, a canção só chegou aos discos em 1980, gravada por Miúcha no LP de mesmo nome. Vinte e dois anos depois, Julinho da Adelaide reapareceria numa participação especial na faixa “Biscate“, do disco Bate-boca – As músicas de Tom Jobim & Chico Buarque (1997), interpretada pelo Quarteto em Cy e pelo MPB-4.” Fonte: Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”.

 

Meu caro amigo (Francis Hime-Chico Buarque, 1976)

 

Meu caro amigo me perdoe, por favor

Se eu não lhe faço uma visita

Mas como agora apareceu um portador

Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação

Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça

E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça

Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo eu não pretendo provocar

Nem atiçar suas saudades

Mas acontece que não posso me furtar

A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão

Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro

E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro

Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo eu quis até telefonar

Mas a tarifa não tem graça

Eu ando aflito pra fazer você ficar

A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação

 

E a gente tá engolindo cada sapo no caminho

E a gente vai se amando que, também, sem um carinho

Ninguém segura esse rojão

 

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever

Mas o correio andou arisco

Se me permitem, vou tentar lhe remeter

Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll

Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus

Um beijo na família, na Cecília e nas crianças

O Francis aproveita pra também mandar lembranças

A todo o pessoal

Adeus

 

O que será (À flor da terra) (Chico Buarque, 1976)

Para o filme Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto

 

O que será que será

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas

“Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que estão falando alto pelos botecos

Que gritam nos mercados, que com certeza

Está na natureza, será que será

O que não tem certeza, nem nunca terá

O que não tem conserto, nem nunca terá

O que não tem tamanho

 

O que será que será

Que vive nas idéias desses amantes

Que cantam os poetas mais delirantes

Que juram os profetas embriagados

Que está na romaria dos mutilados

Que está na fantasia dos infelizes

Que está no dia a dia das meretrizes

No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será

O que não tem decência, nem nunca terá

O que não tem censura, nem nunca terá

O que não faz sentido

 

O que será que será

Que todos os avisos não vão evitar

Porque todos os risos vão desafiar

Porque todos os sinos irão repicar

Porque todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá

Olhando aquele inferno, vai abençoar

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem juízo

 

Corrente (Este é um samba que vai pra frente) (Chico Buarque, 1976)

 

Eu hoje fiz um samba bem pra frente

Dizendo realmente o que é que eu acho

 

Eu acho que o meu samba é uma corrente

E coerentemente assino embaixo

 

Hoje é preciso refletir um pouco

E ver que o samba tá tomando jeito

 

Só mesmo embriagado ou muito louco

Pra contestar e pra botar defeito

 

Precisa ser muito sincero e claro

Pra confessar que andei sambando errado

 

Talvez precise até tomar na cara

Pra ver que o samba tá bem melhorado

 

Tem mais é que ser bem cara de tacho

Não ver a multidão sambar contente

 

Isso me deixa triste e cabisbaixo

Por isso eu fiz um samba bem pra frente

 

Dizendo realmente o que é que eu acho

Eu acho que o meu samba é uma corrente

 

E coerentemente assino embaixo

Hoje é preciso refletir um pouco

 

E ver que o samba tá tomando jeito

Só mesmo embriagado ou muito louco

 

Pra contestar e pra botar defeito

Precisa ser muito sincero e claro

 

Pra confessar que andei sambando errado

Talvez precise até tomar na cara

 

Pra ver que o samba tá bem melhorado

Tem mais é que ser bem cara de tacho

 

Não ver a multidão sambar contente

Isso me deixa triste e cabisbaixo

 

Por isso eu fiz um samba bem pra frente

Dizendo realmente o que é que eu acho

 

O subtítulo faz referência a uma espécie de hino do regime militar que dizia:

“Este é um país que vai pra frente

Hô, hô, hô, hô, hô

De uma gente amiga e tão contente

Hô , hô, hô, hô, hô

Este é um país que vai pra frente

De um povo unido, de grande valor

É um país que canta, trabalha e se agiganta

É o Brasil de nosso amor!”

 

 

O cio da terra (Milton Nascimento-Chico Buarque, 1977)

 

Debulhar o trigo

Recolher cada bago do trigo

Forjar no trigo o milagre do pão

E se fartar de pão

 

Decepar a cana

Recolher a garapa da cana

Roubar da cana a doçura do mel

Se lambuzar de mel

 

Afagar a terra

Conhecer os desejos da terra

Cio da terra, a propícia estação

E fecundar o chão”

 

“Milton Nascimento havia feito a música pensando nos cantos das mulheres camponesas do valo do Rio Doce que trabalham na colheita de algodão. A complicação da música, que possui uma estrutura quebrada a todo instante, com o ritmo solto, é pinto pequeno comparada com o que ouviu por lá, como Chico afirma em entrevista. Junto com “Primeiro de maio“, integrou o compacto que comemorava a data em 1977, momento em que o movimento sindical na região do ABCD paulista começava a se reorganizar sob a direção de um jovem metalúrgico chamado Luiz Inácio da Silva, o Lula.” Fonte: Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”.

 

Primeiro de maio (Milton Nascimento-Chico Buarque, 1977)

 

Hoje a cidade está parada

E ele apressa a caminhada

Pra acordar a namorada logo ali

E vai sorrindo, vai aflito

Pra mostrar, cheio de si

Que hoje ele é senhor das suas mãos

E das ferramentas

 

Quando a sirene não apita

Ela acorda mais bonita

Sua pele é sua chita, seu fustão

E, bem ou mal, é o seu veludo

É o tafetá que Deus lhe deu

E é bendito o fruto do suor

Do trabalho que é só seu

 

Hoje eles hão de consagrar

O dia inteiro pra se amar tanto

Ele, o artesão

Faz dentro dela a sua oficina

E ela, a tecelã

Vai fiar nas malhas do seu ventre

O homem de amanhã

 

A canção foi cantada pela primeira vez por Chico e Milton no Teatro Carlos Gomes, em comemoração ao Dia do Trabalho.” Fonte: Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”.

 

Folhetim (Chico Buarque, 1977-78)

Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

 

Se acaso me quiseres

“Sou dessas mulheres

Que só dizem sim

Por uma coisa à toa

Uma noitada boa

Um cinema, um botequim

 

E, se tiveres renda

Aceito uma prenda

Qualquer coisa assim

Como uma pedra falsa

Um sonho de valsa

Ou um corte de cetim

 

E eu te farei as vontades

Direi meias verdades

Sempre à meia luz

E te farei, vaidoso, supor

Que és o maior e que me possuis

 

Mas na manhã seguinte

Não conta até vinte

Te afasta de mim

Pois já não vales nada

Es página virada

Descartada do meu folhetim

 

Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1977-78)

Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

 

De tudo que é nego torto

Do mangue e do cais do porto

Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes

Dos cegos, dos retirantes

E de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina

Na garagem, na cantina

Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos

Das loucas, dos lazarentos

Dos moleques do internato

E também vai amiúde

Co’os velhinhos sem saúde

E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade

E é por isso que a cidade

Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni

Joga pedra na Geni

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um

Maldita Geni

 

Um dia surgiu, brilhante

Entre as nuvens, flutuante

Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios

Abriu dois mil orifícios

Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada

Se quedou paralisada

Pronta pra virar geleia

 

Mas do zepelim gigante

Desceu o seu comandante

Dizendo: — Mudei de idéia

— Quando vi nesta cidade

— Tanto horror e iniquidade

— Resolvi tudo explodir

— Mas posso evitar o “drama

— Se aquela formosa dama

— Esta noite me servir

Essa dama era Geni

Mas não pode ser Geni

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um

Maldita Geni

 

Mas, de fato, logo ela

Tão coitada e tão singela

Cativara o forasteiro

O guerreiro tão vistoso

Tão temido e poderoso

Era dela prisioneiro

Acontece que a donzela

— e isso era segredo dela —

Também tinha seus caprichos

E a deitar com homem tão nobre

Tão cheirando a brilho e a cobre

Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia

A cidade em romaria

Foi beijar a sua mão

O prefeito de joelhos

O bispo de olhos vermelhos

E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai, Geni

Vai com ele, vai, Geni

Você pode nos salvar

Você vai nos redimir

 

Você dá pra qualquer um

Bendita Geni

 

Foram tantos os pedidos

Tão sinceros, tão sentidos

Que ela dominou seu asco

Nessa noite lancinante

Entregou-se a tal amante

Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira

Lambuzou-se a noite inteira

Até ficar saciado

E nem bem amanhecia

Partiu numa nuvem fria

Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado

Ela se virou de lado

E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia

E a cidade em cantoria

Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni

Joga bosta na Geni

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um

Maldita Geni

 

E se (Francis Hime-Chico Buarque, 1980)

 

E se o oceano incendiar

E se cair neve no sertão

E se o urubu cocorocar

E se o Botafogo for campeão

E se o meu dinheiro não faltar

E se o delegado for gentil

E se tiver bife no jantar

E se o carnaval cair em abril

E se o telefone funcionar

E se o Pantanal virar pirão

E se o Pão de Açúcar desmanchar

E se tiver sopa pro peão

E se o oceano incendiar

E se o Arapiraca for campeão

E se à meia-noite o sol raiar

E se o meu país for um jardim

E se eu convidá-la pra dançar

E se ela ficar assim, assim

E se eu lhe entregar meu coração

E meu coração for um quindim

E se o meu amor gostar então

De mim

 

Linha de montagem (Novelli-Chico Buarque, 1980)

 

Linha linha de montagem

A cor a coragem

Cora coração

Abecê abecedário

Opera operário

Pé no pé no chão

 

Eu não sei bem o que seja

Mas sei que seja o que será

O que será que será que se veja

Vai passar por lá

 

Pensa pensa pensamento

Tem sustém sustento

Fé café com pão

Com pão com pão companheiro

Para paradeiro

Mão irmão irmão

 

Na mão, o ferro, a ferragem

O elo, a montagem do motor

E a gente dessa engrenagente

Dessa engrenagente

Dessa engrenagente

Dessa engrenagente sai maior

 

As cabeças levantadas

Máquinas paradas

Dia de pescar

Pois quem toca o trem pra frente

Também de repente

Pode o trem parar

 

Eu não sei bem o que seja

Mas sei que seja o que será

 

O que será que será que se veja

Vai passar por lá

 

Gente que conhece a prensa

A brasa da fornalha

O guincho do esmeril

Gente que carrega a tralha

Ai, essa tralha imensa

Chamada Brasil

 

Sambe sambe São Bernardo

Sanca São Caetano

Santa Santo André

Dia a dia Diadema

Quando for, me chame

Pra tomar um mé

 

O velho Francisco (Chico Buarque, 1987)

 

Já gozei de boa vida

Tinha até meu bangalô

Cobertor, comida

Roupa lavada

Vida veio e me levou

 

Fui eu mesmo alforriado

Pela mão do imperador

Tive terra, arado

Cavalo e brida

Vida veio e me levou

 

Hoje é dia de visita

Vem aí meu grande amor

Ela vem toda de brinco

Vem todo domingo

Tem cheiro de flor

 

Quem me vê, vê nem bagaço

Do que viu quem me “enfrentou

Campeão do mundo

Em queda de braço

Vida veio e me levou

 

Li jornal, bula e prefácio

Que aprendi sem professor

Frequentei palácio

Sem fazer feio

Vida veio e me levou

 

Hoje é dia de visita

Vem aí meu grande amor

Ela vem toda de brinco

Vem todo domingo

Tem cheiro de flor

 

Eu gerei dezoito filhas

Me tornei navegador

Vice-rei das ilhas

Da Caraíba

Vida veio e me levou

 

Fechei negócio da China

Desbravei o interior

Possuí mina

De prata, jazida

Vida veio e me levou

 

Hoje é dia de visita

Vem aí meu grande amor

Hoje não deram almoço, né

Acho que o moço até

Nem me lavou

 

Acho que fui deputado

Acho que tudo acabou

Quase que

Já não me lembro de nada

Vida veio e me levou

 

Injuriado (Chico Buarque, 1998)

 

Se eu só lhe fizesse o bem

Talvez fosse um vício a mais

Você me teria desprezo por fim

Porém não fui tão imprudente

E agora não há francamente

Motivo pra você me injuriar assim

 

Dinheiro não lhe emprestei

Favores nunca lhe fiz

Não alimentei o seu gênio ruim

Você nada está me devendo

Por isso, meu bem, não entendo

Porque anda agora falando de mim

 

Chico queria mais um samba para completar o álbum, que já tinha onze faixas. Pensou em gravar “Dura na queda”, mas achou que não se encaixava nas características que o disco vinha tomando. Cogitou até em cantar música de outros compositores, como Geraldo Pereira, e finalmente decidiu ele mesmo fazer um samba como aqueles que fazia no início de carreira, “pra ser cantado com cerveja em mesa de bar”. Essa é a história simples e prosaica da canção.

Mas não faltou quem visse nos versos de “Injuriado” uma resposta ao então presidente – e candidato à reeleição – Fernando Henrique Cardoso, que, no livro Mundos em português, em conversa com o ex-presidente de Portugal Mário Soares, resolveu tecer considerações sobre Chico: “quer ser crítico mas é repetitivo”, ou é um artista da “elite tradicional” e outras coisas. Em 1994, Chico apoiou Lula para presidente, enquanto Caetano Veloso e Gilberto Gil ficaram com Fernando Henrique. Talvez por isso, no mesmo livro o ex-presidente se rasgue em elogios à dupla. Porém a tentativa anacrônica de reviver uma polarização falsa desde sua origem saiu como um tiro pela culatra. Os baianos, em uníssono, defenderam Chico.

Fonte: Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”.

 

Iracema voou (Chico Buarque, 1998)

 

Iracema voou

Para a América

Leva roupa de lã

E anda lépida

Vê um filme de quando em vez

Não domina o idioma inglês

Lava chão numa casa de chá

 

Tem saído ao luar

Com um mímico

Ambiciona estudar

Canto lírico

Não dá mole pra polícia

Se puder, vai ficando por lá

Tem saudade do Ceará

Mas não muita

Uns dias, afoita

Me liga a cobrar:

— É Iracema da América

 

Assim como a minissérie Anos dourados, o filme For all, de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz, também foi apressadinho e não esperou a composição ficar pronta. “O filme foi finalizado em três ou quatro meses, e a música me pediu sete”, diz o autor. Mas Chico tomou emprestado o nome da personagem Iracema, uma moça que quer ir para a América — anagrama de Iracema —, para descrever os sonhos e dificuldades dos brasileiros nos Estados Unidos.

Fonte: Wagner Homem. “Histórias de canções: Chico Buarque”.

 

Sonhos sonhos são (Chico Buarque, 1998)

 

Negras nuvens

Mordes meu ombro em plena turbulência

A aeromoça nervosa pede calma

Aliso teus seios e toco

O exaltado coração

Então despes a luva para eu ler-te a mão

E não tem linhas tua palma

 

Sei que é sonho

Incomodado estou, num corpo estranho

Com governantes da América Latina

Notando meu olhar ardente

Em longínqua direção

Julgam todos que avisto alguma salvação

Mas não, é a ti que vejo na colina

 

Qual esquina dobrei às cegas

E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá

Que língua é essa em que despejo pragas

E a muralha ecoa

 

Em Lisboa

Faz algazarra a malta em meu castelo

Pálidos economistas pedem calma

Conduzo tua lisa mão

Por uma escada espiral

E no alto da torre exibo-te o varal

Onde balança ao léu minh’alma

 

Em Macau, Maputo, Meca, Bogotá

Que sonho é esse de que não se sai

E em que se vai trocando as pernas

E se cai e se levanta noutro sonho

 

Sei que é sonho

Não porque da varanda atiro pérolas

 

E a legião de famintos se engalfinha

Não porque voa nosso jato

Roçando catedrais

Mas porque na verdade não me queres mais

Aliás, nunca na vida foste minha

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s