Mídia Norte-Americana e o Viés da Auto Validação

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Nos EUA, a “grande mídia” assume sem disfarce suas posições ideológicas. Aqui finge que é democrática, imparcial, neutra… Lá a expressão “liberal” caracteriza a esquerda democrata, aqui “neoliberal” louva o livre-mercado, mas defende protecionismo estatal para si, é politicamente conservador e adota o golpismo!

Segundo Amir Labaki (Valor, 20/01/17), “Trump foi eleito pelo brucutu branco, pelo machão desesperado diante do avanço no poder das fatias mais progressistas da sociedade americana”. É natural que o presidente republicado tenha se vangloriado da maior votação relativamente ao previsto que recebeu de mulheres, negros e latinos. Nem todos os eleitores de todos os segmentos possuem tirocínio político.

De fato, Trump recebeu 42% do voto feminino, 8 % do afro-americano e 28% do latino. Mas foi mesmo o macho branco pouco escolarizado (67% pró-Trump) que lhe deu a maioria de votos necessária para, mesmo perdendo no total dos eleitores, vencer nos Estados que lhe garantiram a vitória no ultrapassado Colégio Eleitoral. Sua eleição representa a vitória do rancoroso subempregado e do rico inescrupuloso, do “bully” da déli, mas, sobretudo, do caipira da América profunda.

Trump venceu em 80% do total de cidades, sendo superado no total pela vantagem aberta por Hillary nos centros urbanos de maior porte. Foi lá que colou a mensagem antiestablishment e antiglobalização (nacionalismo mais xenofobia) de Trump. Que a roda da de história — 4a. Revolução Industrial com robótica e automatização — inviabilize suas promessas de reindustrialização à antiga pouco importou. “O descompromisso de Trump, com as próprias palavras, eleito como em campanha, escuda-se em um vale-tudo retórico blindado pelo oportunismo reacionário”.

Shannon Bond (FT, 19/01/17) informa que a Fox News, que surfou a onda de interesse em Donald Trump no ano passado, domina a busca por notícias entre os simpatizantes conservadores do presidente eleito, segundo uma nova pesquisa do Pew Research Center. Quarenta por cento dos eleitores de Trump disseram à Pew que sintonizaram o canal de notícias a cabo pertencente à 21a Century Fox, de Rupert Murdoch, para assistir à cobertura eleitoral — muito à frente de qualquer outra fonte de notícias.

A Fox News teve uma relação tumultuada com Trump durante sua campanha presidencial. A Fox beneficiou-se da audiência recorde dos debates entre os candidatos e da transmissão de comícios e discursos de Trump que frequentemente transmitiu, mas Trump também entrou em confronto com Megyn Kelly, ex-estrela apresentadora da rede, insultando-a via Twitter e criticando-a em uma entrevista à CNN.

Em meio a uma proliferação de fontes de notícias — algumas com divulgações falsas sob a aparência de relatos legítimos [“pós-verdade”, sic] — e a ascensão da “Breitbart News“, de extrema direita, a Fox News continua a ser um pilar do conservadorismo americano. Essa tendência ficou evidenciada em pesquisa anterior da Pew sobre polarização política e hábitos de consumo de mídia. Em um relatório de 2014, a empresa de pesquisa descobriu que 47% daqueles que expressaram opiniões políticas “sistematicamente conservadoras” citaram a Fox News como sua principal fonte de notícias sobre o governo e a política.

No outro lado do espectro político — o dos democratas –, a Pew descobriu que o consumo de mídia dos liberais é menos centrado em torno de uma única fonte. A nova pesquisa descobriu que nenhuma fonte foi citada como fundamental por mais de um em cada cinco eleitores de Hillary Clinton. A CNN foi a mais popular, como predileta de 18% dos partidários da ex-secretária de Estado, seguida pela MSNBC, com 9%.

Os resultados “espelham o que temos visto há anos”, disse Mike Barthel, pesquisador associado na Pew. “A despeito de toda conversa sobre este ter sido um tipo diferente de eleição, as pessoas reverteram a seus favoritos“, disse ele.

Embora cerca de um terço dos eleitores tenham dito ter consumido a maioria de suas notícias sobre a eleição via internet, nenhuma fonte individual de mídia digital apareceu entre as principais fontes noticiosas dos eleitores, seja de Trump como de Hillary.

O Facebook ficou em terceiro lugar, entre todos os eleitores, como fonte noticiosa principal, mas apenas 8% dos entrevistados disseram ter esta sido sua opção preferencial – um reflexo da predominância dos noticiários na TV paga. Mais da metade de todos os eleitores disseram ter acompanhado o noticiário eleitoral pela televisão, em um provável reflexo da ubiquidade da cobertura eleitoral em canais como a Fox News e a CNN.

Durante a maior parte da campanha, Trump recorreu menos à publicidade paga e aproveitou mais a exposição gratuita em canais pagos que transmitiram seus comícios e discursos, e frequentemente permitiram que ele fizesse declarações em seus programas.

O resultado foram picos de audiência dos canais noticiosos pagos. A Fox News prevaleceu sobre a ESPN como canal mais assistido no horário nobre pela primeira vez em seus 20 anos de história, segundo a Nielsen. A MediaQuant avaliou em US$ 4,6 bilhões a cobertura de Trump na TV paga e aberta.

Obs.:

Aqui, fora os órgãos da imprensa assumidamente conservadores de direita, como Veja e Estadão, os competidores O Globo e Folha de S.Paulo, esta muito mais do que aquele, buscam um disfarce de posicionamento “imparcial”. Curiosa é a diferença entre a TV Globo e a Globo News. Embora pertencendo ao mesmo grupo midiático, os comentaristas desta última expressam muito mais o conservadorismo do que os locutores do Jornal Nacional e sua cobertura jornalística. Compare e constate que, por incrível que pareça, esta é mais informativa do que aquela. Talvez seja devido à maior audiência e cobrança crítica.

2 thoughts on “Mídia Norte-Americana e o Viés da Auto Validação

  1. Na imprensa brasileira predomina a máxima do “politicamente correto” (???). Essa máxima, inclusive, foi combatida por Trump durante a campanha. Se o Brasil tem mania de copiar os EUA, está aí um bom incentivo: Imprensa, tire a máscara!

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