Dependência de Trajetória do Brasil

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Marco Aurélio Nogueira, na segunda parte da resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Retrato do Brasil, de autoria de Paulo Prado, publicada no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), prossegue na apresentação do seu diagnóstico, mostrando como a história pregressa ainda impunha certos determinantes independentemente das rupturas ou inovações advindas com a Independência, o Império e a República. Era ainda uma Nação estragada pelas heranças da colonização e da escravidão, sem experimentar progresso, seja econômico, seja social. Muito menos, civil e cultural.

Precisava ser reinventada, extrair de seu passado as condições que a particularizavam e que a ajudariam a se modernizar. Necessitava de novos parâmetros de investigação, de estilo e mesmo de linguagem, que se distanciassem tanto do “otimismo” patrioteiro quanto do conservadorismo negativista que só via defeitos e imperfeições. Prado rejeitava “o mal da eloquência balofa e roçagante”.

Seu programa intelectual era recompor as origens da nacionalidade através de uma “paixão pela história”, buscando entender como e por que chegamos a ser o que somos. Iria se entregar às pesquisas, inspirado no exemplo do historiador cearense Capistrano de Abreu, que nos anos 20 ainda operava como a grande referência dos estudos brasileiros. Haviam se conhecido nas rodas literárias patrocinadas por Eduardo Prado, tio de Paulo, por volta de 1918. Até 1927, quando morre Capistrano, mantiveram-se em contato estreito.

Por exemplo, dado que, aqui, encontravam-se todas as condições necessárias à “exaltação do seu prazer” – como, dentre outras, “os impulsos da raça, a malícia do ambiente físico, a contínua primavera, a ligeireza do vestuário, a cumplicidade do deserto e sobretudo a submissão fácil e admirativa da mulher indígena” – os colonos acabaram constituindo um modo de vida centrado no macho. A índia sensual nada mais era do que “uma simples máquina de gozo e trabalho no agreste gineceu colonial”. Fornecia a base para a definição da imagem e do status de todas as demais mulheres, que só cabiam no mundo patriarcal e machista se se reprimissem e anulassem.

Outra paixão ainda mais tirânica dominaria o colonizador: “a cobiça insaciável na loucura do enriquecimento rápido”, atiçado pela imagem de fazer a América como terra para se extrair tesouros imediatos. Para isso, entradas e bandeiras saíram do litoral para saquear os sertões, germinando, precariamente, um processo de exploração e povoamento. A corrida frenética atrás do ouro, da prata e das pedras preciosas resultava em alucinação e frustração. “Quando se dissipava a miragem da mina ficava como consolo o índio escravizado”.

No rastro do ouro, restaram uma lavoura incipiente e um comércio rudimentar, base de uma economia fechada ou doméstica. Os padres da Companhia de Jesus e os parasitas sedentários da burocracia metropolitana não tinham então onde mais sugar.

Os bandeirantes paulistas dominarão o pedaço, impondo o individualismo na integração do território. No anseio do enriquecimento, cometerão todos os crimes para satisfação das suas paixões carnais e metálicas. A eles também faltariam a perspectiva, o pessoal e o aparelhamento técnico indispensáveis a um empreendimento construtivo em longo prazo.

Durante dois séculos, o ouro foi somente miragem e ilusão. Só no século XVIII é que a situação se alteraria com a descoberta das minas riquíssimas das Gerais. No entanto, o ouro empobrecerá o País. Morria-se de inanição pelo abandono da cultura e da criação, devido ao frenesi de mineração desenfreada. A população branca vivia em indolência e, de fato, só negro trabalhava. Somavam a isso os abusos do clero e do fisco. Dada a submissão militar e econômica da corte metropolitana portuguesa, o ouro mineiro acaba financiando a revolução industrial inglesa.

Portugal arrancavam de suas colônias o que podia. Os portugueses queriam viver sem a necessidade de trabalhar. Legaram a um outro povo a língua natal e as peculiaridades raciais.

As bandeiras paulistas apresentariam sempre as características do auto interesse e da ambição, mas não “os estimulantes efetivos de ordem moral e os de atividade mental”. Não transformariam a riqueza conquistada em gozo e sim o sonho de enriquecimento fácil, acalentado por séculos, em meta sempre enganadora e fugidia.

Foi a partir da mescla desses “dois sentimentos tirânicos” – a luxúria e a cobiça – que se desenvolveu a história do Brasil. Dos “excessos de vida sensual” teriam ficado marcas profundas no caráter brasileiro, sobre as quais repercutiriam os efeitos da fascinação do ouro pronto a ser extraído do subsolo.

A vida da colônia seria moldada pelos efeitos do predomínio avassalador desses sentimentos. Entre esses apetites, sem outro ideal, seja religioso, seja estético, sem preocupação política, intelectual ou artística, forjou-se uma “raça triste”. Pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior, a exaltação dos instintos primários conduzia à melancolia dos abusos venéreos e à melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento. Ambas se juntaram sob forma de paixões insaciáveis na psique não racial, mas sim social. Post coitum animal triste, nisi gallus qui cantat [Após o coito os animais ficam tristes, salvo o galo que canta].

Mais do que um diagnóstico, Paulo Prado dá um veredito amargo e categórico sem se perguntar se essa “atmosfera especial” não teria já se alterado ou se poderia se modificar mais adiante. Em seu Retrato, o Brasil surgia indissoluvelmente atado ao passado colonial, sem dele conseguir se distanciar. Éramos tristes porque sempre o tínhamos sido, dado o excesso de nossas “perversões eróticas” e “cobiças pecuniárias”. Essas doenças mórbidas do espírito, combinadas com intensa vida sexual, “absorvem toda a energia física e psíquica” do brasileiro, incapacitando-o para o progresso.

A despeito de ser visível no livro a influência dos debates que, naquele tempo, exploravam as possibilidades de algum determinismo biológico, Paulo Prado não endossaria as explicações raciais, nem atribuiria qualquer valor negativo ao nosso cadinho de raças. Porém, a colônia erótica, melancólica e escravagista era um cenário de horrores.

O que dizer da vida nas cidades ou na corte? O Rio de Janeiro em 1820 era, segundo impressão de viajantes, “uma das mais imundas associações de homens debaixo do céu”. Impossível qualquer expressão de vida inteligente nesse contexto. Ao lado da população doente e extenuada, da cultura agrícola e pastoril atrasada, do clima amolecedor de energias, erguia-se a “indigência intelectual e artística”. A própria vida social era nula, pois, na realidade, não existia sociedade, mas “mera vida vegetativa”, mantendo-se apenas unida pelos “laços tênues da língua e do culto religioso”.

Paulo Prado também terá uma posição dura e inflexível contra o “romantismo”, termo com que se referia não tanto ao movimento artístico do século XIX, mas sobretudo a um estilo intelectual sonhador e egocêntrico, voltado para a grandiloquência e a retórica gratuita e pomposa. Na política, representou nada mais do que o “endeusamento do liberalismo verboso e sonoro”, importado e imposto a um país egresso de um longo colonato.

Pagaríamos também um preço pela transplantação da corte portuguesa, “um organismo vetusto e anacrônico”, sob o olhar deslumbrado da ingenuidade primária da população local. Daí o artificialismo da “comédia parlamentar” que se implantou com o Império.

Parlamentares saltam da vida material quase rústica para a vida institucional pretenciosa repleta de penduricalhos retóricos. Uma intensa movimentação intelectual tomaria curso, dando margem para “o aspecto anacrônico de gente viva falando uma língua morta”. O romantismo político se expressa nas mensagens-plataformas de governo, expressão do “palavroso” liberalismo e do governar como a arte de praticar um “habilidoso discursar”.

O romantismo iria grudar como praga no corpo da sociedade, modelando-a por inteiro. A tristeza do povo faria a “melancolia dos poetas”, obcecados por dois refrãos doentios: a morte e o amor.

A luxúria, a cobiça, a tristeza e o romantismo, combinando-se de maneira aleatória, haviam assim se incorporado ao modo de ser do brasileiro. Definiam seu caráter. Tinham sido aproveitadas pela elite mesquinha e incompetente como base para a consolidação de seu domínio.

Paulo Prado reconhecia a dependência de trajetória, ou seja, o peso modelador da experiência histórica, responsabilizando também os grupos dominantes do País por esse estado lastimável da Nação. Faltava apresentar algum programa de ação.

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One thought on “Dependência de Trajetória do Brasil

  1. Prezado Fernando,

    o Brasil foi triplamente sabotado: a primeira sabotagem ocorreu na época do descobrimento com o doutrinamento do povo indígena que recebeu somente o legado da idade média europeia: retrógrada, superficial e cheia de doenças e vírus de todos os tipos, o pior deles foi a crença em Deus.

    A segunda sabotagem foi causada pelo colonialismo, escravidão e pobreza de conhecimento. A população em crescimento não recebeu uma educação como deveria – pelo menos – nos moldes dos povos helênicos – no livro Paideia: sistema de educação e formação ética da Grécia Antiga, que incluía temas como Ginástica, Gramática, Retórica, Música, Matemática, Geografia, História Natural e filosofia, objetivando a formação de um cidadão perfeito e completo, capaz de liderar e ser liderado e desempenhar um papel positivo na sociedade. – Valorizavam a ciência, democracia, política, artes e o pensamento; longe disso, foram catequizados e a escuridão tomou conta da mente de todas as pessoas que viam no ambiente somente o desespero e sofrimento, causadores da melancolia.

    A terceira sabotagem foi auto infligida e começou em pleno século XX, não havendo evolução no modo de pensar, as pessoas apresentavam a mesma mentalidade da idade média e até hoje continua igual; nosso sistema educacional é retrógrado e precisa ser revisado e alterado o mais urgente possível.

    O povo de hoje com educação insuficiente e tratado por polícias públicas desastrosas se transformou em Zumbis: hospedeiro de vírus de todos os tipos. Leia esta matéria recente para comprovar o que estou dizendo: ES registra 217 casos de dengue na primeira semana do ano: http://sitebarra.com.br/2017/01/es-registra-217-casos-de-dengue-na-primeira-semana-do-ano.html

    As recomendações são sempre as mesmas: “Para se prevenir contra a doença é preciso adotar medidas de combate ao mosquito Aedes aegypti (Troll), também responsável por transmitir a febre chikungunya e o Zika Vírus.”

    No Brasil são milhões de pessoas infectadas por severas doenças e o culpado não é o mosquito. A culpa é degradação ambiental, falta de saneamento básico e o pior de tudo: o uso indiscriminado de veneno que mata os predadores naturais dos mosquitos que são: sapos, aranhas, pássaros, etc.

    Segundo o próprio Fiocruz é provável que metade da população seja infectada pelos novos vírus perigosos, SIC matéria: “http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-01/confusao-entre-diagnosticos-de-dengue-zika-e-chikungunya-preocupa-fiocruz Ao contrário da dengue e da zika, que já tiveram grande incidência em anos anteriores, a chikungunya encontrará uma população “virgem”, ou seja, sem imunidade ao vírus. A literatura médica aponta, segundo Britto, que é possível que a “taxa de ataque” da doença em situações como esta possa ser de 30% a 50% da população, mas que ainda se conhece pouco do comportamento do vírus.”

    Pra falar bem a verdade nem o Fiocruz sabe o que fazer, é por isso que estão usando o TROLL Aedes aegypti, como um bote expiatório para disfarçar a incompetência da saúde pública no Brasil. Abs.

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