Economia em Letras de Música: Desigualdade e Criminalidade

Os compositores brasileiros de rap, um dos componentes da cultura hip-hop, dizem que é o único gênero musical que reúne multidões para falar de consciência social. Leia: diferença entre hip-hop e rap.

Há seis pilares essenciais na cultura hip hop:

  1. o rap, cujo significado literal é ritmo-e-poesia,
  2. o DJing,
  3. a breakdance,
  4. a escrita do grafite,
  5. a moda hip hop e
  6. as gírias, inclusive a popular ausência de concordância verbal e nominal.

Uma co-produção internacional entre a brasileira 13 Produções, a dinamarquesa Rosforth e a sueca Stocktown, o documentário Favela no Ar (acima) retrata o despertar do jovem pobre paulistano para a consciência social. Identifica “a vida que imita a arte” com “a arte que imita a vida”. É o capítulo paulistano da história cultural do rap nacional na voz de seus principais expoentes.

Mostra a auto-recuperação de Dexter e Afro-X por meio do rap, a última entrevista gravada de Sabotage, o fortalecimento do movimento hip-hop com a sigla 4PPoder Para o Povo Preto, o dilema da exposição na mídia no entender de KL Jay e no contraponto informado de Xis, o poder transformador do hip-hop como movimento local na voz do RZO… Favela no Ar marca a batida deste movimento de muitos movimentos.

Quer entender o povo brasileiro? Ouça sua expressão musical — e leia suas letras!

Lista de Economia em Letras de Música:

  1. MV Bil – Soldado do Morro (1999)
  2. Racionais MC’s – Vida Loka (Partes 1 e 2)
  3. Racionais MC’s – Capitulo 4 Versiculo 3 (1997)
  4. Sabotage – Rap é Compromisso (2000)
  5. Emicida – Levanta e Anda

Obs.1: nesta música, Emicida canta:

Esses boy conhece Marx
Nós conhece a fome
Então cerra os punho, sorria
E jamais volte pra sua quebrada de mão e mente vazias

Obs.2: Nos anos 50, a moda na Jamaica era dançar ska, uma mistura de ritmos caribenhos com jazz e blues. Os DJs pegavam o microfone e soltavam frases improvisadas, inclusive comentários sociais, enquanto tocavam a musica do vinil. Eles ficaram conhecidos como “Mestre de Cerimônias” por serem os responsáveis por manter o ritmo da festa coletiva. Assim, as iniciais MC começaram a preceder o nome, como um título.

Soldado do Morro (MV Bill)

Minha condição é sinistra não posso dar rolé

Não posso ficar de bobeira na pista

Na vida que eu levo eu não posso brincar

Eu carrego uma nove e uma HK

Pra minha segurança e tranquilidade do morro

Se pa se pam eu sou mais um soldado morto

Vinte e quatro horas de tensão

Ligado na policia bolado com os alemão

Disposição cem por cento até o osso

Tem mais um pente lotado no meu bolso

Qualquer roupa agora eu posso comprar

Tem um monte de cachorra querendo me dar

De olho grande no dinheiro esquecem do perigo

A moda por aqui é ser mulher de bandido

Sem sucesso mantendo o olho aberto

Quebraram mais um otário querendo ser esperto

Essa porra me persegue até o fim

Nesse momento minha coroa ta orando por mim

É assim demorou já é

Roubaram minha alma mas não levaram minha fé

Não consigo me olhar no espelho

Sou combatente coração vermelho

Minha mina de fé tá em casa com o meu menor

Agora posso dar do bom e melhor

Varias vezes me senti menos homem

Desempregado meu moleque com fome

É muito fácil vir aqui me criticar

A sociedade me criou agora manda me matar

Me condenar e morrer na prisão

Virar noticia de televisão

Seria diferente se eu fosse mauricinho

Criado a sustagem e leite ninho

Colégio particular depois faculdade

Não, não é essa minha realidade

Sou caboquinho comum com sangue no olho

Com ódio na veia soldado do morro

 

Feio e esperto com uma cara de mal

A sociedade me criou mais um marginal

Eu tenho uma nove e uma HK

Com ódio na veia pronto para atirar(2x)

 

Um pelo poder dois pela grana

Tem muito cara que entrou pela fama

Plantou na boca tendo outra opção

Não durou quase nada amanheceu no valão

Porque o papo não faz curva aqui o papo é reto

Ouvi isso de um bandido mais velho

Plantado aqui eu não tenho irmão

Só o cospe chumbo que tá na minha mão

Como pássaro que defende seu ninho

Arrebento o primeiro que cruzar meu caminho

Fora da lei chamado de elemento

Agora o crime que dá o meu sustento

Já pedi esmola já me humilhei

Fui pisoteado só eu sei que eu passei

Eu tô ligado não vai justificar

Meu tempo é pequeno não sei o quanto vai durar

É pior do que pedir favor

Arruma um emprego tenho um filho pequeno, seu doutor

Fila grande eu e mais trezentos

Depois de muito tempo sem vaga no momento

A mesma história todo dia é foda

É isso tudo que gera revolta

Me deixou desnorteado mais um maluco armado

Tô ligado bolado quem é o culpado?

Que fabrica a guerra e nunca morre por ela

Distribui a droga que destrói a favela

Fazendo dinheiro com a nossa realidade

Me deixaram entre o crime e a necessidade

 

Feio e esperto com uma cara de mal

A sociedade me criou mas um marginal

Eu tenho uma nove e uma HK

Com ódio na veia pronto para atirar (2x)

 

A violência da favela começou a descer pro asfalto

Homicídio sequestro assalto

Quem deveria dar a proteção

Invade a favela de fuzil na mão

Eu sei que o mundo que eu vivo é errado

Mas quando eu precisei ninguém tava do meu lado

Errado por errado quem nunca errou?

Aquele que pede voto também já matou

Me colocou no lado podre da sociedade

Com muita droga muita arma muita maldade

Vida do crime é suicídio lento

Bangu 1 2 3 meus amigos lá dentro

Eu tô ligado qual é.. sei qual é o final

Um saldo negativo.. menos um marginal

Pra sociedade contar um a menos na lista

E engordar a triste estatística

De jovens como eu que desconhecem o medo

Seduzidos pelo crime desde muito cedo

Mesmo sabendo que não há futuro

Eu não queria tá nesse bagulho

Já tô no prejuízo um tiro na barriga

Na próxima batida quem sabe levam minha vida

Eu vou deixar meu moleque sozinho

Com tendência a trilhar meu caminho

Se eu cair só minha mãe vai chorar

Na fila tem um monte querendo entrar no meu lugar

Não sei se é pior virar bandido

Ou se matar por um salário mínimo

Eu no crime ironia do destino

Minha mãe tá preocupada seu filho está perdido

Enquanto não chegar a hora da partida

A gente se cruza nas favelas da vida

 

Feio e esperto com uma cara de mal

A sociedade me criou mas um marginal

Eu tenho uma nove e uma HK

Com ódio na veia pronto para atirar

Feio e esperto com uma cara de mal

A sociedade me criou mas um marginal

Eu tenho uma nove e uma HK

Com ódio na veia pronto para atirar

 

Feio e esperto com uma cara de mal

A sociedade me criou mais um marginal

Eu tenho uma nove e uma HK

Com ódio na veia pronto para atirar (3x)

 

 

 

 

4 thoughts on “Economia em Letras de Música: Desigualdade e Criminalidade

  1. O ódio e a revolta sempre se voltam contra aqueles que também são vítimas da elite política e econômica do país. No frigir dos ovos, a violência recai contra a classe média e contra os pobres não engajados em facções. A classe extrativista é eficiente em estabelecer mecanismos para lidar com a tragédia dos 99%. Faz pouco sentido essa consciência da própria circunstância sem que se entenda o mecanismo a mudança e sem que se identifique as peças que a impedem.

    1. Prezado Léo,
      há várias hipóteses sobre “o mecanismo da mudança”, desde a fé cega na “revolução”, que gerou regimes totalitários, até a crença no gradualismo das conquistas sociais da cidadania (direitos e deveres) consolidadas em longo prazo.

      Aquela crê em um único sujeito revolucionário: a vanguarda iluminada/ilustrada que dirigiria a massa ignara. Esta última critica essa nomenclatura em um partido único e avalia que a história importa, ou seja, há uma dependência de trajetória em que alianças entre castas, especialmente sob a liderança dos sábios-intelectuais/tecnocratas e dos trabalhadores organizados, levaria à sustentação das conquistas.

      Naturalmente, essa história não é retilínea, determinista rumo a um futuro otimista, mas sim sujeita a avanços e retrocessos, golpes e contragolpes.

      Avante! Não desistamos!

      1. Concordo, professor! Os mecanismos de mudança são variados (alguns ainda desconhecidos, possivelmente). Mas já sabemos que mudanças institucionais importantes podem decorrer não apenas da criação/eliminação das regras e normas (rupturas).

        De fato, mudanças mais sutis (pequenas emendas) ou na forma de interpretá-las ou aplicá-las também pode transformar a distribuição de seus efeitos/resultados. Nisso a dinâmica das crenças e das visões que se tem acerca dos problemas e soluções para o país joga papel fundamental.

        Quando as coalizões mais conservadoras e egoístas notaram que poderiam lucrar mais com o retrocesso das mudanças em curso desde 2005, a mídia foi recrutada para operar a ‘lavagem cerebral’. Nesse sentido, eu suspeito que os paneleiros da moralidade/camisas 10 da seleção não são exatamente os promotores/executores de nosso retrocesso institucional.

        É nesse sentido que eu preferia que o RAP reposicionasse sua crítica. Acredito que essa ‘classe média paneleira’ tenha sucumbido tão facilmente ao storytelling da moralidade porque foi mal compreendida e mal rotulada por parte da esquerda – a até mesmo moralmente assediada (vide declarações infelizes da Presidente).

        Nada serve de desculpa a nossa estupidez, mas parece pertencer à classe média a honra de ter estruturado a esquerda brasileira contemporânea. Por mais que queira mimetizar a vida glamurosa da elite (e isso já não é mais privilégio dela – vide funk ostentação), não se deveria renunciar à classe média no projeto de transformação de crenças/visões que antecede a mudança institucional. Penso que ela mereça a mesma paciência dispensada a qualquer outra classe/casta.

      2. Prezado Léo,
        estou de acordo contigo.

        Tenho feito um esforço de releitura da História do Brasil sob o ponto de vista de castas, colocando o foco não só na estratificação social por classes de renda e/ou riqueza, mas também em valores.

        As castas não só buscam o interesse próprio e a vantagem econômica. Cada qual defende certa ordem moral, que procura impor às demais.

        Quando não restringe seus domínios, a ordem vigente se torna menos inclusiva. Então, as outras castas se realinham e golpeiam a casta hegemônica.

        No caso recente, foi golpeada a aliança social-desenvolvimentista entre a casta dos sábios-tecnocratas e a dos trabalhadores-organizados.

        Dilma, que compartilhava os valores da casta dos sábios-tecnocratas – educação e especialização –, composta por administradores e técnicos, transparecia também a presunção arrogante típica dos especialistas face aos políticos profissionais: perdeu o apoio da maioria do Congresso.

        Errou mais ao apelar para um membro da casta dos mercadores-financistas, como Joaquim Levy, que provocam a instabilidade econômica e a elevação das desigualdades.

        Lula compartilha com a casta dos trabalhadores-organizados o espírito corporativista que exclui “os de fora” – e provoca ódio dos excluídos politicamente.

        Estes atiçam a casta dos guerreiros-policiais com suas guerras intermináveis por honra e vingança.

        A casta dos aristocratas do Poder Judiciário, que ocupam cargos quase vitalícios, tem como valor supremo o paternalismo protetor em relação ao povo imaturo. Eles cultivam a diferença e o respeito mais a si mesmo do que à “justiça cega” não discriminativa.
        att.

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