Fascismo na Tropicalização Antropofágica Miscigenada

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Nos últimos tempos, tem-se desenvolvido um novo tipo de abordagem do fascismo que tem como referência o esquema teórico da modernização. Considera os regimes fascistas como uma das formas político institucionais através das quais se operou historicamente a transição de uma sociedade agrária de tipo tradicional à moderna sociedade industrial.

As análises que antecedem — se excetuarmos a tentativa de explicar a implantação do Fascismo na Itália baseada no atraso geral da sociedade italiana — possuem um aspecto comum que é o de situarem os regimes fascistas em um contexto caracterizado, em seu conjunto, por uma situação de avançada industrialização.

São indicadores de um tipo de sociedade que já passou total ou parcialmente à modernidade:

  1. a dinâmica existente entre massas e elites,
  2. o conflito entre a grande burguesia e o proletariado no estágio imperialista do capitalismo, assim como
  3. a revolta das classes médias emergentes.

Até os fenômenos de natureza mais estritamente política, que são relacionados com o surgir dos movimentos e regimes fascistas, são típicos de um sistema democrático plenamente consolidado, seja que se acentuem as suas contradições internas, como pretende a análise marxista, seja que se descubra nele o terreno específico onde tais movimentos podem nascer e desenvolver-se, como quer a teoria do totalitarismo.

A análise do Fascismo à luz das teorias da modernização coloca-o, ao invés, não já em relação com os conflitos e crises próprios da sociedade industrial, mas com os conflitos e crises característicos da fase de transição para ela. Neste quadro, os regimes fascistas se configuram como uma das vias para a modernização — as outras historicamente identificadas são a liberal-burguesa e a comunista — fundada no compromisso entre o setor moderno e o tradicional.

Os traços que os caracterizam são:

  1. na esfera econômica, uma industrialização atrasada, mas intensa, promovida desde cima, com notável interferência do Estado a favor da acumulação;
  2. na esfera política, o desenvolvimento de regimes autoritários e repressivos, expressão da coligação conservadora das elites agrárias e industriais que querem avançar pelo caminho da modernização econômica, defendendo, ao mesmo tempo, as estruturas sociais tradicionais;
  3. na esfera social, a tentativa de evitar a desagregação dessas estruturas, impedindo ou reprimindo os processos de mobilização social postos em movimento pela industrialização.

Em contraste com as interpretações precedentes, cada uma delas enquadrada em uma perspectiva teórica bem definida a cuja luz se elaboraram hipóteses relativamente homogêneas acerca da natureza e função dos regimes fascistas, as análises, que têm posto em evidência a ligação entre a pequena burguesia e o Fascismo, jamais alcançaram uma autonomia que as impusesse como alternativa interpretativa global. Não obstante, são mencionadas, quer pela contribuição específica que trouxeram ao conhecimento de aspectos decisivos para a compreensão do fenômeno, quer pela função de estímulo que exercem com relação a esquemas teóricos demasiado simplificados.

O fato de que a pequena burguesia pudesse contribuir de modo determinante para o sucesso dos movimentos fascistas, fornecendo-lhes os quadros e as bases de massa na fase de ascensão e um consenso ativo na fase de regime, não entrava nos esquemas clássicos, nem nos da teoria liberal, nem nos do marxismo:

  1. para a teoria liberal, a pequena burguesia constituía um dos pressupostos do sistema democrático e a garantia de um desenvolvimento pacífico e gradualmente progressivo da sociedade;
  2. para o marxismo, ela estava impossibilitada de exercer um papel político autônomo em virtude da sua colocação dentro da estrutura de classes e da sua posição subalterna no respeitante ao conflito fundamental entre a grande burguesia e o proletariado.

Em coerência com tais esquemas, a contribuição da pequena burguesia para o triunfo dos movimentos fascistas:

  1. ou é negada, como na teoria do totalitarismo, em benefício da relação entre as massas não diferenciadas e as elites,
  2. ou então concebida em termos instrumentais, sendo atribuída à pequena burguesia a função de massa de manobra de um movimento a serviço dos desígnios do grande capital, como acontece na teoria do Fascismo como ditadura da burguesia.

As contribuições de maior relevo orientam-se em dois sentidos.

  1. Estudaram, por um lado, mais profundamente as características da ideologia fascista, particularmente as da versão alemã, e a sua capacidade de canalizar o ressentimento da pequena burguesia para objetivos fictícios, a troco, as mais das vezes, de satisfações simbólicas.
  2. Distinguiram, por outro lado, um nível de análise intermediário entre situação e ação de classe, como o da personalidade, inferindo a importância das estruturas de socialização — principalmente da família — como sede de formação e de reprodução de estruturas psíquicas consentâneas com a ideologia das classes ou elites dominantes.

No que respeita à função, dirigente ou subalterna, da pequena burguesia dentro do sistema de poder fascista, embora pareça hoje já bastante provado e debatido o papel que ela desempenhou como base de massa dos movimentos fascistas, apresenta-se ainda como problemática a tentativa de mostrar o Fascismo, enquanto regime, como expressão da pequena burguesia no poder.

Em outras palavras, os recalcados com menor autoestima pela “proletarização da classe média”, psicologicamente sensíveis à mobilidade social daqueles proletários que tinham menor status, não se tornarão “superiores” com suas atitudes fascistas. Somente no plano de seu “imaginário social” haverá possibilidade de sua ascensão com o rebaixamento dos demais “competidores” no mercado de trabalho, destacadamente, os imigrantes ou “outros diferentes”, seja pela cultura-ideológica, seja pela liberdade individual de dispor de seu próprio corpo e/ou mente.

A autonomia, ou seja, a capacidade de autogovernar-se, de dirigir-se por suas próprias leis ou vontade própria, que enxergam em outros, não dispõem em si, parece ser o que mais incomoda nos neofascistas contemporâneos.

Os tupiniquins, em especial, abusam do discurso da servidão voluntária, submetendo-se à ordem unida na vã esperança do progresso idealizado, mas não realizado dentro dos marcos estritos de uma “economia de livre-mercado”. Contraditoriamente, na Tropicalização Antropofágica Miscigenada, as ideias fora-do-lugar porcamente deglutidas e expelidas aqui levam neoliberais adotarem atitudes neofascistas!

Leia mais:

Como conversar com um fascista

Neofascistas da Rede Social: Analfabetos Políticos

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