Projeto para o Brasil

painel-retrato-do-brasil

Compare o lindo mural acima com o horroroso Retrato Atual do Brasil abaixo (“Doria Grey”):

doria-grey

Marco Aurélio Nogueira, na última parte da resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Retrato do Brasil, de autoria de Paulo Prado, publicada no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), pergunta-se: como Paulo Prado imaginava a ruptura daquela situação inaceitável?

Isso exigia muito mais do que o apelo a valores ou a reiteração de velhos procedimentos reformadores. Na realidade, o que acontece na história é o resultado da ação humana, mas não a execução de algum plano humano.

A convicção de que é necessário “tomar as rédeas da história” e reorientá-la de acordo com as “soluções que atendem objetivos superiores” é uma atitude que caracteriza a pela incapacidade de intelectuais brasileiros reformistas ou normativos “entender o futuro como história”, isto é, como resultante de uma pluralidade de ações. A cadeia lógica das transformações econômicas se prolonga em direção ao futuro. O presente deve ser entendido como história e o futuro também. Não se pode imaginar um futuro substancialmente diferente, simplesmente, por força de ideias individuais inteligentes.

Todas as opções e decisões que impliquem em mudança de rota histórica, que procurem novos caminhos para a história, só ganham existência real na medida em que são formuladas e socialmente reconhecidas como próprias de um “sujeito” (grupo, classe social ou casta ocupacional) que tenha inserção no sistema, força, influência, etc.

O momento em que se coloca essas opções também é chave. A resistência à introdução de mudanças é mais tênue nas encruzilhadas históricas. Estas são atingidas somente quando a evolução histórica cruza os problemas sociais com os problemas econômicos. Infelizmente, os problemas sociais não têm impedido o funcionamento e a expansão do sistema capitalista no Brasil. Na verdade, só completaram o difícil trajeto que vai do papel à realidade aqueles programas e proposições sugeridos pelas próprias dificuldades encontradas por esse sistema em evolução.

Paulo Prado temia o que boa parte dos analistas da época considerava uma espécie de risco iminente: o desmembramento do País, sua desaparição como um todo uno, por força de:

  1. a incúria governamental e
  2. a ação das oligarquias autônomas em seus estados/províncias que enfraqueciam o Estado Nacional.

A revolução em que pensava Paulo Prado teria de vir de modo a poder “a afirmação inexorável de que, quanto tudo está errado, o melhor corretivo é o apagamento de tudo o que foi malfeito”. Seria um processo de modificações radicais que transformaria não só:

  1. o aparelho político e financeiro, mas também
  2. os antigos valores materiais e espirituais.

O Brasil, porém, estaria preparado para dar salto e se deixar envolver pela nova dinâmica? Paulo Prado via o país mergulhado na “mais completa ignorância do que se passa pelo mudo afora”. O Brasil não percebia o desastre que se aproximava – estava de uma conjuntura anterior à crise de 1929 –, pois estava ainda seduzido:

  1. pelo “embalo dos discursadores”,
  2. pelas “teorias dos doutrinários”, e
  3. pela “enganadora segurança dos que monopolizavam as posição de domínio e proveitos”.

Como então caminhar para a renovação total? Retrato do Brasil chegaria ao fim sem responder ao dilema que nascia de suas próprias proposições. Dele ficará:

  1. um vago elogio ao cidadão revolucionário e
  2. uma moderada, como que vacilante, aposta no futuro, simplesmente, “porque não pode ser pior que o passado”!

Dois anos depois de escritas as frases conclusivas do Retrato do Brasil ocorreu a Revolução de 1930. Paulo Prado não aplaudiu com entusiasmo a revolução. Foi fisgado pelo “paulistismo”, que levaria a:

  1. a movimentação constitucionalista de 1932 e
  2. uma oposição visceral ao varguismo.

Redigiu editoriais criticando duramente o governo do “ditador” Vargas pela suspensão das garantias constitucionais.

Retrato do Brasil não foi mais reeditado por ele. Em dezembro de 1938, um infarto o derrubou no Rio de Janeiro. Morreu, em 1943, de um ataque cardíaco.

Quase todos os críticos se assustaram com o que se consagraria como “o pessimismo do livro”. Viram-no como um libelo apaixonado, mas nem sempre rigoroso. Diziam que as teses centrais do livro não eram consistentes, não se sustentando no plano analítico. Demonstrava um certo “preconceito” contra atributos tidos como típicos de “o brasileiro” como a preguiça, a luxúria, a cobiça, o romantismo, tais como observavam viajantes estrangeiros.

Nelson Werneck Sodré associou o livro de Paulo Prado ao “retrato de uma classe” – e não do Brasil. Afirmou que ele espelhava a “ideologia do colonialismo” ou do “processo de transplantação cultural”. Para ele, “o pessimismo inerente ao livro refletia uma visão negativa do povo, inferiorizado por suas origens, e traduzia o desespero burguês ante a falta de perspectiva história para a sua classe”. Em outras palavras, o livro foi avaliado como a confirmação de uma doutrina dogmática preconcebida quanto ao autor…

Porém, o próprio aliado Oswald de Andrade diria que o Retrato do Brasil era um verdadeiro “glossário histórico de Macunaíma”, mas cometia um erro crucial nas partes dedicadas à luxúria e à cobiça, que são “a repetição de todas as monstruosidades do julgamento do mundo ocidental sobre a América descoberta”. Classifica-o como um livro “pré-freudiano” ao não perceber que “a luxúria brasileira não pode ser julgada pela moral dos conventos inacianos”.

Sérgio Milliet insistiria no lado mais problemático da análise de Paulo Prado: a tristeza doentia é um diagnóstico apressado em que não entram nem os fatores econômicos nem as condições biológicas. Preocupa-se em se mostrar mais otimista, não apenas porque o futuro não pode ser pior que o passado, mas porque o presente já permite alguma confiança.

A verdade é que Retrato do Brasil ignorou toda a mudança efetiva que se sentia no Brasil, não justificando apresentar o Brasil contemporâneo como uma extensão passiva da colônia. Seguiu um modelo impressionista em que desapareceram quase por completo a cronologia e os fatos históricos.

O programa político implícito no livro era incompleto, já que foi construído muito mais a partir da intuição do que da compreensão profunda das tendências e das possibilidades do presente. Deixou de lado, quase ocultos, os temas e problemas que dominariam os anos 20 e 30 do século XX:

  1. a organização da massa popular;
  2. a defesa de um Estado desenvolvimentista;
  3. a conquista de uma democracia eleitoral;
  4. a passagem do Brasil rural para o Brasil urbano-industrial.

Na fase final de sua vida, já não o apaixona como antes a vida cultural. Nada mais lhe parecia fazer muito sentido. Com a ditadura do Estado Novo, a vida dos intelectuais se tornou mais difícil. O escritor capitularia frente à mescla de:

  • autoritarismo estatal e mobilização popular,
  • regime ditatorial e progresso material.

Esta realidade escapava de todo e qualquer esquema mental desprovido de recursos efetivos de intervenção.

Marco Aurélio Nogueira conclui sua bela resenha indicando: “as belas ideias teriam de sujar as mãos no chão duro da política se quisessem prevalecer e jogar um papel”.

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