Casa Grande & Senzala

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Elide Rugai Bastos, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Casa Grande & Senzala, de autoria de Gilberto Freire.

Publicado em 1933, Casa Grande & Senzala compõe, com Sobrados & Mocambos e Ordem & Progresso, a trilogia denominada pelo autor de “Introdução à História da Sociedade Patriarcal no Brasil”:

  1. o primeiro volume dedica-se ao estudo da formação da família brasileiro em regime de economia patriarcal;
  2. o segundo, à decadência do patriarcado rural e ao desenvolvimento das cidades;
  3. o terceiro à desintegração da sociedade patriarcal no quadro da transição do trabalho escravo para o trabalho livre.

Os textos enfocam períodos diferentes da história brasileira, respectivamente, Colônia, Império e República.

Escrito três anos depois das alterações políticas de 1930, Casa Grande & Senzala se insere no debate sobre a formação nacional para a formulação do cenário político em que a centralização administrativa altera o lugar não apenas das regiões como dos grupos que exercem o poder local e regional. O planejamento das políticas públicas demandava uma definição do público alvo de cada qual, isto é, o conhecimento mais profundo da sociedade brasileira.

Nesse cenário, o livro responde a questões tais como as seguintes.

  • Quem é o povo brasileiro?
  • Podemos falar de uma unidade nacional?
  • Podemos pressupor a existência de uma cultura brasileira?
  • Esse perfil corresponde às exigências da civilização ocidental e, portanto, o Brasil pode figurar no concerto geral das nações?

A louvação do povo e da cultura brasileira feita por Gilberto Freire faz contraponto principalmente com as críticas de Oliveira Viana e Paulo Prado. Ele estabelece uma polêmica a respeito de:

  1. a questão racial,
  2. o determinismo geográfico e
  3. o papel desempenhado pelo patriarcado na configuração da sociedade brasileira.

Nascido em Pernambuco, em 1900, tendo estudado nos Estados Unidos e, posteriormente, na Europa, adquiriu formação em Sociologia na Universidade de Colúmbia e em Oxford. Com esse conhecimento erudito, esse membro da casta dos sábios-intelectuais “bem-nascidos” pode fazer uma inovação metodológica, usando uma base documental diferente das convencionais utilizadas por historiadores, arrolando dados colhidos em diários íntimos, cartas, livros de viagens, folhetins, autobiografias, confissões, depoimentos pessoais, escritos e orais, livros de modinha e versos, cadernos de receitas, romances, notícias e artigos de jornais. Por meio deles reconstituirá a vida íntima dos componentes da sociedade patriarcal, recuperando a história da vida privada cotidiana no complexo agrário-industrial do açúcar.

De leitura aparentemente fácil e agradável, Casa Grande & Senzala não dá a perceber, de imediato, sua temática nuclear, dadas as inúmeras notas, sustentando a argumentação por meio de documentos e indicação bibliográfica, além de ilustrações. O leitor pode se perder dentro da sua narrativa em espiral de suas 44 páginas de prefácio e 520 de exposição. A forma muitas vezes encobre a tese.

Sua concepção sobre a sociedade brasileira fundamenta-se na articulação de três elementos:

  1. o patriarcado,
  2. a interpenetração de etnias e culturas e
  3. o trópico.

Esses marcos definidores da formação nacional correlacionam-se, de modo que cada um deles encontra sua explicação no cruzamento com os dois outros. Da combinação resultam as diferentes teses que fundamentam a explicação da sociedade brasileira.

Gilberto Freire faz a recuperação dos usos e costumes do povo, para encontrar neles as raízes culturais e sua relação com os grupos formadores da sociedade brasileira. Ao contrário de outros autores, a diferença entre raça e cultura orienta sua interpretação, seja quando trata do tema miscigenação, seja quando se preocupa com o destino do Brasil. Busca soluções para “questões seculares”.

Destacam-se dois eixos explicativos:

  1. a discriminação entre os efeitos da herança racial e os de influência social, cultural e de meio;
  2. o peso do sistema de produção econômica sobre a estrutura da sociedade.

A partir deles, ao examinar a sociedade brasileira, aponta para o fato de serem condicionantes fundamentais das relações existentes entre brancos e não-brancos:

  1. a monocultura latifundiária do açúcar e
  2. a escassez de mulheres brancas.

Duas forças operam:

  1. do modelo econômico resulta uma dominação patriarcal não apenas sobre a família e os escravos, mas também sobre os agregados e os homens livres;
  2. da escassez de mulheres brancas resulta a possibilidade de “confraternização entre vencedores e vencidos”, gerando-se filhos do senhor com a escrava, operando a miscigenação como corretor da distância social “entre a Casa Grande e a mata tropical”, ou seja, entre a Casa Grande e a Senzala.

Em outros termos, as possibilidades de a sociedade brasileira, em sua estrutura, extremar-se entre senhores e escravos foi contrariada pelos efeitos sociais da miscigenação, agindo esta no sentido de “democratização social” no Brasil.

A Casa Grande figura o sistema patriarcal de colonização portuguesa do Brasil, sistema de contemporização entre tendência aparentemente conflitantes:

  1. o colonizador tentando impor as formas europeias à vida nacional,
  2. o colonizado funcionando como adaptador dessas formas ao meio ambiente natural.

Nesse sentido, a Casa Grande opera como centro de coesão social:

  1. representa todo um sistema econômico, social e político e
  2. age como ponto de apoio para a organização nacional.

É o modo pelo qual se realiza o caráter estável da colonização portuguesa de marca agrária, sedentária, plástica e harmoniosa. Por isso, na formação nacional, a Casa Grande representou papel marcante, vencendo a Igreja e, em certos momentos, até mesmo o Estado.

O estudo da Casa Grande acaba por ser “a história íntima de quase todo o brasileiro”. Foi aí “que se exprimiu o caráter brasileiro: a nossa continuidade social”. Daí o título:

  • Casa Grande é o símbolo de um status – o de dominação;
  • Senzala – o de subordinação ou submissão;
  • o & entre as duas palavras é símbolo da interpenetração, mostra “a dinâmica democratizante com corretivo à estabelecida hierarquia”.

Em outras palavras, para Gilberto Freire, no Brasil  não se realizam as formas tradicionais de dominação, havendo uma inversão do processo, mudando-se os sinais que alocam socialmente os indivíduos. Este é o mito da democracia social e da harmonia racial, pregado pelos dominadores da Casa Grande para controle dos dominados da Senzala…

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