Processo de Colonização Portuguesa no Trópico: Trabalho versus Aventura

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O que teria tornado os portugueses tão bem-sucedidos em civilizar o Trópico? Quais foram as razões do fracasso da colonização holandesa? Brasílio Sallum Jr., no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenhando o livro clássico da historiografia brasileira, Raízes do Brasil, responde a essas questões conforme Sérgio Buarque de Holanda.

Ele atribui boa parte do sucesso português às suas particulares inclinações de conduta ou às “determinantes psicológicas” do seu movimento de expansão colonial. Sua singularidade histórica é demarcada através da construção de dois tipos sociais contrapostos, expressões de formas divergentes de orientação das atividades humanas que se relacionam à transformação do mundo material:

  1. o do aventureiro e
  2. o do trabalhador.

O aventureiro valoriza tanto o objetivo final que os meios lhes parecem secundários, quase supérfluos; o trabalhador, pelo contrário, concentra-se mais nos meios, na dificuldade a vencer, do que no objetivo a alcançar – os instrumentos e não o fim.

O aventureiro ignora as fronteiras, vive dos espaços ilimitados, mas quer suprimir o tempo, sua paixão é o resultado imediato; o trabalhador, ao invés, persiste em seu esforço mesmo quando o resultado custa a ser atingido, sua percepção de espaço é restrita, concentra-se na parte, evitando desperdiçar os meios.

Essas disposições de condutas se encarnam em éticas distintas. Do ponto de vista do mercador aventureiro, são desprezíveis os esforços que não visam um proveito material imediato, usufruindo da Lei de Ouro do Comércio: comprar onde está barato e vender onde está caro.

  • Para a ética da aventura, não há nada mais estúpido do que o ideal do trabalhador: agregar valor via transformação da matéria-prima com o trabalho criativo – e não parasita.
  • Para a ética do trabalho, é imoral tudo o que se relaciona com a concepção aventureira e espaçosa de mundo: a audácia, a imprevidência, a instabilidade e o imediatismo.

Esses tipos sociais permitem identificar as disposições de conduta predominantes nas sociedades. Na época da conquista e colonização dos novos mundos, o trabalhador teria tido um papel muito pequeno, ao contrário do aventureiro. Nisto, Sérgio Buarque tem uma visão antagônica à do Gilberto Freire:

  • para Buarque, teria predominado, nas conquistas das Américas, o tipo aventureiro entre portugueses, espanhóis e ingleses;
  • para Freire, teria predominado aqui uma miscigenação entre etnias de povos distintos que aqui, aliás como nos Estados Unidos, que possibilitou a expansão produtiva das grandes plantations agrícolas.

O espírito de aventura teria sido, expresso pela ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos e de riqueza fácil, que não custa trabalho, característico da colonização portuguesa. Foi este espírito que orientou a colonização, estimulando os portugueses a se adaptarem às circunstâncias, a copiarem o que já estava feito ou as rotinas comprovadas em etnias dos outros povos, indígenas e/ou africanos.

No entanto, mais do que copiar, a colonização tendeu a ser perdulária em relação aos meios de que dispunha. A ninguém ocorria recuperar solos gastos; a regra era os lavradores buscarem novas terras, mato adentro. Até hoje a sequência habitual é: desmatamento-pecuária extensiva-plantação.

A mesma transitoriedade e o mesmo amor ao ganho fácil dominavam também os ofícios urbanos. Poucos indivíduos dedicavam-se a vida inteira a uma só atividade sem se deixar atrair por outro negócio aparentemente mais lucrativo. Mais raro era um ofício perdurar em uma mesma família por mais de uma geração. Talvez, hoje, em algumas profissões universitárias, encontra-se essa tradição, mas é mais comum, aparentemente, o contrário: a ocupação fora da profissão em que se formou no Ensino Superior.

Além da disposição para a aventura, outras condições culturais e materiais contribuíram para o êxito da colonização portuguesa. A ausência de “orgulho de raça” entre os portugueses, resultante em grande parte da mestiçagem ocorrida no próprio reino com os mouros, teria facilitado a assimilação dos dominado, “agindo como dissolvente de qualquer ideia de separação de castas ou raças”. De raças, sim; de castas, não.

A etnia – comunidade ou grupo de pessoas caracterizadas por uma homogeneidade sociocultural com língua, religião e modo de agir próprios – se distingue de raça – divisão dos vários grupos humanos, diferenciados uns dos outros por caracteres físicos hereditários, tais como a cor da pele, o formato do crânio, as feições, o tipo de cabelo etc., embora haja variações de indivíduo para indivíduo dentro do mesmo grupo. A noção de raça é bastante discutível, pois deve-se considerar com mais relevância a proximidade cultural do que o aspecto superficial.

O personalismo, que levou à dificuldade de gerar e manter formas de associação entre indivíduos autônomos orientadas para objetivos comuns e à estigmatização dos trabalhos manuais, favoreceram o predomínio na sociedade colonial das relações pessoais, marcadas pelo afetivo e o irracional. Dificultou o surgimento de formas de organização social mais amplas do que as baseadas em vínculos familiares, como as corporações urbanas de ofícios.

O impulso aventureiro só pode materializar-se em sistema predatório de exploração agrária porque:

  1. houve a possibilidade de importar escravos negros em grande quantidade;
  2. havia na colônia abundância de terras férteis e ainda não desbravadas;
  3. a Europa era um amplo mercado para os gêneros tropicais, especialmente o açúcar.

Como consequência da grande exploração rural escravista, as cidades e as organizações de artesãos livres tiveram aqui na colônia poucas condições estruturais de se desenvolverem.

O sucesso da colonização dos portugueses deveu-se, então, a:

  1. a sua ética aventureiras,
  2. a algumas características culturais, como falta de orgulho de “raça”, catolicismo, etc.,
  3. a facilidade de adaptação ao meios materiais e humanos que as condições naturais e históricas lhes ofereceram.

O que explicaria o malogro da colonização holandesa? Essencialmente, a dificuldade de adaptação às condições da colônia. Tinham espírito de empreendimento metódico e coordenado, capacidade de trabalho e coesão – qualidades ausentes no personalismo ibérico –, mas os colonos que os “flamengos” conseguiram atrair para o Nordeste brasileiro e a urbanização extemporânea da sua empresa colonial sofreram “choques naturais e culturais”. Colonos recrutados na Europa entre cosmopolitas instáveis e predominantemente urbanos concentraram-se na cidade do Recife. Esta passou a “viver por si e para si”, isto é, sem articulação real com a grande exploração agrária, em que se fundava a riqueza da colônia portuguesa.

Acho esse argumento socioeconômico mais forte do que a referência à língua e à religião protestante, que teriam se tornado mais difícil para os holandeses a comunicação e a atração de indígenas e negros. Em outras palavras, o catolicismo e a fonética teriam tornado mais fáceis estas tarefas para os portugueses. Será? Por que?

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