Ordem Social e Herança Rural

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Brasílio Sallum Jr., no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), continua a resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Raízes do Brasil, de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, desta vez examinando o legado do nosso passado colonial e seus desdobramentos até a abolição da escravidão. Esta foi o março divisório entre duas épocas.

A preeminência rural singularizou a colonização portuguesas, seja em relação à tentativa de implantação dos holandeses em Pernambuco, seja comparada à colonização espanhola da América. Só depois da abolição o mundo urbano teria ganho preeminência sobre o agrário. Na verdade, só o Censo Demográfico de 1970 registra a superação da população rural pela urbana.

O centro de toda organização dos domínios rurais foi, desde a colônia, a família patriarcal. Incluem-se no seu círculo não só os parentes de sangue, mas também os agregados, escravos domésticos e das plantações. Nela, o pátrio poder é quase ilimitado. A propriedade rural como um todo estava sujeito à sua vontade. Tendia à autarquia, pois tinha escola, capela, produzia sua alimentação cotidiana, os móveis e apetrechos do engenho saíam de suas serrarias.

Uma das teses centrais de Raízes do Brasil é que a nostalgia desta organização compacta, onde prevalecem, necessariamente, as preferências fundadas em laços afetivos, não podia deixar de marcar a sociedade brasileira, a nossa vida pública, todas as nossas atividades. A família patriarcal foi o elo social através do qual a tradição personalista e aventureira herdada dos colonizadores portugueses se aclimatou entre nós e acabou por imprimir sua marca na sociedade como um todo.

O declínio da velha lavoura e a ascensão, quase concomitante, dos centros urbanos, precipitada pela vinda da corte portuguesa em 1808 e pela Independência política, reduziu parte da preeminência dos senhores rurais. Quis? Quid? Ubi? Quibus auxilliis? Cur? Quomodo? Quando? É só ver de dentro o Congresso Nacional…

Na ausência de uma burguesia urbano-industrial independente, as principais ocupações citadinas acabaram sendo preenchidas por donos de engenhos, lavradores ou seus descendentes. Eles acabaram por transpor para as cidades a mentalidade, os preconceitos e, na medida do possível, o estilo de vida originário dos domínios rurais. A mentalidade da Casa Grande teria invadido, assim, as cidades e conquistado todas as ocupações.

Viria daí a valorização generalizada do exercício da inteligência por contraposição às atividades que requeiram algum esforço físico. Predomina o prestígio do “talento”, da “imaginação” e da “inteligência” em prejuízo das manifestações do espírito prático. Busca-se a frase sonora e a abundante erudição ostentosa de status distinto dos párias. O anel de doutor ou o diploma de bacharel são distinções de “artes liberais” em oposição às “artes manuais”. Neste universo mental personalista são absorvidas com facilidade as ideias individualistas do liberalismo econômico que passam a predominar a partir do século XIX na Inglaterra.

A construção de cidades foi uma característica da colonização espanhola. Tal divergência entre as colonizações ibéricas nas Américas se expressam nas metáforas contrapostas do semeador português e do ladrilhador espanhol, entre:

  • uma colonização que se ajusta às circunstâncias e
  • outra que se impõe a elas.

A chave explicativa estaria nas diferenças políticas entre os dois países colonizadores. A fúria centralizadora, codificadora, uniformizadora do Reino de Castela vem de um povo internamente desunido e sob ameaça permanente de desagregação. Povo que precisou lutar, dentro de suas próprias fronteiras peninsulares, contra invasores. Não só até 1492, quando os mouros são vencidos, mas até 1611, contra os mouriscos.

O reino de Castela tentava, assim, superar essa insegurança interna pelo impulso homogeneizador e pelo expansionismo. Portugal, pelo contrário, realizara sua unidade política no século XIV – antes de qualquer Estado europeu – e alcançara notável unidade étnica mediante a colonização de suas terras meridionais conquistadas aos sarracenos.

Isto o teria conduzido ao conservantismo expresso no deixar estar, no “desleixo”. Ao invés de construir um “novo Portugal” – contraposto à “Nova Espanha” dos castelhanos –, predominou entre os portugueses o esforço de exploração comercial. Nas palavras de Sérgio Buarque, “de feitorizar uma riqueza fácil e quase ao alcance da mão”.

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