Homem Cordial

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Brasílio Sallum Jr., no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), continua a resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Raízes do Brasil, de autoria de Sérgio Buarque de Holanda, desta feita, mostrando as consequências do ruralismo e do patriarcalismo para a sociedade brasileira sobre:

  1. as formas tracionais de sociabilidade, centradas na família patriarcal, e
  2. os padrões de sociabilidade inerentes ao mundo moderno.

No nosso caso, o Estado não seria mais do que uma ampliação do círculo familiar. Porém, Sérgio Buarque alerta que não existe uma gradação, mas, pelo contrário, uma descontinuidade e até uma oposição entre as duas ordens.

Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar que nasce o Estado e o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Esse processo através do qual a Lei Geral supera a Lei Particular tem sido, até hoje, na segunda década do século XXI, acompanhado de crises mais ou menos prolongadas.

A família de tipo patriarcal, antes predominante, tende a absorver intensamente os seus membros na comunidade doméstica, marcada pelos laços do afeto e de sangue, pela reduzida autonomia e senso de responsabilidade própria de seus membros. Isso se choca com certas virtudes “anti-familiares” como o espírito de iniciativa pessoal e a concorrência entre cidadãos.

Sérgio Buarque se preocupava com as consequências do predomínio do patriarcalismo sobre o funcionamento das instituições societárias, especialmente, as atividades estatais. O indivíduo formado em um ambiente dominado pelo patriarcalismo dificilmente conseguirá distinguir entre:

  1. o domínio privado e
  2. o domínio público.

A própria gestão pública apresenta-se como assunto de seu interesse particular. As funções, os cargos e os benefícios que deles aufere, relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos. Segundo Max Weber, isso deveria ser os do verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço meritório para se assegurarem os direitos e os deveres dos cidadãos, tratados igual e impessoalmente.

Tal é o caso do Brasil. Aqui quase sempre predominou, tanto na administração pública com em outras áreas, o modelo de relações gerado na vida doméstica. Esta é a esfera dos laços afetivos e de parentesco.

Esta concepção de patrimonialismo diz respeito a uma forma de domínio político em que agrupamentos enraizados em grupos particularistas da sociedade – da família e seus desdobramentos – produzem um viés na esfera pública, submetem o Estado e o interesse geral ao seu particularismo. Nessa concepção, não é o Estado a potência que organiza a sociedade, mas é esta que submete o Estado.

A conformação da vida societária em geral pelo molde derivado da vida rural e patriarcal produz no plano psicossocial aquilo que seria “a contribuição brasileira para a civilização”, a cordialidade.

Caracterizariam o Homem Cordial brasileiro sentimentos emocionais:

  1. a gentileza no trato,
  2. a hospitalidade,
  3. a generosidade,
  4. a inimizade dos desafetos discordantes de sua conduta.

A cordialidade não tem a ver com boas maneiras, com a civilidade, com a cortesia, surgida da polidez exigida à convivência coletiva nas cortes. A cordialidade possui um fundo emotivo. A civilidade, ao contrário, envolve controlar e esconder as emoções, e tratar os cidadãos igualmente com impessoalidade.

O indivíduo, escondido sob a máscara da polidez, mantém sua supremacia sobre o social, faz de sua face mais aparente um disfarce que preserva intata suas emoções. Contrariamente, para o “homem cordial”, a vida em sociedade o liberta do pavor de apoiar-se em si mesmo em todas as circunstâncias da existência, sem apelar para o “sabe com quem está falando?”.

A cordialidade é a tentativa de reconstrução fora do ambiente familiar, no plano societário, do mesmo tipo de sociabilidade da família patriarcal, dependente de laços comunitários. Expressa o horror às hierarquias e busca a intimidade no tratamento dispensado à autoridade.

Isto é uma singularidade brasileira e não portuguesa. Por isso, vivemos até hoje as dificuldades que o molde familiar e rural tende a colocar para a efetivação de uma vida social e política baseada em normas impessoais e democráticas.

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