Movimentos Intelectuais e Políticos

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Todas as interpretações do Brasil buscam os componentes do passado que interagem até o presente, impondo uma dependência de trajetória caótica – que se afasta cada vez mais das condições iniciais – sem rumo predeterminado em direção a um hipotético equilíbrio em algum ponto futuro? Esta é uma questão-chave que Brasílio Sallum Jr., no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), deveria examinar na última parte da sua resenha sobre o livro clássico da historiografia brasileira, Raízes do Brasil, de autoria de Sérgio Buarque de Holanda.

Os intérpretes do Brasil chegaram ao tempo de independência política e de urbanização acelerada? Qual é a relação entre a herança rural e a renovação da sociedade brasileira?

Mesmo no novo contexto histórico, continuaram produzindo efeitos relevantes sobre a vida social em geral, inclusive sobre as ocupações urbanas e atividade intelectual:

  1. as raízes personalistas,
  2. o espírito de aventura, e
  3. a ordem patriarcal que os encarnava.

Sérgio Buarque levanta a hipótese de que, no trabalho, “o brasileiro” buscaria apenas a satisfação, evitando a se submeter ao trabalho alienado da exploração capitalista. Seria avesso às atividades monótonas e morosas. Nunca houve aqui algo similar a uma ética do trabalho, como entre os protestantes.

Embora predomine a preferência pelas artes liberais, são raros os médicos, os advogados, engenheiros, jornalistas, etc., que se mantém fiéis a sua profissão. Em vez de seguir o curso natural da carreira iniciada, raros resistem à sedução de altos postos e cargos públicos rendosos. Preferem a segurança da estabilidade no emprego público sem a exigência de esforço pessoal equivalente, em termos de submissão do assalariado à super exploração da hora-extra, no setor privado.

Os valores da personalidade explicam também algumas características marcantes de nossa vida intelectual:

  1. o prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, do pensamento inflexível e dogmático,
  2. o horror ao vago, dúbio, ou à hesitação e à fluidez do raciocínio,
  3. a aversão à colaboração, ao esforço coletivo e, por conseguinte, à certa dependência do ritmo de trabalho do grupo e mesmo abdicação da personalidade.

Há, entre nós, a crença no poder milagroso das ideias e a crença obstinada nos princípios, que “fatalmente acabarão sendo reconhecidos”, dado o viés de auto atribuição de sucesso e originalidade a si próprio e de fracasso a outro, isto é, um bode expiatório qualquer.

O movimento positivista no Brasil denuncia o horror ao reconhecimento de o que é e a glorificação a o que deveria ser. Há preferência nacional pelo normativo em vez do positivo como início do processo de construir a Nação.

O movimento do romantismo era fruto da ciclotimia de personalidades caracterizadas por alternâncias cíclicas de disposição de ânimo entre excitação e depressão, sem, contudo, configurar características psicóticas, seja pela exaltação, seja pela depressão. Criando “um mundo fora do mundo”, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo à nossa dura realidade cotidiana. Qualquer pretexto estético serve como argumento à indiferença quanto ao conjunto social.

Os movimentos intelectuais, assim, dissociam-se de qualquer atividade transformadora da realidade social. Teriam apenas uma função ornamental. Os adornos identificadores de uma nova “nobreza”, com a mudança das famílias da casta dos aristocratas latifundiários para as cidades litorâneas, uma aristocracia desejosa de ser reconhecida pelo talento e letras, foram dados por sinais exteriores de vida intelectual:

  1. o palavrório fácil,
  2. o amor exagerado aos livros,
  3. a adoção de teorias endossadas por nomes estrangeiros pouco conhecidos, etc.

Essa função conservadora dos movimentos intelectuais adotava “modismos” via ideologias que, no seu solo de origem europeu, tinham função crítica e transformadora da sociedade.

A ideologia impessoal do liberalismo democrático, ou seja, em busca do igualitarismo social, jamais se naturalizou entre nós. Com o nosso instintivo horror às hierarquias e com a “carteirada” do “sabe com quem você está falando”, em busca de privilégios, essa ideologia sempre foi uma fachada ou decoração supostamente de bom-gosto. A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido…

Em suma, os movimentos intelectuais do Brasil independente não representaram formas de transformação, mas sim de conservação social. A Monarquia brasileira (1822-1889) expressava no plano político o predomínio da grande lavoura exportadora tradicional e da família patriarcal em uma época em que elas já perdiam o predomínio que tinham na economia e na sociedade.

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