“Batendo Panelas Vazias”: Pobres Coitados, Eram Felizes e Não Sabiam…

queda-da-renda-2016-15

Camilla Veras Mota (Valor, 30/01/17) informa que a classe A é aquela que mais tem visto a renda encolher durante a recessão. Levantamento feito pela Tendências Consultoria mostra que a massa de rendimentos real desse grupo recuou 2,9% em 2016, contra 2% na média geral, 2,1% na classe B, 0,8% na C e 1,4% nas classes D e E. Serviram de “massa-de-manobra” para os golpistas…

O desempenho é resultado da forma como os brasileiros no topo da pirâmide social estão inseridos no “mercado de trabalho” (sic): a proporção de executivos que recebiam bônus e/ou dividendos era, de longe, a maior entre todos os grupos. “A renda se confunde com o lucro das empresas, que é muito mais sensível aos ciclos econômicos”, afirma Adriano Pitoli, autor do estudo.

Na classe A, grupo em que estão as famílias com renda mensal acima de R$ 16,3 mil, 28% dos chefes de domicílio são empregadores, contra 5% na classe C.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostra que a massa de renda dos empregadores caiu 9,5% em termos reais entre janeiro e setembro de 2016, na comparação com igual intervalo de 2014, contra queda de 3,1% entre os trabalhadores do setor privado e recuo de 0,4% entre os trabalhadores por conta própria, categoria mais precária, em que se encaixam, por exemplo, os “bicos”.

Esse processo, diz o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, atinge especialmente a parcela de emergentes das classes A e B, brasileiros que ascenderam socialmente no último ciclo de crescimento. “Ele não é o empregado qualificado, que consegue se recolocar ganhando menos. Ele é um comerciante, um empresário“, avalia. Pesquisa do instituto mostra que 51% do topo da pirâmide é formado pelos primeiros membros de suas famílias, que chegaram nessa posição empreendendo.

A fatia mais expressiva de empreendedores faz com que as classes A e B sejam mais propensas a recuar durante as crises, mas é essa mesma característica que as ajuda a tomar a dianteira no processo de retomada. A dinâmica da massa de rendimentos das classes sociais em todas as recessões, desde 1998, é semelhante. Primeiro, acontece a recomposição do lucro das empresas, que só depois voltam a contratar.

Assim, a estimativa da Tendências é que a classe A perca menos já em 2017, 0,6%, contra queda de 1,9% na massa real total, e que cresça expressivos 4% em 2018, ante avanço de 1,9% na média geral.

Olhando pelo lado do consumo, parte da renda mensal do topo da pirâmide é canalizada para os investimentos. Assim, o impacto da retração dos rendimentos sobre o varejo é diferente daquele observado entre os mais pobres. Quanto mais pobre, maior parte da renda fica no supermercado. O impacto negativo no consumo é direto.

Ainda assim, o mercado de luxo não ficou imune à crise. Nos últimos dois anos, exemplifica, os lançamentos de imóveis residenciais de alto padrão recuaram bem mais que a média no país: 53,4%, conforme índice feito pela Tendências junto à Neoway-Criactive, contra 44% no total.

Em um primeiro momento, os gastos mais afetados são aqueles com serviços. O membro da classe A passa a viajar de carro, em vez do avião, por exemplo, isso se não tiver pontos-fidelidade acumulados.

Em geral, tenta o quanto pode não fazer ‘downgrade‘ de marca, para não sentir que está perdendo tanto.

Uma suposta vantagem dos brasileiros “emergentes” é que eles “se viram melhor” do que a elite tradicional. Ele está acostumado a fazer reserva, a pechinchar. Se for preciso, ele vai no atacadão… Será isso verdade ou apenas um mito populista?

As classes D e E ganharam 4,3 milhões de famílias nos últimos dois anos e voltaram a representar 56,5% do total de domicílios do país, nível próximo do registrado em 2011, 57,4%. A proporção chegou a 51,4% em 2014, a menor observada durante o processo de mobilidade social que começou em 2003, quando 70,2% estavam na chamada base da pirâmide.

Levantamento feito pela Tendências Consultoria com base na Pnad e em dados da Receita Federal – divulgados até 2015 e projeções para 2016 – mostra ainda que, nesses dois anos:

  • a classe C perdeu 670 mil integrantes,
  • a classe B, 1,2 milhão – o saldo mais negativo em termos absolutos – e
  • a classe A, 475 mil, retração de 17,7% sobre 2014, a maior em termos percentuais.

O avanço no grupo de menor rendimento acompanha a alta do desemprego no país, devido à volta da Velha Matriz Neoliberal, e revela a face mais negativa da atual recessão. Foi quem perdeu o emprego e hoje faz muito bico, ou seja, trabalho provisório.

O ciclo de mobilidade social será retomado após 2018  apenas se o eleitorado votar na volta da Era do Social-Desenvolvimentismo. No início, provavelmente, será em ritmo mais lento do que o observado até 2013. Com a mudança da dinâmica econômica, menos atrelada ao consumo popular, a classe C, por exemplo, deve ter evoluções modestas nos próximos dez anos.

As projeções indicam que essa classe de renda C, que chegou a somar 20,1 milhões de famílias em 2014, contou com apenas 19,5 milhões em 2016, próximo do nível de 2013, 19,1 milhões.

A série temporal inclui o crescimento demográfico da população no período, que adicionou, em média, 1,3 milhão de novas famílias por ano ao país.

O critério para definição das classes, por sua vez, foi arbitrário, já que não há um oficial, diz o estudo. Na classe A foram incluídas famílias com rendimento mensal superior a R$ 16.263,00, na classe B, entre R$ 5.223 e R$ 16.263, na classe C, entre R$ 2.166,00 e R$ 5.233 e na D e E, até R$ 2.166.

Os brasileiros que ascenderam de classe e viram o padrão de consumo cair com a crise viveram três momentos. Em 2015, havia uma percepção de que as dificuldades eram transitórias. Eles tentaram manter o padrão de consumo.

No ano do golpe (2016), com o recrudescimento da recessão, foi o período de “aceitar a mudança”. Em 2017, por sua vez, consolida-se um novo perfil de consumo, não apenas com novas marcas. Muitos abriram mão de plano de saúde, da escola particular dos filhos. Essas são decisões de médio e longo prazo.

Um outro lado da crise é que ela pode ensinar o brasileiro a investir mais. Existe uma geração de jovens que já entrou no mercado de trabalho com emprego formal, coisa que os pais não tiveram. Havia uma certa euforia, agora eles percebem que o cenário não é tão estável.

Uma pesquisa feita com integrantes das classes C, D e E mostrou que apenas 17% deles tinham reservas financeiras equivalentes a pelo menos um mês de renda.

One thought on ““Batendo Panelas Vazias”: Pobres Coitados, Eram Felizes e Não Sabiam…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s