Debate sobre o Juro Disparatado no Brasil

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Depois de passar pelo concurso para Professor Titular do IE-UNICAMP, no início de março de 2015, fui gentilmente convidado pelo IBRE-FGV, sob direção do Luiz Guilherme Schymura, para um seminário com os professores-pesquisadores seniores desta importante instituição. Queriam que eu respondesse três questões-chave formuladas pelo meu ex-colega Samuel Pessôa.

Ele me dirigiu perguntas aparentemente simples:

  1. Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada?
  2. Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada?
  3. Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa de poupança permanece muito baixa?

De imediato, em vez de dizer clichês a respeito, respondi-lhe que não se pode tratar com simples palavras uma questão complexa. É necessário estudar reflexões teóricas e evidências empíricas para tentar dar uma resposta mais consistente.

O encontro no IBRE-FGV-RJ foi muito profícuo com respeito mútuo entre economistas com formações teóricas distintas. Tanto foi proveitoso que o IBRE-FGV me convidou para outra apresentação em seguida.

Depois desta segunda apresentação, recebi um convite para participar de uma experiência inédita no debate intelectual brasileiro recente: economistas ortodoxos e heterodoxos debaterem um tema comum importante para a economia brasileira.

A idéia do projeto era debatermos os temas que foram objetos das minhas duas palestras. Assim, Samuel Pessôa escreveria um paper e eu outro paper sobre o mesmo tema: “Formação da taxa de poupança e os motivos que justificam a poupança ser baixa no Brasil e os juros serem elevados”.

Em seguida, ele escreveria um comentário ao meu paper e eu escreveria um comentário ao seu paper. Todo o pacote – os dois papers básicos e os dois comentários – seriam comentados por seis pesquisadores — três ortodoxos e três heterodoxos — escolhidos por nós.

Finalmente nós escreveríamos uma tréplica a todo o debate e, em seguida, faríamos um evento público no qual apresentaríamos as tréplicas e debateríamos. Este debate seria gravado. Todo o material seria posteriormente publicado em um único volume pela Editora da FGV.

Este modelo foi inspirado no debate entre James Heckman e Alan Krueger sobre as políticas indicadas para melhorar a qualidade da educação nos EUA. Veja o site do livro no link: http://mitpress.mit.edu/books/inequality-america.

O projeto foi aprovado e formalizado. Fiz meu trabalho de pesquisa há um ano e meio, empenhando-me ao máximo. Destaco também a honestidade do Diretor do IBRE-FGV — Luiz Guilherme Schymura –, pois pagou o combinado pelo meu trabalho. Porém, minha ansiedade é que os números do trabalho, que estavam super atualizados, vão ficando no passado…

Eu respeito muito a integridade intelectual do Samuel. Fomos colegas aqui no IE-UNICAMP e sempre conversamos sabendo de nossas diferenças ideológicas. Mas ele, com a postura de cientista racional, se esforça para ter empatia e se colocar no lugar do outro, ou seja, entender a razão dos contra-argumentos.

Acho que, no IBRE, eu também demonstrei que entendo bem os argumentos do neoclássico que acho mais interessante: Knut Wicksell. E os respeito, assim como outros grandes autores ortodoxos.

Para escapar do sectarismo político-ideológico, já conversei com o Marcos Lisboa (INSPER) para ele vir debater no IE-UNICAMP assim como eu visitar o INSPER, mas a iniciativa não foi adiante. Acho que os intelectuais brasileiros não podem se deixar contaminar pelos discursos de ódio e “queimar a ponte” para um diálogo respeitoso e proveitoso para ambos os lados. Afinal, alguém acha que esmagará o oponente e exterminará sua instituição?!

Para o bem da democracia brasileira e para melhor bem-estar social, temos de trocar ideias, rever nossos conceitos, buscar consensos, pactuar uma convivência amistosa e civilizada. Um primeiro passo importante é convidar professores de outras linhas de pensamentos para o debate intelectual. Sermos plurais na prática.

Samuel, em mensagem, reconheceu que eu estava corretíssimo ao aguardar seu trabalho, conforme combinado formalmente. Ele me disse que estava em dívida comigo.

Justificou-se dizendo que estava trabalhando em um texto que tentava fazer uma crítica ao pensamento da Escola de Campinas. A critica tentaria ser o mais honesta possível. Achava que seria a primeira vez que um economista ortodoxo abordaria com respeito o pensamento da Escola de Campinas.

O atraso imenso devia-se à enorme dificuldade que estava tendo. Além de reler Keynes e Kalecky, estava tentando ler toda a produção acadêmica de Campinas.

Agora ressurge um debate sobre o mesmo tema, infelizmente, apenas entre economistas ortodoxos. Gostaria de participar. No entanto, como não fui convidado, coloco abaixo para download meus textos escritos a respeito.

O impacto das altas taxas de juros brasileiras sobre a inflação é tema de debate entre economistas ortodoxos midiáticos nas páginas do jornal Valor. A discussão começou com o artigo Juros e conservadorismo intelectual, no qual André Lara Resende diz que o juro alto não só agrava o desequilíbrio fiscal, como no longo prazo mantém a inflação elevada.

Marcos Lisboa e Samuel Pessoa responderam no artigo Nada de novo no debate monetário no Brasil. Para eles, juros maiores podem resultar tanto em maior quanto em menor inflação, mas, no caso brasileiro, dizem que não parece haver evidência de que cortes abruptos de juros reduzam a inflação.

Diante da polêmica entre os economistas, André Lara Resende voltou ao tema no artigo Teoria, prática e bom senso. O articulista sublinha o interesse despertado por novas hipóteses que desafiam os modelos estabelecidos. O economista Eduardo Loyo também dá sua contribuição para o debate no artigo Neofisherianismo: vai entender

Acompanhe o debate sobre a alta taxa de juros no Brasil:

André Lara-Resende – Juros e Conservadorismo Intelectual

Marcos Lisboa e Samuel Pessoa – Nada de novo no debate monetário no Brasil

André Lara-Resende – Teoria, Prática e Bom-senso

Eduardo Loyo – Neofisherianismo: vai entender

Fernando Costa – Prática de elevadas taxas de juros na economia brasileira I

Fernando Costa – Efeito do juro alto sobre funding e concentração da riqueza financeira II

Fernando Costa – Considerações teóricas e práticas do juro alto em um sistema complexo III

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