Cadê o Sujeito Revolucionário no Brasil?

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José Roberto do Amaral Lapa conclui sua resenha do livro clássico da historiografia brasileira, Formação do Brasil Contemporâneo de autoria de Caio Prado Júnior. A colonização não se orientara no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica. Dela, da natureza que assumiu e das estratégias adotadas resultariam a sociedade composta em sua maioria de uma população na qual se projetavam os vadios, verdadeira endemia social. Havia também os que viviam, ou melhor, “vegetavam à margem da ordem social”, sem ocupações normais e estáveis.

Fora do grande domínio – família + unidade de produção – e da Igreja, que conferem organicidade à colônia, constituem-se unidades e grupos incoerentes que apenas coexistem e se tocam. Não têm, portanto, capacidade e não encontram condições para construir uma Nação soberana, coesa e justa.

Uma das teses centrais desse livro aponta esse caldo étnico formado por pretos boçais e índios apáticos, engrossados por brancos degenerados e decadentes, como sendo o substrato da nossa sociedade. É um fatal comprometedor de um processo revolucionário que pudesse romper com essa decisiva barreira de origem. Aquelas categorias sociais vieram a dar no caipira e nos desclassificados, que oneram contemporaneamente o povo e a sociedade brasileira.

O caipira é uma espécie em extinção, mas resta ainda a multidão de desclassificados, os párias que podem ser melhor definidos como desqualificados, isto é, sem qualificação para responder às exigências da ditadura de O Mercado. Acomodam-se nas fímbrias desse mercado, em um nível de vida que resvala na miserabilidade.

Esse somatório não constitui nada que a educação, a cultura e a saúde, bem cuidadas, não possam resolver. Esta seria a revolução preconizada, tendo como resultado o “equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais”, que o autor prega.

Eliminar-se-ia, assim, a condição inorgânica que impede o funcionamento da sociedade brasileira. Em todos os demais países, o contingente da população que é portador das limitações da inteligência, talento e saúde ocupa consideravelmente o maior espaço na sociedade, ou seja, não se pode culpar apenas a colonização portuguesa pela falta de capacidade em saber suprir aquelas deficiências e produzir uma nova extensão do seu povo – brasileiro – que fosse uma edição mais aprimorada.

A tese de Caio Prado perde sua extensão em termos de cobrir toda a nossa trajetória histórica, uma vez que os determinantes da colonização portuguesa, dois séculos após a Independência, e o próprio caldo étnico originário se mesclou com os novos contingentes oriundos da Europa e da Ásia, portadores de variantes que desfiguraram a suposta boçalidade e apatia das contribuições iniciais, sem que o círculo fechado fosse, todavia, decisivamente rompido.

Nesse embate confrontam-se como que dois Brasis:

  1. um organizado, com certa coerência e solidariedade, mas marcado pela corrupção, inépcia e dissolução,
  2. enquanto que o outro permanece desorganizado, vegetativo e daí inerme.

O que fazer, então?

A resposta viria 24 anos depois, ao escrever seu livro mais combativo e combatido, quando Caio Prado Júnior teoriza A Revolução Brasileira (São Paulo; Brasiliense; 1966): “revolução, em seu sentido real e profundo, significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, em especial das relações econômicas e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais”.

O Brasil já viveu alguns momentos decisivos para as transformações esperadas, que, entretanto, como sabemos, não se deram. Mas haverão outras oportunidades desde que o sujeito revolucionário, isto é, o próprio povo brasileiro esteja preparado para as aproveitar.

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