Nada De Novo No Debate Monetário Entre Os Economistas Ortodoxos

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Marcos Lisboa e Samuel Pessoa se preocuparam com a dissidência teórica de André Lara Resende em seu artigo “Juros e Conservadorismo Intelectual” e assumiram as dores da ortodoxia, publicando (Valor, 20/01/17) uma crítica no artigo “Nada de novo no debate monetário no Brasil”.

Surpreendem-se que Lara Resende não sabia que, “desde meados do século XX sabe-se que, dependendo dos parâmetros, os modelos usuais da macroeconomia podem gerar dinâmicas bem diferentes. Juros maiores podem resultar tanto em maior inflação quanto, como ocorre no modelo padrão, em queda da inflação por meio da redução da atividade econômica e aumento do desemprego”.

Teoria econômica, para eles, simplesmente, busca estabelecer todas as possibilidades de quaisquer eventos virem a ocorrer.  “Qualquer trajetória de preços é compatível com os modelos convencionais, mesmo com hipóteses bastante restritivas, como mostram os teoremas conhecidos como Anything Goes. A teoria econômica não limita o que pode ser observado nos mercados, mas, apenas, identifica as condições compatíveis em cada caso e os resultados esperados”.

Corretamente, eles distinguem a economia pura (ou teoria abstrata) e a política econômica, cujo pré-requisito é seus executores saberem fazer uma mediação via a economia aplicada, isto é, reincorporando o antes abstraído para a elaboração da teoria pura. O policy maker tem de circunstanciar seu conhecimento teórico, ou seja, datar e localizar seu implemento na realidade.

Já que a taxa de juro básica é fixada discricionariamente pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil, eles alertam para a possibilidade do COPOM antecipar que a grande depressão já está demais, para continuar suportando a pressão política decorrente, e há uma tendência firme de queda da taxa de inflação. Assim, abaixa a Selic enquanto o IPCA está caindo, mas não daí não se pode deduzir que aquele movimento puxou este!

A ortodoxia prega que a inflação corrente depende de:

  1. a ociosidade da capacidade de produção,
  2. a expectativa sobre os preços futuros.

Empresas que vendem menos tendem a reduzir preços. Uma maior inflação esperada, porém, significa maiores custos com matérias primas para a produção no futuro e, portanto, requerem novos aumentos de preços para a reposição dos estoques.

Quando os ortodoxos dizem que “quanto maior for a credibilidade da política, menor será o custo de aumento do desemprego desse ajuste”, entende-se, costumeira e corretamente, que quanto maior for o sofrimento da depressão, maior será o custo de aumento do desemprego desse ajuste! É uma tentativa de ilusão ameaçar os já desempregados com o desemprego ainda maior!

Lisboa e Pessoa dizem o óbvio ululante: “quando a taxa neutra de juros se aproxima de zero a política monetária perde o seu instrumento”. Zero é nada!

Com taxa de juro próxima de zero, embora os encargos financeiros governamentais sejam baixos, torna-se fácil para o Federal Reserve recomprar títulos de dívida pública que investidores não têm esse incentivo para os carregar.

O afrouxamento monetário não induz a retomada do consumo e do investimento em situação de “armadilha de liquidez” ou preferência pela liquidez generalizada. Mas a taxa de juro próxima de zero propicia qualquer investimento com taxa de juro interna de retorno positiva ser estimulante e leva a transferência de recursos da renda fixa para a renda variável. As empresas não-financeiras podem se capitalizar mais facilmente com emissão primária na bolsa de valores.

O que é orientação prospectiva (“forward guidance“)? O que é isso: “o banco central anuncia que no futuro os juros de curto prazo permanecerão abaixo do que o devido para compensar o período em que os juros ficaram mais altos do que deveriam ser (nulos em vez de negativos) “? Desde quando “a política de juros é compensatória, ao longo do tempo”, se as perdas e os ganhos dos distintos investidores são diversos em cada momento? Quem perdeu já era, pode já ter saído do mercado…

Lisboa e Pessoa alertam para o risco da elevação dos juros nominais serem associados a uma inflação mais alta, tipo “se o Fed é onisciente, se ele está elevando os juros é porque ele sabe que há uma ameaça inflacionária”. Em função da elevação das expectativas inflacionárias, mesmo com a economia muito fraca, os empresários aumentam os seus preços, e, consequentemente a inflação sobe. É a velha “profecia autorrealizável” alardeada por economistas heterodoxos em função da antecipação de custos esperados: juro maior acarreta maior inflação.

Corretamente, os economistas da FGV/INSPER criticam Lara Resende, afirmando que “nada indica que a conjectura seja válida para a economia brasileira. A nossa maior taxa de inflação convive com uma elevada taxa real de juros, o que vai de encontro à motivação do debate sobre política monetária nos países desenvolvidos, onde as dificuldades decorrem de juros reais perto de zero”.

Eles dizem que a trajetória pouco usual – juro maior provocando maior inflação – tem como hipótese que a política monetária não afete o juro real. Eu digo que os agentes econômicos determinam o juro real, via preços, só quando não há uma Autoridade Monetária discricionária fixando o juro nominal bem acima da taxa de inflação.

Lisboa e Pessoa, finalmente, argumentam que “os testes empíricos disponíveis indicam que o modelo padrão funciona por aqui: aumento da taxa real de juros reduz a demanda, como ilustra a atual queda da inflação em contraposição ao afrouxamento da política monetária a partir de agosto de 2011. São bem-vindas evidências contrárias”.

Terminam repetindo um lugar-comum: “o combate à inflação requer política fiscal que garanta o ajuste de longo prazo das contas públicas. Caso contrário, a política monetária será ineficaz, seja aumentando, seja reduzindo a taxa de juros. O risco de não fazermos um ajuste fiscal sustentável será a volta da inflação disfuncional”.

Só não provam que um ajuste fiscal será sustentável sem baixar o juro de referência para os encargos financeiros do setor público

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