Teoria e Prática Sem Sentido

 

suicidio-de-cobraEm sua réplica – Teoria, Prática e Bom Senso (Valor, 27/01/2017) –, André Lara Resende diz que “ao escrever sobre a alta taxa de juros no Brasil, em artigo para o Valor, eu tinha consciência de que a iniciativa era complexa e potencialmente polêmica”.

Complexa” porque ele possui a arrogância típica dos esnobes economistas ortodoxos brasileiros: “eu me propunha a expor, para um público não especializado, questões que estão sendo discutidas na fronteira da macroeconomia”. Pasmem!

Polêmica” porque ele louva a independência de seus ex-colegas para fazerem o que bem entenderem no COPOM, para si e para os demais rentistas: “o Banco Central está sob permanente pressão política para reduzir o juro, isolado na defesa da estabilidade monetária, em um país onde a demanda por gastos públicos é inesgotável e a irresponsabilidade fiscal é regra. Quando a inflação finalmente dá sinais de ceder e o Banco Central dá início ao corte da taxa básica, pode parecer inoportuno levantar a hipótese de que a política monetária das últimas décadas foi equivocada”.

Diz que “entre os que questionaram a oportunidade do texto, uma vertente sustenta que, como a discussão acadêmica é ainda inconclusiva, seria melhor aguardar antes de abrir a debate”. Ora, esses membros da casta dos sábios-intelectuais acham que ainda o bolo não está pronto para ser servido à plebe rude

“Uma segunda vertente teme que a crítica à teoria monetária dominante, ainda que analiticamente séria e empiricamente fundamentada, possa vir a dar margem para que a profusão de teóricos idiossincráticos que assola o país ganhe espaço na formulação de políticas públicas”.

Leia-se: a ortodoxia acha que economistas com comportamento ou pensamento considerado incomum ou extravagante como eu com minha Tese de Livre-Docência, aprovada em concurso realizado em 1994, em que organizei os postulados de uma Teoria Alternativa da Moeda contra a hegemonia da Teoria Quantitativa da Moeda, constituem mera esquisitice, excentricidade

Concordo com o Lara Resende que “está em curso um intenso processo de revisão da ortodoxia monetária, que deverá refletir também o avanço tecnológico e a perda de importância do papel-moeda no sistema de pagamentos. A importância do tema para o interesse público exige que a discussão não seja feita a portas fechadas, que não fique restrita à academia. Assim como foi o debate na Inglaterra nos séculos XVIII e XIX, deve ser discutido também através dos meios de comunicação vigentes. É parte do processo de educação democrática”.

Passa então à questão de fundo teórico que parece ter dado margem a alguma confusão. Michael Woodford, guru da moda, sugeriu que para escapar da armadilha da deflação o banco central deveria utilizar o que se convencionou chamar de “forward guidance”, algo como “direcionamento futuro”, anunciando que a taxa de juros ficaria em um nível muito baixo por um período longo de tempo.

Lara Resende acha que, “quando o banco central anuncia que manterá a taxa de juros fixada em um determinado nível por um tempo suficientemente longo, a taxa de inflação de equilíbrio é dada pela equação de Irving Fisher, ou seja, é igual à taxa nominal fixada pelo banco central menos taxa de retorno real da economia. Se a taxa nominal fixada pelo banco central for baixa, a inflação será baixa, se for alta, a inflação será alta. Inverte-se assim a clássica relação entre juros e inflação. Este é o resultado lógico do atual modelo macroeconômico de referência, cujo principal formulador é o próprio Michael Woodford, com a hipótese de antevisão perfeita, a versão não estocástica, ou sem incerteza, das expectativas racionais”.

serpenteEvidentemente, aí “a cobra se engole pelo próprio rabo e desaparece”! O raciocínio sobre a correlação entre taxa de juro e taxa de inflação tem a causalidade invertida em relação ao proposto pela ortodoxia: em vez da primeira determinar a segunda via regulação da demanda agregada, a segunda determina a primeira via as pressupostas expectativas racionais dos price-makers! Eles pensariam da mesma maneira que os economistas novos-clássicos e/ou os novos-keynesianos: se a Autoridade Monetária é onisciente, seus eméritos diretores sabem tudo sobre a inflação futura, então, via juros, indicam a eles qual será a inflação futura.

Então, a taxa de juro deixa de ser fixada considerando desconhecida a taxa de inflação futura. No mundo da fantasia, a inflação esperada determina exatamente qual será a taxa de juro. E assim basta baixar esta que o serviço estará completo! 

Todos os price-makers, naturalmente crentes e adeptos fervorosos do mainstream da Economia, obedientemente obedecerão a tudo o que Seu Mestre sinalizar…. Isto é o que dá estagiar como senior research fellow na Columbia University: assiste muitos filmes infanto-juvenis em New York e fica debiloide como um adolescente norte-americano. 🙂

Lara Resende aceita que o aumento do juro reduza a inflação no curto prazo, mas quando fixado por um período prolongado, faça a inflação convergir para o nível da taxa de juros. Se o juro em longo prazo é próximo de zero, lá nos States, a inflação será próxima de zero. Se o juro em quinze meses aqui é 14,25% aa, a inflação se aproximará dessa taxa, por exemplo, 10,7% em 2015. Aquela arrastou esta! 🙂

E ele novamente deixa pasmos os economistas heterodoxos, dizendo que “o resultado ressalta a interdependência das políticas monetária e fiscal, uma questão política crucial que por muito tempo foi desconsiderada pela teoria”. Ora, isto ele diz porque não estuda a teoria dos iconoclastas. Nesta, a coordenação entre todos os instrumentos de política econômica é um bê-á-bá de cursos de Macroeconomia Aberta.

Lara Resende acha que, “apesar de um certo irrealismo da hipótese, é difícil sustentar que as expectativas sejam sistematicamente irracionais”. O que economistas comportamentais sugerem é que as decisões econômico-financeiras, de modo contumaz, são influenciadas por vieses heurísticos. Estes vieses cognitivos são as tendências de pensar de certas maneiras — aprendidas na “escola-da-vida” — que podem levar a desvios sistemáticos de lógica e a decisões irracionais com atalhos e erros.

O mais razoável, para Lara Resende, “é supor que, através de um processo de aprendizado iterativo, as expectativas tendam para o que seriam expectativas racionais. É o que fazem Woodford e Garcia-Schmidt”. Novamente o argumento de autoridade citando o guru da moda. Eles assumem que as expectativas são formadas através de um processo de aprendizado iterativo ao qual dão o nome de “reflexivo”.

Afirmam que “só os equilíbrios que resultam de um processo de expectativas formadas a partir de um processo de aprendizado, como o reflexivo proposto por eles, no qual as pessoas comparam suas expectativas com os resultados dessas expectativas, num processo iterativo, têm relevância prática. Nesse caso, demonstram, não há razão para crer que o equilíbrio final corresponda ao das expectativas racionais”.

Concedem, contudo, “se as taxas de juros forem interpretadas como portadoras de informações que o banco central possui, mas que todo mundo mais desconhece, o resultado é efetivamente fazer com que a inflação acompanhe a taxa de juros fixada pelo banco central. A taxa nominal fixada pelo banco central funcionaria, nesse caso, como balizador das expectativas”.

Esta é uma velha suposição dos modelos com expectativas racionais: a Autoridade Monetária dispõe de informações que nenhum outro agente econômico possui! Ora, aqui, a Lei de Acesso às Informações, promulgada pela Dona Dilma – para desgosto dos golpistas – rompeu este pilar do edifício ortodoxo… 🙂

Lara Resende cita seu corporativismo como fosse uma virtude. “O Banco Central do Brasil tem quadros competentes, suas diretorias foram sempre ocupadas pelos melhores profissionais, mesmo durante os governos mais economicamente irresponsáveis, e tem cumprido o seu papel de defensor da estabilidade monetária. Tenho plena consciência da importância da autonomia do Banco Central. Por isso mesmo, sempre evitei me manifestar diretamente sobre questões monetárias conjunturais”.

Traduzo o defeito do argumento: durante os governos supostamente sob hegemonia do PT, sob temor de O Mercado, suas diretorias nem sempre foram ocupadas pelos melhores profissionais, já que manteve inúmeros egressos da PUC-Rio e de O Mercado, e não ousaram colocar lá nenhum economista social-desenvolvimentista que fugisse do lugar-comum do mainstream. Manteve, assim, uma taxa de juro totalmente disparatada em relação ao resto do mundo, mas benéfica a si e aos demais rentistas brasileiros, cerca de dez milhões de pessoas que aplicam em fundos de investimento e títulos e valores mobiliários. A concentração de riqueza financeira se aguçou contra o igualitarismo social defendido pela esquerda.

Parece a Lara Resende uma questão de bom senso perguntar: deve-se continuar a ministrar as doses maciças do remédio ou reduzir rapidamente a dosagem?

Ele saberia responder se colocasse uma questão básica e primária: a quem beneficia a manutenção de tal política econômica?

O último parágrafo do artigo dele é mais uma defesa da política econômica do governo golpista, que dobrou a taxa de desemprego, dando continuidade ao estelionato eleitoral que houve com o retorno da velha Matriz Macroeconômica em 2015 com Joaquim Levy. O ajuste fiscal passou a ser a única prioridade, para não aumentar a carga tributária sobre os mais ricos, deixando de lado o programa social-desenvolvimentista que venceu a eleição de 2014.

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